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rss  Vol. XIX - Nº 322         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 25 de Fevereiro de 2020
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Pedra de Toque

Na obra de arte só a forma é essencial

Por Lélia Pereira Nunes

 

Faço de título a afirmação roubada de um estiloso email do Eduíno de Jesus, em 2005 no qual, sabiamente, discorre sobre ser ou não ser formal. Resposta de mestre às minhas indagações ansiosas sobre o texto epistolar «Carta a Adelaide» acerca do romance Sorrisos por Dentro da Noite (2004) da escritora Adelaide Freitas. De pronto me esclarece que nunca se é formal demais em Arte e a escrita literária é antes de tudo um trabalho artístico. Embevecida, me sinto cativada pelo Eduíno a maravilhar-me com o intelectual brilhante e a deliciar-me com a doçura da sua prosa humorada e perspicaz. O quid próprio da obra de arte é preciso procurá-lo na sua formatividade. Na obra de arte só a forma é essencial. [...] Aplica isto respectivamente à poesia, à escultura, à pintura, à música, à dança, e  repara se não estás de acordo com o que eu digo. Não transformes o teu texto noutra coisa. E não receies ser formal demais ou de menos.

Será que devo acrescentar mais alguma coisa ao artigo? Porque o romance da Adelaide é de uma suavidade que enternece e ao mesmo tempo é forte. Um suspiro fundo que me prendeu até o ponto final, não consegui nem respirar a pausa da vírgula, denso do princípio ao fim. Eduíno responde assertivo: – Achas que lhe falta alguma coisa? Eu acho que não. Todavia, se puderes encaixar em alguma parte isto que dizes no email que me escreveste, fá-lo. É lindíssimo. Sê, pois, formal quanto puderes sempre que escreves e seja o que for que escrevas.

Então, o milagre está mesmo é na forma. Eureka!

Eis aí, uma lição para sempre lembrar. Tenho-a bem à mão, num arquivo no Ultrabook dedicado ao Eduíno, um relicário de memoráveis passagens e muitos ensinamentos.

Bem, tudo isso vem a propósito da minha viagem a Portugal nas vésperas do Carnaval. Começo a curtir os preparativos da viagem pensando nas prendas e nos livros que pretendo levar – «já que vou». Antevejo os abraços dos amigos, a conversa pegada no correr da noite e o prazer de deambular pelas ruas de Lisboa a matar saudades da última estadia na airosa cidade que celebrava 40 anos do 25 de Abril. Uma bonita festa onde não faltou o cravo vermelho, nem a Grândola de Zeca Afonso cantada por toda parte desde o Largo do Carmo, palco da Revolução dos Cravos. Lisboa emerge no abril festivo com resquício de inverno e o aflorar da primavera. Acarinha-me um sol cálido, aconchegante, a iluminar de leve as antigas fachadas rejuvenescidas pelo banho de luz e de cores vibrantes, desvendando a beleza empanada pelo desgaste do tempo. Há naquele jeito de velha cidade, um ar despudorado de «dama faceira» enlaçada pelo insinuante Tejo num eterno namoricar. Um pulsar de vida em ritmo de fado que adoro.

Várias vezes, ao longo de anos, caminhei de braço dado com Eduíno por essa Lisboa linda, cheia de história, de poesia, de música, de arte, ouvindo-o a contar histórias e «causos» enquanto bebia de suas palavras.

No último abril não foi diferente. Na companhia de Eduíno de Jesus seguimos (Sebastião e eu) para Amadora com o objetivo de visitar a exposição «Bual Revisitado», na Galeria Municipal Artur Bual, integrada na comemoração dos 40 anos do 25 de Abril. Igualmente, assinala a inauguração da nova sede da Galeria, a Casa Aprígio Gomes, um bonito exemplar das casas erigidas no início do século XX.

Ali, naquele espaço onde a Arte fez morada, conheci um dos grandes expoentes das artes plásticas de Portugal, introdutor do «gestualismo» – Artur Bual, guiada por seu particular amigo e uma das figuras mais admiráveis e destacadas da cultura portuguesa, de saber enciclopédico – Eduíno de Jesus.

Penetrei nos labirintos da arte de Bual de que, até aquela tarde, quase nada sabia. No entanto, não desconhecia a sua postura vanguardista pelos caminhos do Abstracionismo e por ser a mais importante referência do Gestualismo, a pintura gestual ou action painting, na pintura portuguesa.

Pelas mãos de Eduíno caminho encantada e impactada pelo «mundo Bual», representado por essa retrospectiva de suas obras. Na sua arte pictórica sobressai uma intensidade cromática que associa o negro aos tons de cinza, marrom – todos sombrios, profundos. De repente, surge um vermelho sangue, quente, lampejos de amarelo fulgente, como na imensa tela dos cavalos em magnífico galope. A velocidade do gesto, o movimento, a figuração da força animal no dançar convulsivo, sob o ritmo transbordante do pincel de Bual.

Eduíno capta a minha ânsia de querer perceber tudo, de devorar, literalmente, as suas palavras e correr para registrá-las sem perder nada da análise minuciosa, reflexiva, histórica. Tarefa inglória. É como querer chupar cana e tocar flauta ao mesmo tempo. Pelo menos, tento. Andamos de sala em sala, em passos de procissão, detendo-se num ou noutro detalhe apontados e decifrados com mestria por Eduíno. Ali, estávamos a respirar arte, num deambular sagrado, mágico, fascinante. Admiro expressivas representações do ato da «Crucificação», «Pietás» e cabeças de «Cristo» que, no seu significado maior, espelham o sofrimento, a angústia, a perturbação social da humanidade. Nada convencional se pensarmos nas milhares de Vias Sacras espalhadas por igrejas e museus. Mais à frente, alguns nus femininos, em provocante pose erótico sensual, chamam minha atenção enquanto o arguto crítico distingue o gesto, um ar irreverente na representação esquemática do corpo da mulher.

Há em Bual uma riqueza de movimentos, ritmos, de incidência da luz, rasgos de branco, sobretudo nos retratos, como no «Retrato de Guilhermina Bual» que é de uma beleza extraordinária na definição do gesto, na pose elegante e suave, na luz reveladora do rosto.

Sendo eu filha de fotógrafo – acostumada à exposição da luz no preto e branco, ao contraste dos tons sombreados da fotografia revelada e fixada em papel ou a «viragem em sépia» –surpreendeu-me a concepção de Artur Bual na criação dos seus retratos, onde a estrutura do figurativo em interação com gesto liberto, impulsivo, em tons antagônicos do claro-escuro, resulta numa estupenda criação artística que identifica e dignifica o talento maiúsculo do pintor português. Cito à guisa de exemplo os retratos de Aquilino Ribeiro, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Bocage e do próprio Eduíno de Jesus que, por sinal, ilustra a capa do seu livro Silos do Silêncio (2005).

Na sua fala, pausada e quase encabulado do seu saber, o poeta dá lugar ao crítico de arte, mas, também ao amigo leal e às suas indeléveis memórias. Traça o perfil biográfico e a trajetória artística de Artur Bual desde a exposição do seu primeiro quadro gestual, em 1958, no I Salão de Arte Moderna da Sociedade Nacional de Belas-Artes até o repouso final do talentoso pincel e sua arte pictórica gestual, abstrata, expansiva e informal. Foi com Bual que esse processo de pintura começou em Portugal e foi na sua obra que atingiu, e mantém ainda, a sua mais alta expressão estética. Portanto nenhuma lista sobre pintores e as diferentes tendências da pintura abstrata portuguesa no último meio século, será completa sem o nome de Artur Bual, como bem enfatiza Eduíno sobre o saudoso amigo que partiu em 1999.

Sim, Bual pintou muito, de muitas maneiras, com certeza que a exposição que vimos não representa todas. Todavia, foi o bastante para me deixar em êxtase e pelo privilégio ímpar de desfrutar do saber profundo, na elegância da companhia do amigo amado, na reafirmação da lição inesquecível – «afinal o que importa na obra de Arte é o real ou a forma que apresenta na obra enquanto assunto dela configurado na forma da expressão.»

Termino. Gosto de imaginar que Eduíno está para ali a ouvir umas Sonatas e Sinfonias de Haydn, seu compositor predileto, talvez a Sinfonia 94 – «Surprise», 2nd, a mesma que acabo de ouvir.

Crónica
Faço de título a afirmação roubada de um estiloso email do Eduíno de Jesus, em 2005 no qual, sabiamente, discorre sobre ser ou não ser formal. Resposta de mestre às minhas indagações ansiosas sobre o texto epistolar «Carta a Adelaide» acerca do romance Sorrisos por Dentro da Noite (2004) da escritora Adelaide Freitas.
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