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rss  Vol. XVIII - Nº 318         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 31 de Março de 2020
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In the Mouth

Um projeto de Nicolas Fonseca

Inês Faro

Entrevista de Inês Faro

À entrada lê-se, em grandes letras feitas de musgo, Food+Bodyconvida tado od no velho Porto, que acolhe y*|ida a crescer-lhe num pulmeceitas novas, novos ingredientes, etc. =Symbiosis. Estamos no Centre Phi, no velho porto de Montreal. O In the Mouth, um projeto do artista multidisciplinar Nicolas Fonseca, inclui o Poetic Food Centre, uma exposição/instalação, que convida, durante o mês de outubro, a explorar o universo da comida e todos os sentidos que ela nos desperta. Tudo o que se vê e ouve é um desafio às nossas emoções, é um jogo de fronteiras entre a ficção e a realidade. O que poderia ser apenas um quadro bucólico, onde o verde domina, é também uma oportunidade para deixar fluir memórias antigas e pensar na representação que a comida tem nas nossas vidas, nas relações interpessoais e na cultura de cada povo. Além das exposições e instalações, o projeto In the Mouth inclui uma série de jantares experimentais onde o ingrediente principal é sem dúvida uma grande dose de criatividade.

LusoPresse: Como surgiu a ideia de criar o In the Mouth?

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Nicolas Fonseca: Este projeto é o resultado do que tenho desenvolvido durante anos. Trabalho em cinema, na web, em projetos digitais, em instalações, etc. O In the Mouth é uma iniciativa à volta da comida e tem como ponto de partida a criação de um chefe, o Chefe Nuno, que perdeu o sentido de gosto. O que começou por ser só uma ficção para ser explorado no cinema, acabou por se tornar num projeto mais complexo. O In the Mouth demorou alguns anos a desenvolver e a ser financiado. Felizmente o Centro Phi quis acolher este projeto que inclui exposições, instalações, performances e uma série de jantares.

LP: Que papel desempenha a comida neste projeto?

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NF: Já há alguns anos que tenho desenvolvido projetos que permitem muitas interações, seja através do iPad, do telefone, etc. Com esta iniciativa queria fazer uma coisa mais real, onde as interações fossem físicas, onde a tecnologia pudesse ser utilizada, mas não como primeiro contacto de interação. Queria usar a tecnologia como uma ferramenta que não se vê, mas que mesmo assim proporciona experiências coletivas e afeta as pessoas em todos os seus sentidos, em todas as dimensões. Ao mesmo tempo quis utilizar a comida como meio de comunicação – utilizar vídeos e instalações, que sirvam como ponto de partida para conversas e momentos de partilha.

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LP: Este é um conceito inovador e complexo. Foi fácil explicar qual era a tua ideia ao longo do desenvolvimento do In the Mouth?

NF: Sim, este é um projeto complexo. Não foi fácil explicar o que é In the Mouth, sobretudo em momentos de financiamento. Os eventos resultam – e quando mostramos o resultado dessa mistura da comida com a tecnologia, juntamente com performances e instalações, a experiência é fácil de viver. É verdade que a ideia tem muitas camadas de conteúdo, mas é muito fácil de viver, muito mais do que explicar (risos). As pessoas que participam, quando lhes perguntamos como é que vão explicar o que é In the Mouth, têm dificuldade em pôr em palavras. Aí está a diferença entre o lado intelectual e físico do projeto: por um lado é difícil de conceptualizar, por outro é muito fácil de viver.

LP: Em que é que consiste concretamente?

NF: O In the Mouth é uma exposição sensorial e está aberta ao público durante o dia. É um mapa

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emotivo da comida: a comida associada a um contexto, a uma emoção, a um momento da sua vida. Por um lado há o Poetic Food Centre, onde se podem viver diferentes tipos de simbiose com a comida, como por exemplo, a exploração da comida além do gosto e pensar sobre o que é a comida. Pensar, por exemplo, que a comida pode ser qualquer coisa que tem um valor económico e/ou um valor ecológico; que é o resultado de relações humanas, de tradições; que é símbolo de uma cultura. A comida é uma matéria que engloba muitos valores diferentes e são esses valores que se exploram com o In the Mouth. As pessoas podem ver vídeos, ouvir sons, experimentar a nossa cabine de polinização (que [ficcionalmente] faz crescer comida e plantas dentro dos nossos corpos).

LP: Além das exposições que estão abertas ao público, há ainda uma série de jantares. O que é que os define?

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NF: O segundo lado do projeto são as Experimental Food Nights. São jantares pensados para cada um e para todos ao mesmo tempo, e para um máximo de 60 pessoas/noite. Enviámos um questionário duas semanas antes para cada participante por forma a estabelecer a sua míni biografia culinária. É a partir desses resultados que trabalhamos numa ementa coletiva. A ideia é que o jantar também seja uma conversa culinária entre os participantes. Contrariamente ao que acontece num restaurante tradicional, onde o menu já existe, aqui o menu é o resultado das experiências das próprias pessoas que fazem parte de cada grupo. Por isso, todas as noites são diferentes e experimentais.

LP: A face mais visível destes jantares é a personagem Chefe Nuno. Quem é este chefe?

NF: O Chefe Nuno é uma personagem criada por mim e o In the Mouth existe para explorar o seu universo. A realidade e a ficção misturam-se em diferentes camadas.

LP: Como é que é possível coordenar os desejos e gostos de 60 pessoas para criar um menu coletivo?

NF: Para que isso fosse possível trabalhámos com um programador e criámos um programa informático que permite organizar as respostas dos questionários enviadas aos participantes por temáticas, gostos, etc. A segunda etapa é depois estabelecer paralelos e poder sugerir menus concretos. Há ainda o trabalho real, físico, de comprar e preparar a comida durante a semana. Aqui está o exemplo de como utilizamos a tecnologia neste projeto – uma tecnologia que não se vê, o participante não tem acesso a ela e só vê o resultado dessa interação.

LP: Nos últimos anos houve uma explosão do interesse pela comida. Muita gente cultiva o seu lado gastrónomo e são muito os eventos organizados à volta da mesa. Como é que vês esta tendência de uma cultura à volta da comida?

NF: Este é realmente um período muito «foodie». Hoje em dia, toda a gente conhece os chefes pelo primeiro nome, as pessoas querem experimentar receitas novas, provar novos ingredientes, etc. A cultura dos chefes e da comida está impregnada em nós. O que acho é que a comida é discutida muitas vezes de forma compartimentada, em vez de ser de forma coordenada. Por exemplo, a caixa da gastronomia, da estética da comida, das modas, etc. Para mim, o mais difícil é mesmo explorar o lado pessoal da comida, saber quais são as histórias por detrás do que estamos a comer, de pensar a comida como cultura.

LP: Que ligação tem a comida à tua costela portuguesa?

NF: Tenho lembranças dos meus avós, dos meus tios em que se organizava muito a vida à volta do que se ia comer, a que horas, saber se se ia à praia ou ao mercado, etc. A comida é omnipresente e está muitas vezes ligada a tradições. Outras vezes é mais associada a rotinas, como o cafezinho, que é também uma oportunidade para conviver. A comida como convívio é qualquer coisa que sim, associo muito à cultura portuguesa.

LP: Até agora que balanço fazes do evento?

NF: Muito positivo. As pessoas têm tido boas reações a todo o projeto. Durante os eventos, estou sempre atento às expressões das pessoas. É um prazer vê-las descobrirem o potencial cultural coletivo da comida; as histórias que se escondem atrás de um prato, de um ingrediente, de um chefe. Ao mesmo tempo que a comida conta histórias, também nos permite pensar sobre o seu papel económico, ambiental, etc.

LP: Depois deste projeto multidisciplinar, o que é que tens planeado?

NF: O In the Mouth vai ter provavelmente outra edição na primavera. Quero fazê-lo crescer. E tenho outros projetos no cinema e de âmbito musical.

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À entrada lê-se, em grandes letras feitas de musgo, Food+Bodyconvida tado od no velho Porto, que acolhe y*|ida a crescer-lhe num pulmeceitas novas, novos ingredientes, etc. =Symbiosis. Estamos no Centre Phi, no velho porto de Montreal. O In the Mouth, um projeto do artista multidisciplinar Nicolas Fonseca, inclui o Poetic Food Centre, uma exposição/instalação, que convida, durante o mês de outubro, a explorar o universo da comida e todos os sentidos que ela nos desperta. Tudo o que se vê e ouve é um desafio às nossas emoções, é um jogo de fronteiras entre a ficção e a realidade. O que poderia ser apenas um quadro bucólico, onde o verde domina, é também uma oportunidade para deixar fluir memórias antigas e pensar na representação que a comida tem nas nossas vidas, nas relações interpessoais e na cultura de cada povo. Além das exposições e instalações, o projeto In the Mouth inclui uma série de jantares experimentais onde o ingrediente principal é sem dúvida uma grande dose de criatividade.
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