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rss  Vol. XVIII - Nº 319         Montreal, QC, Canadá - domingo, 16 de Fevereiro de 2020
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Um terramoto eleitoral?

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Parece uma moda, mas não é.

É, tão-somente, a consequência de muitos anos a olhar para o próprio umbigo, indiferentes aos sinais de desilusão popular.

Refiro-me aos partidos políticos e às jovens lideranças.

A indignação e a repulsa em relação às forças políticas tradicionais vão percorrendo uma boa parte da Europa e, certamente, chegará cá mais dia, menos dia.

O «Podemos» espanhol conseguiu eleger 5 eurodeputados e já vai à frente nas sondagens para as legislativas em Espanha.

O fenómeno também chegou à Itália, com o «Movimento 5 estrelas», e já tinha chegado à Grécia, com o movimento radical de esquerda «Syriza» ou o da direita «Aurora Dourada».

Noutros países, a desilusão com o sistema tradicional dos partidos – fechados sobre si mesmos como uma espécie de califado familiar – vai sendo aglutinada pelas forças radicais, como a Frente Nacional, em França, ou o UKIP, no Reino Unido, a que se juntam os regionalismos extremos, como na Escócia ou na Catalunha, tornando-se numa espiral perigosa para os regimes democráticos.

Nas últimas europeias também tivemos algumas manifestações de populismo português, protagonizadas, com sucesso, por Marinho Pinto.

Estes movimentos sociais nascem quase sempre na rua, da forma mais genuína, mas também nas redes sociais e em grupos populares.

Os contestatários não têm ideologia, mas colocam na primeira linha do discurso convicções éticas contra a corrupção e abusos nos partidos políticos tradicionais.

É o reflexo do cansaço dos cidadãos face à indiferença dos partidos perante a realidade dos problemas da sociedade.

Os partidos preferem fechar os olhos à realidade, ignorando a descrença popular, e ainda assumem o discurso de que tudo vai bem no reino, sem medirem as consequências da gravidade.

O resultado desta caminhada de insensibilidade é a perceção, pelos eleitores, de que o Estado, ou o sistema, abandonou as pessoas, deixando-as, por si só, enfrentar as dificuldades sociais.

Como escreveu Daniel Oliveira, no fim de semana, no «Expresso», «o Estado foi sequestrado aos cidadãos».

Por cá vamos sentindo isto na pele, ora com os abusos nas nomeações de familiares – enquanto a população sofre com o maior desemprego de todas as regiões do país –, ora retirando aos cidadãos regalias sociais numa área crucial como a saúde.

O Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, acaba de alertar para realidades como esta, com a seguinte frase: «Desemprego crescente e cortes na proteção social, são mistura explosiva».

Não faz sentido sermos a região do país com mais desempregados, com mais beneficiários do rendimento social de inserção, com mais crianças nas escolas a receber apoio social, com o maior número de analfabetos e com uma crescente onda de casos de violência doméstica, consumo de álcool e abuso sexual, e continuarmos a ver a máquina política a engordar, com mais deputados, mais governantes, mais assessores, mais adjuntos e mais gestores de empresas públicas.

Perto das eleições, os partidos gostam de operações de cosmética, mas passado o ato eleitoral voltam à sua oligarquia, fomentam o carreirismo, perpetuam os cargos, não abrem mão às candidaturas independentes e aumentam as subvenções do Estado para o funcionamento dos seus poderosos aparelhos.

Para sustentar tudo isso, os políticos dos partidos tradicionais, desde Passos ao agora António Costa, só sabem fazer uma coisa: criar impostos!

No caminho em que já vai a abstenção, daqui a uns tempos temos os partidos a governarem com meia dúzia de votos, sem nenhuma legitimidade popular.

Como avisou, também, no fim de semana, Pedro Adão e Silva: «Temos motivos para apreensão. O processo pode estar a maturar e, mais cedo do que tarde, teremos por cá os mesmos sintomas de impotência democrática».

Como se vê, não faltam avisos.

Todos dos mais variados quadrantes.

Tanto lá, como cá.

Os partidos têm que fazer uma profunda reflexão sobre o seu comportamento.

Ou será preciso, também, um terramoto eleitoral?

Crónica
É, tão-somente, a consequência de muitos anos a olhar para o próprio umbigo, indiferentes aos sinais de desilusão popular.
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