logo
rss  Vol. XIX - Nº 322         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Editorial

Os limites da democracia

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

No mundo há mais de dois mil milhões de muçulmanos, a maioria dos quais recusa a democracia pelo facto de que, segundo o Alcorão, os homens devem obedecer à lei de Alá e não à lei dos outros homens. Resultado, a maioria dos países muçulmanos são dirigidos por partidos autocráticos ou ditaduras sob a proteção legalista de um imã, de um emir, de um califa ou dum rei que se intitula a si mesmo comandante dos crentes.

Na China, uma população de mais de 1 300 milhões de almas vive num regime autocrático, a que os dirigentes chineses designam por meritocracia e que na verdade é um capitalismo de estado subordinado à vontade de um partido único, o Partido Comunista. As raras veleidades de um governo democrático são rapidamente e cruelmente abafadas pelas botas dos soldados, como aconteceu em Hong-Kong no ano passado, ou há 25 anos, sob os tanques de guerra, na praça Tiananmen.

Em África, poucos são os países que vivem realmente em democracia, mesmo naqueles onde se realizam periodicamente eleições. Os regimes ditatoriais ou resultantes de golpes de estado ultrapassam de longe todas as democracias de facto. A corrupção, o tribalismo, a prepotência das classes políticas e militares, aliadas à expansão do islamismo, fazem daquele continente o alfobre de todos os genocídios, atrocidades e violações dos direitos dos povos.

Restam-nos as democracias parlamentares da esfera do Ocidente. O que é que distingue este sistema de todos os mais? Numa palavra, a Liberdade. A liberdade de os seus cidadãos poderem exprimir publicamente as suas ideias, ainda que essas ideias ponham em causa, mesmo injustificadamente, os poderes públicos. A liberdade de os seus cidadãos poderem circular por toda a parte sem terem que dar contas a ninguém. A liberdade de poderem trabalhar por conta de outrem ou autonomamente, de poderem conceber, construir, fabricar, vender e distribuir produtos ou serviços segundo as regras prescritas na lei e não sob a alçada crítica do estado. A liberdade de poderem viver em paz, de poderem escolher os seus parceiros maritais ou sexuais, as suas capelas ou os seus gurus ideológicos, sem recearem a prepotência das autoridades, das regras do clã, dos costumes tribais, e até mesmo de poderem subtrair-se à pressão familiar e social. E, finalmente, the last but not the least, a liberdade de poderem escolher os seus dirigentes políticos.

É esta, afinal, a característica mais prezada do mundo ocidental, a liberdade, que milhares de cidadãos, oriundos de países antidemocráticos, particularmente das zonas governadas pelos princípios do Profeta, procuram nos nossos regimes democráticos.

Winston Churchill dizia que a democracia é um mau sistema, mas que é o menos mau de todos os sistemas.

Realmente não se pode dizer que a democracia é o paraíso. Longe de lá. Há muita reforma a fazer. Há muito para corrigir. A Justiça é mercável. A Saúde dependente do arbítrio dos lobbies sindicais e corporativos. A Educação, enleada num eterno laboratório pedagógico ideológico. A fiscalidade à mercê das concorrências de classes. A economia pendurada ao que der mais. O futuro dependente dos jogos partidários.

Os nossos regimes democráticos vivem sob a pressão constante das urnas. Isto é, os partidos políticos só podem governar a curto prazo, para não serem rejeitados nas próximas eleições. Daí que prometam mar e mundo durante a campanha eleitoral e acabam por fazer, muitas vezes, o oposto do que prometeram. Porquê? Porque o eleitor continua a acreditar em milagres. E, como se diz na nossa terra, com papas e bolos se enganam os tolos.

Mas, na verdade, o nosso regime democrático está assim feito, que nem sequer são as promessas que acabam por eleger os candidatos. Os eleitores raramente votam a favor de programas políticos ou de candidatos. As urnas não passam de vomitórios do descontentamento.

Foi o que se passou com o último governo pequista de Madame Marois. O seu governo tinha um ambicioso programa de governar como bom governo provincial, embora na manga guardasse sempre a famigerada carta do referendo.

O bom povo não gostou que lhe vendessem gato por lebre. Não gostou da ideia de se ver precipitado numa ronda de conflitos com os grupos éticos e o federal. Não gostou dos rebuçados dados aos amigos amargurados pelos resultados dos votos. Finalmente, os quebequenses não votaram pelo partido Liberal, votaram contra o partido Québécois, escolhendo o que lhes parecia mais apto a gerir o aparelho de estado, não obstante a pesada herança de compadrio e corrupção que este arrastava consigo.

As nossas democracias também têm de se reformar. Ou reformar o sistema de escrutínio. É preciso que o sistema atraia os mais idealistas, os mais isentos, os mais ferrenhos defensores do bem comum e deixe de ser um trampolim para os interesses da classe, dos amigos, dos defensores do lucrativo «statu-quo».

 

Editorial
No mundo há mais de dois mil milhões de muçulmanos, a maioria dos quais recusa a democracia pelo facto de que, segundo o Alcorão, os homens devem obedecer à lei de Alá e não à lei dos outros homens. Resultado, a maioria dos países muçulmanos são dirigidos por partidos autocráticos ou ditaduras sob a proteção legalista de um imã, de um emir, de um califa ou dum rei que se intitula a si mesmo comandante dos crentes.
Editorial.doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020