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rss  Vol. XIX - Nº 322         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 08 de Abril de 2020
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Resposta a um postal do amigo Joe Ferreira

(no trigésimo dia da sua morte)

Por João Medeiros Constância*

22 de dezembro – Ao cair da tarde, após ter chegado a casa, resolvi ouvir as mensagens telefónicas do dia. Não queria acreditar. Chegava a informação inesperada e altamente chocante: «faleceu repentinamente o Padre Joe Ferreira...». Durante alguns minutos fiquei atordoado sem saber o que fazer nem o que dizer. Desaparecia um grande amigo de infância e... de sempre. Pouco depois, fui ver o correio postal e deparei, para meu espanto, com um postal de Boas Festas nada mais, nada menos do que do Padre Joe Ferreira. Demorei um mês para ter coragem de lhe responder. É ao que finalmente venho.

Conheci o Joe Ferreira em 1948, era ele seminarista em Angra de Heroísmo. A partir daquele ano, aproximámo-nos de tal maneira que acabou por surgir uma forte amizade, a qual durou uma vida uma vida inteira. No verão, passávamos fins de semana juntos, ora na sua terra natal – a Ribeira Grande – ora na minha, a Relva.

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Padre Joe Ferreira - O LusoPresse também recebeu muitos dos seus escritos. Foto cedida gentilmente por Francisco Resendes, do jornal Portuguese Times.

Passados alguns anos, resolveu emigrar para os Estados Unidos (Califórnia), onde se foi juntar aos pais e restante família. Pelo facto de, tanto ele como eu, gostarmos muito de escrever, foi-me possível ir acompanhando de perto a sua vida de seminarista, já de estudante de Teologia, na Califórnia, e mais tarde, depois da sua ordenação, em 1959, a sua atividade de pároco em diversas localidades daquele estado norte-americano. 

Encontrámo-nos várias vezes ao longo da vida: em Coimbra, em S. Miguel, aonde ele se deslocava com certa frequência, e até em Oakland, onde ele viveu após a aposentação.

É altura de pôr em evidência a verdadeira paixão que o Padre Joe Ferreira nutria pelo jornalismo. Começou a escrever para os jornais de Ponta Delgada e de Angra era ainda aluno do Seminário. Ao longo dos seus 78 anos, escreveu milhares – repito – milhares de artigos para jornais  dos Açores e da diáspora, versando quase sempre temas sobre tradições, usos e costumes dos Açores, mormente  da Ilha de S. Miguel. Pode-se afirmar que o culto que ele nutria pela etnografia açoriana levou-o a ser um digno continuador dos mestres:  Armando Côrtes-Rodrigues e  Francisco Carreiro  da  Costa. Escreveu também muitos artigos sobre açorianos que se distinguiram nos mais diversos domínios. Posso citar, a título de exemplo, alguns que me recordo de ter lido: «Recordando Edmundo de Oliveira», «Recordando o Senhor Ezequiel», «Recordando o cientista e literato Ten.-Cor. José Agostinho».

Joe Ferreira cultivou a amizade como bem poucos. Eram vários os amigos a quem ele enviava, com frequência, recortes de jornais cujos assuntos lhes interessavam diretamente.

Quase a terminar estas simples palavras, ditadas pela saudade, desejo citar o que Santos Narciso escreveu, no Atlântico Expresso, em 24 de novembro do ano transato, a propósito do livro Power of the Spirit: «O padre Joe Ferreira, Ferreira Moreno, um ribeiragrandense de gema, a quem não foi feita devida justiça pelo seu grande trabalho de muitas décadas de recolha de etnografia e história de figuras e factos dos Açores que vem semeando em dezenas de publicações onde colabora, tem sido um entusiasta da preservação da cultura açoriana na Califórnia e a sua participação neste livro é o corolário deste merecimento que nunca é demais realçar.»

Tendo em conta, como é do conhecimento geral, o trabalho árduo e persistente de jornalista levado a cabo por Ferreira Moreno em prol dos Açores, de S. Miguel e, de um modo particular, da Ribeira Grande, apraz-me propor ao Sr. Presidente da Câmara daquela cidade que se digne perpetuar a memória do padre Joe Ferreira atribuindo o seu nome a uma rua ou praça da sua cidade natal.

Laval, Quebeque

* João Medeiros Constância é natural da freguesia da Relva, S.Miguel (1934). Completou curso do Liceu Nacional de Antero de Quental em Ponta Delgada e foi estudante da Faculdade de Ciências e da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se formou em Ciências Geográficas. Foi professor metodólogo de Geografia no Liceu Normal D. João III, em Coimbra, de 1962 a 1976, ano em que regressou a Ponta Delgada, tendo lecionado na Universidade dos Açores, na Escola do Magistério e na Escola Secundária Domingos Rebelo. Participou em congressos e seminários da sua especialidade, frequentou vários cursos de atualização, proferiu conferências e comunicações em colóquios e publicou vários trabalhos didáticos e de investigação. De 1967 a 1969 participou na guerra do Ultramar, com a patente de capitão miliciano. Em 1999 fixou residência em Laval, Quebeque. Tem colaborado em várias iniciativas promovidas pelo LusoPresse relativas ao ensino de Português na comunidade de Montreal.

Crónica
22 de dezembro – Ao cair da tarde, após ter chegado a casa, resolvi ouvir as mensagens telefónicas do dia. Não queria acreditar. Chegava a informação inesperada e altamente chocante: «faleceu repentinamente o Padre Joe Ferreira...». Durante alguns minutos fiquei atordoado sem saber o que fazer nem o que dizer. Desaparecia um grande amigo de infância e... de sempre. Pouco depois, fui ver o correio postal e deparei, para meu espanto, com um postal de Boas Festas nada mais, nada menos do que do Padre Joe Ferreira. Demorei um mês para ter coragem de lhe responder. É ao que finalmente venho.
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