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rss  Vol. XIX - Nº 322         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 25 de Fevereiro de 2020
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Pedra de Toque

Sob o signo de Mendacium arrancou 2015

Por Lélia Pereira Nunes

[...]Só lá do alto do poleiro azul o sol doirado e verde, o fulvo papagaio (estou bêbedo de luz, caio ou não caio?) nos lembra a dor do tempo que se perde.

Carlos de Oliveira

Do poema «O Tempo», in Colheita Perdida

O Natal ficou para trás, o Ano Novo fez sua entrada triunfal com direito a muita festa, ao delicioso borbulhar de champanhe a pinicar o céu-da-boca e a uma esplendorosa queima de fogos de artifício que iluminou os céus da Ilha e fez brilhar a esperança no coração da nossa gente, sacramentada nos milhões de abraços e beijos. A Esperança do «verbo esperançar» de almejar, de querer e realizar. Esperançar de fazer acontecer, correr riscos, construir e de mudar. Não confundir com o verbo esperar de ficar à espera de braços cruzados, de esperar por dias melhores vendo a vida passar como se estivesse numa estação à espera do trem de um incerto destino. Isso não é esperança, é apenas espera. Esperançar é diferente. Tal qual cantou Geraldo Vandré com «Caminhando» ou «Pra não dizer que não falei das flores» e seu memorável refrão – Vem vamos embora/Que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer [...],grito de resistência da geração dos anos sessenta.

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Encontro com Eduíno de Jesus, em Lisboa.

Por querer saber «esperançar» não considero o 1° de janeiro um dia como outro qualquer, um simples virar da folhinha do calendário anunciando o ano novo, com duração de 365 dias, 52 semanas e doze meses na vã tentativa de cercar o tempo imparável. Surpreende, sobretudo, por conseguirmos sobreviver com dignidade apesar de todas as pressões e cobranças sofridas no correr dos dias.

Seu amanhecer é inquieto, mítico, energia pura brotando por todos os poros, cheio de prognósticos e desejos. Uma inquietude que navega por todo janeiro a nos desafiar.

Contudo, pra início de conversa, 2015 arrancou tecendo a nova tapeçaria da sociedade brasileira, uma nova trama da política nacional e no avesso, num emaranhado de nós, escondeu o verdadeiro retrato do País com despistes e engodos. Cresce o pressentimento de que não vem aí bom tempo... Isso é assustador, dá medo. O jeito é encarar, respirar fundo e avançar com coragem, sabedoria, fé e muita paixão.

Em artigo publicado em fevereiro de 2014, escrevi que o novo ano começava atropelado e seguia atropelando o calendário em função de dois acontecimentos – a Copa do Mundo no País do Futebol e a Maratona Eleitoral de outubro no Brasil Maravilha. Da Copa guardamos a tragédia da derrota para Alemanha. O placar implacável de 7x1 se cristalizou na memória dos brasileiros. Merecemos. Quando soou o apito final, a 13 de julho, a tristeza tomou conta dos brasileiros, mas não blindou a alegria do nosso povo que vive a esperança até os limites da exaustão. Já o Brasil Imaginado, parido pelo marketing eleitoral, dividiu o País e concedeu à Dilma Rousseff mais quatro anos na Presidência da República enquanto o País real andava para trás numa visível estagnação econômica, queda do PIB, aumento do custo de vida e uma inflação (oficial) que fechou 2014 com alta de 6,41%. Finanças públicas falidas, incompetência, desgoverno, crescimento nulo, povo empobrecido e o País mergulhado em escândalos, um verdadeiro balaio de siris – quando se tenta puxar um, os demais vêm juntos, agarrados num enrosco só. Capitaneado, é claro, pelo escândalo de corrupção sem precedente na Petrobras, a maior empresa do Brasil e orgulho nacional desde a sua criação em 1953 – o Petrolão. Infelizmente, a corrupção não se limita a Ilha da Fantasia, Brasília. Hoje está potencializada e se espalha como erva daninha por vários Estados da federação e esferas políticas, como o ruidoso escândalo que abalou Florianópolis no apagar das luzes de 2014, envolvendo funcionários, diretores e ilustres vereadores num esquema de fraude em licitações na Prefeitura de Florianópolis e Câmara de Vereadores, resultando em perda de mandatos e catorze detenções.

Diante de tantos desvios, manobras fiscais irresponsáveis, deturpações, mentiras, discursos vazios, ouso dizer que o ano atropelado de 2014 partiu sob o signo Mendacium, divindade romana da dissimulação que personificava os espíritos ou daemones da falsidade, da mentira, do engodo (Pseudologos para os gregos).

É neste cenário viciado que arrancou 2015 carregado de expectativas e perceções individuais e coletivas. O escritor Zuenir Ventura, em recente crônica, adverte «que uma coisa é a nossa história particular e outra, a História maior, coletiva.» Ou seja, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, filosofa o nosso «manezinho da Ilha».

Ao tomar posse no dia 1° de janeiro e vestir a faixa presidencial para seu segundo mandato, a Presidente deixou-me embasbacada com seu discurso fantasioso de pura retórica de palanque, recheado de promessas, permeado de autoelogios e um amontoado de inverdades. Não disse o que vai fazer para solucionar os graves problemas brasileiros e a crise econômica que já está impondo um duro apertar de cintos. Apenas prometeu, como se, ainda, estivesse em campanha eleitoral. Pra completar ela prometeu que vai tirar a educação brasileira da miséria e lançou o grande programa de seu novo governo, seu lema norteador «Brasil, Pátria Educadora». Se a educação é a sua bandeira e o maior problema do Brasil gostava de saber por que o Ministério foi entregue a um estranho no ninho e porque ao promover um bloqueio provisório de um terço dos gastos administrativos dos 39 ministérios e secretarias o ministério mais afetado foi o da Educação. Aliás, basta ver a lista do novo ministério para concluirmos que se trata de um deboche e um desrespeito aos 200 milhões de brasileiros. Um espelho fiel da política do «toma lá dá cá». Um nome apenas sobressai, o economista Joaquim Levy que assumiu a pasta da Fazenda e que terá por missão fazer o milagre de pôr a economia no caminho certo. Na crônica «O Resgate» publicada no jornal O Globo, edição de 4 de dezembro, o escritor Luís Fernando Veríssimo comentou sobre o Ministério do segundo governo Dilma: «»Estranho» é um adjetivo inadequado para o segundo ministério da Dilma. «Maluco» é pouco. «Inacreditável» também. «Esdrúxulo» é a palavra. Não tem outra.» Uma descrição supimpa, sem dúvida.

O facto é que a sociedade brasileira passa por um momento crucial, dramático. A crise tende a se agravar. As perspectivas são sombrias, mas não catastróficas. No entanto, não é hora de cruzar os braços numa atitude leniente. Muito menos, não podemos ser caudatários. Num País tão rico e imenso como o Brasil e com tantas potencialidades poderemos e devemos com trabalho e determinação sair dessa e fazer a travessia de 2015 no prumo e no rumo certo. Afinal, este é o ano regido por Marte, protegido por Ogum, o guerreiro e Iemanjá, Odoyá!

Que cada um faça a sua parte e comece por arregaçar as mangas e isso inclui assumir atitudes, ser voz ativa, totalmente livre, sem vergar jamais. Pois, acima de tudo está o nosso direito inalienável à liberdade de expressão.

Para arrematar, me permitem uma digressão...

Na esfera privada o ano de 2014 deixou-nos um rasto de dor, de desamparo e uma imensa tristeza com a perda insuperável do avô, pai e companheiro de uma vida. Por outro lado, 2014 proporcionou a realização de inúmeros projetos, conquistas profissionais e pessoais e imensas alegrias. Fica a lembrança da vida partilhada, a memória indelével que, travestida de saudade, há de ser o tecedor do vento, a energia inesgotável que move as pás do moinho, a me impulsionar para uma nova vida em 2015 e os anos que hão de vir.

E a Felicidade? Só o tempo dirá...

 

Crónica
[...]Só lá do alto do poleiro azul o sol doirado e verde, o fulvo papagaio (estou bêbedo de luz, caio ou não caio?) nos lembra a dor do tempo que se perde.
Arrancou 2015.doc
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