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rss  Vol. XVIII - Nº 317         Montreal, QC, Canadá - domingo, 16 de Fevereiro de 2020
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O «califado» açoriano

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Não é uma «jihad», mas começa a entranhar-se na sociedade açoriana que a atual governação regional parece assemelhar-se a uma espécie de califado: só são escolhidos para os seus quadros as mulheres, filhos, genros, noras, sobrinhos e por aí fora...

Não há nada de mal nesta espécie de «irmandade muçulmana», sobretudo se os escolhidos têm mérito e currículo profissional para os lugares nomeados, mas é justo estranhar que a prática se esteja a tornar sistemática e com critérios duvidosos.

Por exemplo: por que razão Vasco Cordeiro aceita esta catrefada de nomeações de familiares diretos em silêncio e, anteriormente, desautorizou um secretário regional, obrigando-o a suspender a contratação do filho de um deputado comunista?

O PS de Vasco Cordeiro estará pior do que o PS de Carlos César?

Objetivamente, paira a perceção, mesmo entre socialistas históricos (alguns já manifestaram o seu desagrado publicamente), de que há uma jovem classe dirigente em ascensão nos Açores que põe e dispõe da distribuição de cargos e outras sinecuras entre familiares e amigos, sem qualquer moléstia ou reparo dos líderes.

Perante o desapontamento popular, a pergunta mais ouvida é esta: como é que Vasco Cordeiro, sabendo-se como ele é, permite isto?

A resposta não é fácil, mas julgo que terá a ver com um «filme» semelhante, ocorrido no final da governação do PSD-Açores.

Tal como agora no PS, havia nos últimos dias da liderança de Mota Amaral um núcleo duro no partido que dominava os principais setores da nossa sociedade.

Porque Mota Amaral já não tinha mão na «nomenclatura», deu um murro na mesa e foi-se embora.

Daí para cá o PSD nunca mais se re-encontrou, nem se vislumbra que se venha a re-encontrar nos próximos tempos...

Vasco Cordeiro está preso a esta lição.

Passados os mesmos 20 anos de governação, Vasco Cordeiro não quer ser o Mota Amaral do PS.

Ele sabe que se der um murro na mesa, tudo se desmorona como um baralho de cartas.

Nas atuais circunstâncias, a herança deixada a Vasco Cordeiro é a de uma liderança refém de um «califado» bem organizado, muito à volta de gente nova, sem experiência de vida mas com forte influência nos bastidores e que vive do jogo do poder.

Eles sabem que o líder está refém desta estrutura, meticulosamente montada em todas as ilhas e com forte intervenção em setores fragilizados da sociedade açoriana.

Basta por em constante funcionamento a famosa «indústria extrativa de subsídios», para segurar importantes setores de atividade que representam um número considerável de potenciais eleitores.

É uma das vertentes da fórmula para se ganhar eleições nos Açores.

A fórmula é simples: os Açores têm 225 mil eleitores, mas apenas 107 mil é que votem.

Basta conquistar metade desses votos e tem-se a maioria absoluta.

E como se obtêm 50 mil votos?

A função pública regional anda à volta dos 20 mil e é muito cortejada pelo Governo Regional com a reposição dos cortes salariais.

Se contarmos o número de açorianos a receber o Rendimento Social de Inserção (o maior do país), a somar ao número de famílias carenciadas que são apoiadas, através de inúmeros programas sociais, pelo Governo Regional, temos aqui mais 20 mil.

Restam pouco menos de 10 mil, que se conquista facilmente nos tais setores de atividade dependentes do saco dos subsídios.

O sistema está organizado de modo a perpetuar quem estiver no poder, dependendo, claro, da eficácia da máquina e da guarda avançada das sedes partidárias.

Vasco Cordeiro quis mostrar, no primeiro ano de governação, que havia alguma ética e transparência nas nomeações, quando travou o episódio do filho do deputado do PCP.

Mas já não tem o mesmo poder quando se trata de familiares de deputados e altos dirigentes do PS.

A cúpula do partido sabe duas coisas: que as eleições são garantidas e que o líder está encurralado nesta estratégia.

O califado está forte.

Os Açores é que estão fracos.

Crónica
Não é uma «jihad», mas começa a entranhar-se na sociedade açoriana que a atual governação regional parece assemelhar-se a uma espécie de califado: só são escolhidos para os seus quadros as mulheres, filhos, genros, noras, sobrinhos e por aí fora...
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