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rss  Vol. XVIII - Nº 314         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 18 de Janeiro de 2021
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Isto não é Açores mas também não é África nem Brasil

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Aqui vai uma crónica que escrevi no final do primeiro dia, 19 de julho.

O meu conhecimento de Cabo Verde poderia ser resumido parafraseando Jorge de Sena: Conheço o Sal e… alguns poemas. Na verdade, já estive no… aeroporto do Sal e, para mais, de noite, em dois regressos em voos Johanesburgo – Nova Iorque. Verdade também que, das letras, conheço algo mais do que poemas, mas dizê-lo estragava a paráfrase e às vezes os factos não caem tão bem como a ficção.

O primeiro embate real com a terra deu-se hoje em S. Vicente, com Santo Antão em fundo, como se um São Jorge mais alto visto da Horta sem o Pico de permeio. A geografia, de tanta imagem acumulada ao longo dos anos, é como esperava, todavia mais dura. Ilha de orografia dramática, de uma natureza quase nua e, nas montanhas circundantes, mesmo em esqueleto, banhada de abundante luz e roçada por solta brisa que não deixa muito quieto o mar circundante. A cidade aparece como uma loucura porque a gente interroga-se de imediato e inevitavelmente: mas que raio de teimosia levou alguém a vir habitar isto?

Ela irrompe tropical e africana, algo caribenha, mas a seco, sem palmeiras, só o cimento e a pedra em cima de rocha. Aos poucos, porém, vai ganhando cor e, na sua simplicidade pobre, começa a emergir lavada em cores de África, todas quentes como a temperatura do ar, porém matizadas em tons subtis a revelarem, de quem a construiu, um complexo interior de uma austeridade doce.

Aqui receio já ter deslizado para o sincretismo entre as pessoas que fui encontrando e o ambiente por elas transformado. Com efeito, começa-se a passear pelas ruas e esta gente, alta e de bonita estrutura, exibe um porte digno que se cobre de simpatia à primeira abordagem. Claro que isto é linguagem de forasteiro apalermado, movido a primeiras impressões, mas alguém disse que uma das situações da vida em que nunca teremos uma segunda oportunidade é precisamente essa das primeiras impressões. Para mais, hoje é dia de festa da Cavala e a marginal, fechada ao tráfego, banhava-se de gente a deambular descontraída ao som de música em ritmo de convívio. Num porte grácil e digno, frequentemente altivo sem altivez, uma convivialidade exibindo uma dose de ternura (os namorados evidentemente e os adultos para com as crianças, mas não só) partilham conversas em crioulo, mas respondem-nos com abertura sempre em português se interpelados e com uma finura não afetada, nem subserviente. Como se dissessem: É assim que somos, é assim que estamos e, se gostarem, juntem-se-nos.

Os Açores estão longe disto como estas cores africanas estão da cal branca daquele seu casario imerso em denso verde (uns laivos de parecença entre este ar festeiro e o dos terceirenses). As semelhanças reduzem-se ao facto de se chamarem também ilhas e o mar escrever-se da mesma maneira. Mas até este mar é outro e isso está espelhado nas cores que exibe, incluindo as do céu que o cobre, sem nuvens ou nevoeiros, sem chuva nem ameaças dela, mesmo nesta suposta época dela. Estou decididamente em África, pese embora as marcas lusas restantes no traçado da arquitetura, não nas cores que a revestem (aliás, e estranhamente, há nela forte reflexos britânicos). As ilhas caribenhas são primas, se bem que algo distantes). Cabo Verde parece ter herdado um pouco de tudo e todos e plantado aqui, plasmando-se a gosto. Até na pele e no perfil mestiço dos semblantes.

Nada apagará tais primeiras impressões nem, neste embate do primeiro dia, o desejo de ficar. Só espero bem que as fotos possam melhorar a prosa.

Crónica
Aqui vai uma crónica que escrevi no final do primeiro dia, 19 de julho.
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