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rss  Vol. XVIII - Nº 319         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020
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Já não há políticos assim

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

A podridão que envolve grande parte da esfera política, no país e na região, vai cimentando a convicção popular de que as instituições públicas estão minadas de muita gente corrupta e que só trabalham para benefício pessoal ou do partido.

Há muito que os cidadãos deixaram de confiar nas organizações do Estado e nas forças políticas tradicionais, cada vez mais capturadas pelo clientelismo, amiguismo e demais compadrio filiado.

Encontrar, hoje, gente séria no meio desta mixórdia, é como acertar à primeira numa chamada para um «call-center» do Estado.

É por isso que toda a gente ficou surpreendida com a demissão do ministro da Administração Interna.

Quando um político demonstra desapego ao poder, já toda a gente se espanta.

Miguel Macedo protagonizou um dos raros momentos de seriedade e verticalidade na política.

Para encontrarmos gesto semelhante, temos que recuar quase década e meia, quando Jorge Coelho abandonou o governo, devido à tragédia na Ponte de Entre-os-Rios, que vitimou 59 pessoas.

Nos dias de hoje é uma raridade assistirmos a cenas destas em cargos de topo.

Tomara vermos outros responsáveis assumirem a dignidade de se retirarem quando é pública e notória a incapacidades que revelam no desempenho dos respetivos cargos.

Mas se lá fora vamos vendo, de vez em quando, estes assomos de dignidade, por cá vamos vendo inquéritos escondidos nas gavetas, demissões sugeridas que depois não se concretizam, desresponsabilização em gestões fracassadas de empresas públicas, processos e inquéritos a incidentes e acidentes que não dão em nada, enfim, um tal assobiar para o lado, deixando que muitos casos apodreçam no esquecimento da cachimónia política.

Felizmente que, de tempos a tempos, a vida dá-nos sinais, mesmo pelos piores motivos, de que há raríssimas exceções.

Um destes exemplos deixou o nosso convívio nos últimos dias.

Alberto Romão Madruga da Costa era dos tais poucos que encarnavam o que há de bom na política e nos homens de bom coração.

Dele já se disse tudo.

Até os que o crucificaram, nos seus últimos dias de Presidente do Governo Regional, quando visitou o Brasil, vieram agora elogiar o seu caráter e o seu espírito de missão.

A hipocrisia atinge, na política, os efeitos mais surpreendentes que possamos imaginar.

É por isso que Madruga da Costa fica na História da política: porque sempre se recusou a fazer política como se faz hoje.

Já não há políticos assim.

                                                        ****

ESTUDO – Maria José Morgado, Diretora do Departamento de Investigação e Ação Penal, cita um estudo sobre as variações na promoção pelo mérito nos países em vias de desenvolvimento, que conclui que apenas 8% das pessoas oriundas das classes trabalhadoras conseguem singrar numa carreira pública mediante concurso, enquanto 72% são colocadas por ligações familiares ou partidárias, sem concurso nenhum, sendo que as 20% que se submetem a concursos raramente são admitidas – em geral os concursos destinam-se a formalizar a admissão de gente colocada antecipadamente, por cunhas.

Onde é que já vimos este filme?

                                              ****

DOIS MUNDOS – Nos Açores vivemos em dois mundos.

O mundo real diz que temos quase 20 mil desempregados, mais de meia centena de famílias a pedir insolvência só no mês de outubro, mais de uma dezena de empresas a falir em menos de um mês, milhões e mais milhões de euros por pagar, cerca de uma centena de casas devolvidas à banca por trimestre, acesso à saúde cada vez mais caro e mais difícil, derrapagens em obras públicas no valor de centenas de milhões, e por aí fora...

O mundo político diz que vivemos nos Açores «um ciclo de estabilidade», que as nossas contas «estão equilibradas» e que somos «um exemplo para todo o país».

Como se vê, em política, a hipocrisia não tem limites.

Crónica
A podridão que envolve grande parte da esfera política, no país e na região, vai cimentando a convicção popular de que as instituições públicas estão minadas de muita gente corrupta e que só trabalham para benefício pessoal ou do partido.
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