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rss  Vol. XVIII - Nº 317         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 21 de Setembro de 2020
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O meu Chiquinho

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Em Santiago, o Sr. Mascarenhas, exemplo de dicionário da simpatia cabo-verdiana, amigo do meu irmão (e que por causa dele nos veio visitar há dias ao hotel na Praia, e agora voltou acompanhado do seu sereníssimo neto Ayrton), quis levar-nos à Cidade Velha, a antiga Ribeira Grande. Já lá tínhamos ido com o Sr. Adriano, o taxista sósia de Amílcar Cabral altamente recomendado em S. Vicente pela Maria Estrela, mulher do Leão Lopes. Cabo-verdianos vários insistiram em que não alugássemos carro em Santiago e só não me arrependi porque acabei mantendo saborosas conversas com taxistas, alguns deles experimentados guias, como no caso. Empatizámos de imediato com a Cidade Velha, hoje Património Mundial da UNESCO e tínhamos de regressar.

Da primeira vez, começámos com uma paragem na Fortaleza, uma construção a lembrar o Castelo de S. Filipe, em Angra (aliás, o nome é mesmo Forte Real de S. Filipe) e o de idêntico nome em Cartagena de Índias, na Colômbia. Daquelas construções que a gente olha e onde topa logo a assinatura: Filipe II, o Grande (ou do seu arquiteto, claro, mas o dedo grandioso é filipino).

ONESIMO Almeida IMG_1155-Diogo.JPG

Um garotito de seis ou sete anos correu para nós a oferecer-se como guia. Não havia sequer competição pois estávamos sós – a Leonor e eu – até o garoto aparecer. Achei-lhe piada à desenvoltura. Olhos vivaços se bem que recatados, um nico de gente a transbordar energia e vontade de nos mostrar a Fortaleza recitando certamente o que já ouvira muitas vezes. Deixei então ser ele a guiar-nos e fui-lhe prestando atenção. O Diogo – perguntei-lhe o nome – tomou a missão a sério e desempenhou o seu papel com saber, segurança, convicção e entusiasmo. Manifestei-lhe o meu apreço pelos serviços e encorajei-o como qualquer adulto nas minhas circunstâncias faria a um criança daquele calibre.

À saída, parámos numa dependência com artesanato à venda e a Leonor entusiasmou-se. Havia ali material bonito e leve bastante para se poder levar de regresso a Lisboa e aos States sem complicar o já antevisto excesso de bagagem por via dos livros.

Soube então que a amável gerente da loja era a mãe do Diogo e que o tinha ali como se atado por uma trela invisível, agora que a escola terminara.

Nesta nossa segunda passagem pela Cidade Velha (fica a doze quilómetros da cidade da Praia – os portugueses decidiram mudar-se de lá por causa da sua vulnerabilidade aos piratas), tornámos à Fortaleza, desta vez não por motivos turísticos ou fotográficos, apenas porque a Leonor ficara tão de beiço caído pelos adereços locais, com toque magicamente africano, que decidiu apetrechar-se melhor pois alargara a lista de ofertas.

Ao sairmos do carro, um garoto corre para mim. A princípio não o identifiquei e até estranhei a extrema afabilidade, o calor mesmo que trazia nos olhos e no sorriso. Foi a Leonor a reconhecê-lo primeiro: É o Diogo! E era. Dei-lhe um abraço. Quatro dias cheios haviam decorrido com imagens bravias da Brava, escaldantes do Fogo e, com tanta criança por todo o lado – são a maior produção nacional – confesso por isso que tinha esquecido o miúdo, embora garanta que me recordaria dele quando em casa me pusesse a selecionar as fotos.

Mas o Diogo não se esquecera da atenção concedida ao seu papel de nosso guia. A mãe também nos reconheceu logo e até contou que todos os dias o Diogo perguntava por mim e por que não voltava. Ela não sabia mais o que dizer-lhe.

Se estas linhas fossem ficção, seria irrecusável a oportunidade de intertexto com o clássico romance cabo-verdiano de Baltasar Lopes: o meu Chiquinho afinal também quereria vir para a América, «todo pronto» a «retomar o caminho de vovô». Mas o Diogo não sonhava com ela nem nada dela podia ver em mim, eu que aliás viajo sempre como ilhéu dos Açores; quando muito, português das ilhas. E nem isso ele sabia. Para mais, nem a roupa da América deixa já ninguém adivinhar-lhe a proveniência por via daquele tão peculiar cheiro de antanho.

No nosso regresso da ilha da Boa Vista, voltámos a passar ¾ de um dia na Cidade da Praia e eu estava decidido a tornar à Fortaleza, desta vez expressamente por causa do Diogo. A Leonor, porque queria comprar mais lembranças (para espanto meu, pois deveras detesta compras), mas também porque ficara tocada pela magia daquele molho de promessas e de doçura e queria revê-lo. Chegámos, mas… nada de Diogo. Pus-me a sacar novas fotos a deambular pela Fortaleza, desta vez sem o meu guia e, de novo, sem nenhum turista por perto a estragar-me os ângulos. A Leonor acampou na loja de artesanato e fui redescobri-la de conversa envolvente com a mãe do Diogo, esta desolada porque era domingo e tinha podido deixar o filho em casa de uma amiga. Ele iria ficar triste quando soubesse do nosso regresso, pois continuava a perguntar por mim. E triste fiquei eu por não tornar a vê-lo antes de partir. É demasiado cedo para uma beleza daquelas de miúdo começar a receber desilusões na vida. Mesmo de um Pai Natal como eu, velho e já um tanto barrigudo, extemporâneo e sem prendas.

Abalei para o aeroporto de coração derretido na mala (admito, prontes!). Porque estas crianças de Cabo Verde deixaram-me varado. Não têm asas, mas o seu olhar é vivo, de inteligente doçura, traços que os anjos nunca tiveram, porque a iconografia religiosa fixava-se nas asinhas e nas bochechas, nunca nos olhos nem no sorriso doce deles.

 

Crónica
Em Santiago, o Sr. Mascarenhas, exemplo de dicionário da simpatia cabo-verdiana, amigo do meu irmão (e que por causa dele nos veio visitar há dias ao hotel na Praia, e agora voltou acompanhado do seu sereníssimo neto Ayrton), quis levar-nos à Cidade Velha, a antiga Ribeira Grande.
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