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rss  Vol. XVIII - Nº 314         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 22 de Janeiro de 2021
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Notas de Rodapé

O Seminário de Angra Valeu a Pena

Por Nuno A. Vieira

Coordenado por Artur Goulart Melo Borges, Olegário de Sousa Paz e Onésimo Teotónio Almeida – três nomes conhecidos no mundo artístico literário – o Instituto Açoriano de Cultura acaba de publicar o livro Casa Santa, Mimosa... Olhares sobre o Seminário de Angra 1950-1970, álbum comemorativo do sesquicentenário da fundação dessa instituição. Com 240 páginas e inúmeras fotografias, a presente publicação é isso: um livro e um álbum, onde em texto e fotografia, antigos alunos do Seminário registam o bom e o mau, o positivo e o negativo das suas experiências, naquela instituição, durante as décadas dos anos 50 e 60 do século passado, período considerado áureo na vida daquela Casa. Trata-se de um testemunho de orgulho e apreço.

O POSITIVO. O rol das experiências positivas começa por ser um conjunto de dados históricos. O aluno orgulha-se da tradição académica do Seminário. A visão, competência e ação dos professores do Seminário repercutiram-se, de várias maneiras, no Seminário, na cidade de Angra, nos Açores e por demais partes do mundo – Um estudo intenso de Filosofia e de Teologia fez do Seminário, a primeira instituição de ensino superior nos Açores. Parafraseando o testemunho de Cunha de Oliveira, as Semanas de Estudo, com os olhos fitos na realidade açoriana, e não apenas distrital, foram mesmo fruto da intelectualidade e da dinâmica cultural do Seminário Episcopal de Angra e é ao mesmo Seminário, enquanto instituição cultural, que o IAC deve a sua existência. Recorde-se ainda o aparecimento da revista Atlântida como órgão oficial do Instituto Açoriano de Cultura.

A vida académica do Seminário ultrapassava a sala de aula, com a apresentação de trabalhos de caráter literário, filosófico, teológico, histórico e de criatividade poética e musical. Convidavam-se oradores que discorriam sobre os mais variados temas e assistia-se a tudo o que Angra apresentasse de cultural. O Sarau músico literário, em honra de São Tomás de Aquino, era de natureza singular nos Açores. O Orfeão do Seminário apresentou programas com exibições de alta qualidade.

Para o jovem seminarista, as atividades jornalísticas começavam cedo – Nos Miúdos, com o jornal O Arauto e, nos Médios, com o Carpinteiro. O testemunho de Esaú Dinis documenta o envolvimento de alunos e professores do Seminário em revistas e jornais desde longa data. Os PRELÚDIOS, revista mensal de Religião e Cultura (1924 a 1928). A revista DOMINUS VOCAT, publicada a partir de junho de 1941 era um suplemento literário do Boletim Eclesiástico dos Açores. A VOZ DA JUVENTUDE (1948), página literária do jornal A União, sob a direção de Coelho de Sousa. O PENSAMENTO (1953), como suplemento cultural quinzenal da União, sob a égide de José Enes e Artur Cunha de Oliveira e com um grupo de alunos teólogos. Em 1956, nasce o EUNTES publicado por alunos do Curso Teológico com direção e administração do Seminário de Angra.

Outras experiências muito positivas foram o orfeão, o teatro, o armar o presépio, o Clã Bento Góis, a Conferência de São Vicente de Paulo, a obra da cadeia, o desporto e encontros de férias. Cunha de Oliveira, em entrevista concedida ao Diário Insular, a 27 de julho passado, diz que «a grande revolução que se fez nas décadas de 50 e 60 foi a de atender à parte humana das pessoas.» No pertinente à relação sociedade-seminário, o antigo professor diz que «havia uma atitude um pouco de segregar.» Continua: «O que fizemos foi, praticamente abrir o seminário para a sociedade. O José Enes e eu viemos de Roma e trouxemos essa ideia: Temos de abrir o seminário à sociedade e procurar cultivar os açorianos, não apenas sob o ponto de vista religioso, mas também de cultura em geral.» – A estrutura estava criada e o jovem seminarista deixou-se tocar pela motivação intelectual.

A execução do plano, que objetivava abrir as portas do Seminário à sociedade e prestar mais atenção à formação humana dos seminaristas, não aconteceu sem dor e ranger de dentes – queixas para o Vaticano, perseguição da PIDE, transferência involuntária de professores para o Seminário Menor, em Ponta Delgada. Correntes divergentes conduziram o Seminário ao estado de crise que culminou com a saída do Seminário de um curso inteiro, em 1968.

O NEGATIVO. As experiências negativas mais comuns poderão catalogar-se desta forma: disciplina e horários rigorosos, vigilância 24/7 para todo o lado, castigos desnecessários como por exemplo o estudar de pé, repreensões caprichosas, licenças para tudo, favoritismos, controle, restrições de vária ordem como nas leituras e música – escutar um fado seria escolha desaconselhável – Conforme a personalidade do prefeito, a disciplina poderia tomar tons mais amenos e compreensivos.

A mulher e a sexualidade humana nunca chegaram a ser definidas. Circundavam-se. Um diretor espiritual caracterizou a mulher no que ela não é ao sugerir que deveria ser vista como se fosse Nossa Senhora de Fátima ou uma irmã nossa. No Seminário, in loco parentis, estavam os SUPERIORES. Isso não terá sido justamente uma troca quid pro quo, já que não se compartilhava a mesma mesa e o mesmo pão.

Duma leitura deste álbum, poderá depreender-se que as experiências percebidas como negativas, durante o tempo de Seminário, com maior ou menor grau de latência, são resíduo no subconsciente de muitos. Contudo, o saldo geral é absolutamente positivo como veremos através de alguns depoimentos. Viveu-se a espiritualidade cristã. Formou-se e disciplinou-se o homem. O mundo académico foi exigente, atraente e compensador. Preparam-se homens para o futuro. Uma grande maioria de antigos alunos do Seminário de Angra tem carreiras de grande sucesso. Muitos são autores de obras de valor. São homens de cultura e visão, onde o bem comum é objetivo permanente.

A experiência do Seminário tocou a meninice, juventude e vida adulta de muitos. Essa vivência única, nos últimos anos, tem originado encontros, onde com alegria e saudade se canta o sacro, o clássico e o profano dos anos de Seminário. Manuel Agostinho Simas lembra: «Recordações belas, tempos ainda mais belos!»

DEPOIMENTOS. Caetano Valadão Serpa: «Gostaria de concluir dizendo que me sinto muito grato ao Seminário de Angra pelo que dele recebi... Apesar das limitações e, por vezes, rigidez disciplinar, ideológica e religiosa, que uma vez subtraídas à substância da formação humana, deixaram um saldo francamente positivo, útil e válido para o resto da vida.» Esaú Dinis: «Para mim, o Seminário de Angra, na década de 50, foi «país» de crescer. As décadas de 60 e 70, com o Vaticano II e seu impacto, foram país de mudar. O sagrado humanizou-se. O seu paladar persiste. Exigente.» Emílio Porto: «Mas arrisco a dizer que valeu a pena.» Álamo de Oliveira: «Esta nota pretende ser uma forma de reavivar memórias curtas e de reconhecer o muito que o Seminário de Angra deu e continua a dar à sociedade dos Açores.» Álvaro Monjardino: «Ao recordar todas estas mudanças não poderá ignorar-se o contributo que, nessas décadas, para elas deu o Seminário de Angra – na renovação espiritual do meio e na mentalidade criada para ajudar (e até determinar) alterações sociais e mesmo políticas que trouxeram uma feição nova a este arquipélago.» José Dioclécio Ribeiro: «A minha passagem pelo Seminário de Angra, em plena juventude, foi um marco muito importante na minha vida... Por isso, a minha gratidão àquela que designamos e cantamos: «és grande e és bela Casa Santa Mimosa de Deus».

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Crónica
Coordenado por Artur Goulart Melo Borges, Olegário de Sousa Paz e Onésimo Teotónio Almeida – três nomes conhecidos no mundo artístico literário – o Instituto Açoriano de Cultura acaba de publicar o livro Casa Santa, Mimosa... Olhares sobre o Seminário de Angra 1950-1970, álbum comemorativo do sesquicentenário da fundação dessa instituição.
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