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rss  Vol. XVIII - Nº 317         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 30 de Março de 2020
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Editorial

Estamos em guerra!

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Pelo menos foi assim neste sentido que o primeiro-ministro Stephen Harper fez aprovar uma lei no parlamento para autorizar o governo a enviar seis aviões de combate, alguns aviões de abastecimento e outros de reconhecimento, assim como 600 militares para atuarem como conselheiros do exército iraquiano.

Esta lei foi aprovada apenas pelos deputados conservadores. Tanto os deputados do Novo Partido Democrático (NPD) como os Liberais e do Bloco Québécois (BQ) votaram contra.

A grande maioria dos observadores, em todo o país, deu razão ao governo conservador. Até no Quebeque, onde jornalistas e comentadores adoram odiar o governo em Otava, bateram palmas.

Compreende-se até certo ponto, sobretudo depois da divulgação na Internet das imagens horrorosas que os fanáticos do grupo islamita autoproclamado Estado Islâmico (EI) tem posto a circular, e principalmente, depois que aqueles terroristas começaram a degolar jornalistas ocidentais. É caso para perguntar onde estavam esses comentadores quando o governo de Bashar al-Assad, o ditador da Síria, andou a assassinar mais de 200 mil dos seus próprios cidadãos.

Mas, como para minorar o apoio dado a Stephen Harper, muitos desses jornalistas resolveram ridicularizar, em particular, a posição de Justin Trudeau, líder do Partido Liberal do Canadá (PLC), que decerto modo é semelhante à do líder NPD, Thomas Mulcair, e que consiste em recusar que o exército canadiano entre em operações militares de combate no estrangeiro, defendendo o papel tradicional do exército canadiano, como guardiães da paz.

Alguns desses comentadores jornalistas foram mesmo ao ponto de afirmar que Justin Trudeau tinha dado provas de não estar à altura de ser um homem de estado.

Felizmente que veio a terreiro o antigo primeiro ministro do Canadá, Jean Chrétien que, numa carta aberta aos jornais, deu razão à posição do PLC, lembrando que a atitude de Justin Trudeau estava na linha da sua própria política quando resolveu dizer «não» ao então presidente americano George W. Bush e evitou que os canadianos entrassem em guerra contra o Iraque de Saddam Hussein. A História veio dar-lhe razão.

Aliás o Ocidente não devia de modo algum imiscuir-se nas guerras do mundo islâmico.

Primeiro porque muitos dos conflitos que lá se passam são o resultado direto do colonialismo ocidental, particularmente da parte da França e da Inglaterra depois da Primeira Grande Guerra, com a queda do Império Otomano. Todas aquelas fronteiras são artificiais, foram desenhadas por motivos políticos e coloniais, sem terem em conta a realidade cultural, linguística, religiosa e até tribal das respetivas populações. O caso mais gritante é a simples existência do Paquistão como estado islâmico em eterna guerra de fronteiras com a Índia.

Com a vitória dos ocidentais no conflito da Segunda Grande Guerra e a necessidade do Ocidente se apoderar do petróleo abundante daquelas paragens, entrou em cena o império americano, que continua também a nada compreender à geopolítica da região. Tudo o que compreende é o poder do dinheiro e do petróleo. Depois admiram-se que ninguém tenha denunciado o Bin Laden mesmo quando a CIA pôs a sua cabeça a prémio por milhões de dólares.

Como se não bastasse a herança colonial com tudo o que isso acarreta de humilhação, de revolta e espírito de vingança, temos também o facto de o mundo islâmico viver sob profundas divisões, a principal das quais é o cisma entre os sunitas e os xiitas.

Com a queda do império otomano, os sunitas que representam 85 por cento dos islamitas, encontram-se num grande vazio político. O Império Otomano era a continuação da herança islamita, desde a morte de Maomé, segundo a tradição dos califados.

Por outro lado, os xiitas que se consideram como os verdadeiros descendentes do profeta, pela linhagem do sangue, a partir de Ali que era primo e genro de Maomé, embora tenham perdido um dos seus descendentes em caminho e esperem que ele regresse como um messias, encontraram no sistema dos aiatolas uma verdadeira liderança política e espiritual e são eles que hoje estão no poder no Iraque, depois do governador americano ter, estupidamente, desfeito o exército de Saddam Hussein. O ditador do Iraque, embora pertencesse à minoria sunita iraquiana, tinha conquistado e permanecido no poder graças ao corpo militar e policial do seu grupo religioso.

Hoje acredita-se que por detrás das vitórias militares do EI estão antigos miliares de Saddam, desde soldados a generais que, com o apoio das populações sunitas agora relegadas para segundo plano, têm posto em debandada o novo exército iraquiano, agora totalmente xiita. E graças a estas conquistas têm posto a mão sobre o mais moderno e sofisticado material de guerra americano que os ianques tinham deixado nas mãos do novo exército iraquiano.

Mas, visto os horrorosos atos de barbarismo cometidos pelos fanáticos do EI sobre as populações que eles consideram infiéis, como é o caso dos cristãos, dos curdos e outras minorias, deve o Canadá voltar-lhes a costas e ignorar tanto sofrimento?

Não!

Como muito bem dizia o nosso antigo primeiro-ministro, o Canadá devia, num primeiro tempo, enviar víveres e roupas para os campos de refugiados, sobretudo que o inverno se aproxima, e em seguida passar vistos aos refugiados para que possam imigrar para o Canadá.

Esta sim, devia ser a missão canadiana. Soldados da paz e da solidariedade. De outro modo, apesar de o país não ter nenhum cadastro como potência colonial, o facto de enviar missões de combate para aquelas terras só serve para acicatar o ódio irracional de certos fanáticos, como o do pobre tresloucado Martin Couture Rouleau que esta semana matou um soldado canadiano em nome Alá.

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Pelo menos foi assim neste sentido que o primeiro-ministro Stephen Harper fez aprovar uma lei no parlamento para autorizar o governo a enviar seis aviões de combate, alguns aviões de abastecimento e outros de reconhecimento, assim como 600 militares para atuarem como conselheiros do exército iraquiano.
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