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rss  Vol. XVIII - Nº 316         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 07 de Abril de 2020
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«The Soccer Diários» de Michael Agovino

Como o futebol se tornou em 30 anos um desporto adulto nos Estados Unidos

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

Tratar-se-á da autobiografia dum fanático de futebol? Duma tese de antropologia desportiva? Dum livro de humor à americana? Duma pequena bíblia para não-iniciados? Uma coletânea de novelas? Pensando bem, é tudo isto ao mesmo tempo. Maravilhosamente bem escrito com um vocabulário cheio de fantasia. A escrita dum mestre, tocando também o cinema, as artes e a Wurste mit Senf (salsichas com mostarda). Trezentas páginas para saborear devagarinho durante um fim de semana de outono.

O nova-iorquino Michael J. Agovino conseguiu uma façanha ao colecionar todas as suas recordações de futebol numa centena de textos. Mais concretamente, sob a forma de um diário íntimo que começa em 1982 quando o seu pai, Hugo, «acidentalmente» o fez mergulhar no seu primeiro jogo. Então, adolescente duma quinzena de anos de idade. Um jogo FIFA-UNICEF no estádio dos Giants de Nova Iorque (Nova Jersey). Como Obélix que caiu na poção mágica, ele caiu na marmita do futebol e nunca mais saiu dela.

Observador meticuloso

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Michael Agovino - foto cortesia do autor.

Com fervor, o homem do Bronx fez a história do «parente pobre do futebol» que obteve a respeitabilidade ao longo das três últimas décadas. A sua evolução e como foi compreendido. No momento em que os jogos não eram difundidos nos Estados Unidos senão por cabo e em língua espanhola. Apesar da sua popularidade quase planetária. Desporto negligenciado até 1994, «o ano zero», quando o Mundial teve lugar no seu país. Para o autor (que não é um exagerado), é uma causa nobre. Quase uma religião que organiza uma parte da sua vida, os seus amigos e as suas viagens. «Gosto do futebol. Gosto de escrever», diz o apaixonado jornalista.

Para poder ir até 1982, ou bem Michael Agovino possui uma memória de elefante ou bem ele escreve nos seus blocos de notas de hora a hora, porque o seu opúsculo está cheio de pormenores. Alucinante! O seu sentido de observação faz-me pensar no sueco Henning Mankell ou no franco-americano Paul Théroux: nada lhes escapa. «The Soccer Diaries, An American's Thirty-Year Pursuit of the International Game» dirige-se a um vasto público.

Michael Agovino interessa-se a tudo o que diz respeito, de perto ou de longe, a esta atividade humana. Evidentemente, às grandes vedetas como Sócrates, Pelé, Eusébio, Maradona, Zidane e Messi (não necessariamente nesta ordem). Mas também à cor das camisolas e dos lenços de pescoço, aos documentários, às publicações especializadas, aos bares para iniciados, aos cartazes históricos das Taças do Mundo (World Cups) e a todo o arraial litúrgico. Ainda como os novos estádios aqui e ali. Quando veio a Montreal em 1980, fez uma visita guiada no nosso Estádio Olímpico.

O reflexo da vida

Com o tempo, a sua profissão de fé tomou forma. «Cheguei ao futebol por puro acaso, uma curiosidade ilimitada, e o sentido duma fraternidade populista internacional, do tipo underground, explica ele. Apaixonei-me pelo espetáculo (o jogo de abertura de 1982); o ritual (os uniformes das equipas nacionais imitam as bandeiras), a troca de medalhas, as fotos das equipas, as celebrações de cada golo...» E continua: «O futebol reflete a vida, quanto a mim, mais que qualquer outro desporto. É provavelmente a mais universal das línguas». Infelizmente, não diz grande coisa sobre Portugal, exceto sobre o Benfica que foi «outrora um grande clube» (como o Ajax da Holanda e o Étoile Rouge de Belgrado) e algumas menções secundárias a respeito de Cristiano Ronaldo. Nada sobre o nosso amigo Pauleta.

Ainda jovem, confrontado com clubes com nomes exóticos como o Cameroun, com o Atlas Britannica na mão, documentou-se em geografia. (Tão bem que um jogador nigeriano será mais tarde identificado pelo nome da sua etnia, um igbo – como as famosas esculturas.) Mais tarde, como complemento à sua americanidade, ele transporta-nos a alguns grandes centros europeus como Zurique, Roma, Londres e Munique. Resumindo, num planeta de sete países em dois continentes, ele vai longe para satisfazer a sua imensa curiosidade. Em Londres, num aparte, leva-nos ao enigmático Parque Maryon que Michelangelo Antonioni filmou no seu memorável Blow-Up (1966).

Agora quadragenário, Agovino é um veterano na matéria. Grande nómada pouco atraído por um posto estacionário numa revista, o profissional é freelancer um pouco por todo o lado. Já escreveu no prestigioso New York Times, Esquire e um certo número de publicações especializadas. Afirma ter impressionado vários especialistas com a sua erudição, o que é decerto verdade. As suas reportagens e análises são por vezes verdadeiras acrobacias. Num caso excecional, a exceção que confirma a regra, conta com humor como não conseguiu superar a intimação dum coreano do sul e um coreano do norte empregados do FC Bale. Um Park versus um Pak. Cómico como tudo!

Há mesmo um pouco de emoção ao longo das trezentas páginas. Agovino faz participar a irmã, a mãe e o pai, cujos genes italianos explicam a inclinação do filho para o clube Roma. O livro começa com a iniciação do jovem e termina com a morte do pai em março de 2012 (dia do aniversário do filho). «Comecei a chorar», confessa o autor. A dedicatória vai para a sua irmã Adria. A relação com Andrea, a namorada (menos contagiada por este desporto), e os seus outros amigos (todos mais contaminados pela coisa) testemunham do ser sensível que é Michael.

Politicamente correto

O nosso homem é politicamente correto, pode afirmar-se sem ambiguidade. Diz ter amado rapidamente o futebol porque é um «desporto do Terceiro Mundo, das gentes pobres. Por isso, ainda gostava mais». Qualificou de erro a «invasão do Iraque... que não tinha nada a ver com o 9/11». Troça do sha do Irão – que não merecia senão uma «revolução». Honesto e imparcial, não hesita sublinhar o problema da violência no futebol e os gangues de hooligans.

Em cada página do diário, é preciso estar atento ao desfecho. Muitas vezes sublimes de tal modo são engraçados: por exemplo, o da classe operária que ele salpica com a sua escrita, quando ele próprio se faz salpicar numa paragem de elétrico. Noutro lado, um enorme quarto de hotel em Marbella, na Espanha, onde a casa de banho era quase tão grande como o seu apartamento de Nova Iorque. Depois, acrescenta a auto ironia pelo tamanho do seu nariz (que não é evidente nas fotografias). Algumas palavras vulgares italianas sobre o clube de Bale: «Basile, Basile, va fanculo!» E a linguagem ordinária siciliana que a sua mãe compreendia perfeitamente sem nunca traduzir nada.

Algumas reticências? (Sorry, Michael!) Não percebo que a capa do livro seja monocromática verde-verde-verde, como uma plantação de espinafres, quando tantas fotografias-choque poderiam vantajosamente ilustrar o título. Será que foi a escolha das Edições da Universidade de Nebraska? No interior, algumas boas imagens teriam embelezado o texto. E um indexe – de que os livros americanos costumam tão bem ser dotados – ajudaria o neófito (como eu) desejoso de se servir do livro como obra de referência. Mas não são queixas grandes nos três casos.

Enfim, dum outro autor, a definição que diz tudo. «O futebol é um jogo simples. Vinte e dois homens correm atrás duma bola durante noventa minutos, e são sempre os alemães que ganham».

Crónica
Tratar-se-á da autobiografia dum fanático de futebol? Duma tese de antropologia desportiva? Dum livro de humor à americana? Duma pequena bíblia para não-iniciados? Uma coletânea de novelas? Pensando bem, é tudo isto ao mesmo tempo. Maravilhosamente bem escrito com um vocabulário cheio de fantasia. A escrita dum mestre, tocando também o cinema, as artes e a Wurste mit Senf (salsichas com mostarda). Trezentas páginas para saborear devagarinho durante um fim de semana de outono.
Michael Agovino.doc
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