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rss  Vol. XVIII - Nº 312         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 31 de Março de 2020
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Tainha na rede, Pântano do Sul, Ilha de Santa Catarina, Brasil

e ele colhe peixes na garganta

do sol

do sal

do vento

(Osmar Pisani)

Por Richard Simas

Fotos de Fernando Alexander

Na madrugada, uma calma enganadora reina nesta praia de pescadores. Esperam a chegada da tainha. «Precisa de vento e ar mais frio» disse alguém um dia antes. «Estão chegando», murmura um velho, imóvel, olhos fixados no mar.

Um estrangeiro como eu não repara nos sinais de antecipação: o barco, as redes preparadas, os vigílias posicionados em cima das dunas observando a superfície azul-cinzenta do mar. Antes da chegada dos europeus no século XV, os povos indígenas têm pescado a tainha nas águas do sul Atlântico até à Argentina. Peixe de água doce e salgada, a tainha migra em direção ao norte para desovar em águas mais quentes. Durante algumas semanas do mês de maio nesta região do Brasil fortemente influenciada pela imigração açoriana, a pesca da tainha permanece uma tradição venerada e comunitária.

O vento muda durante a noite. A temperatura cai e sobe novamente. Do mar, vem a chuva dando palmadinhas nas telhas, lavando as margens da mata ao redor do Pântano. Cheiro de humidade no ar. A freguesia parece ainda dormir.

Tainhas 03.jpg

De repente, dois jovens disparam a toda a velocidade de uma extremidade da praia, gritando um alerta. O som se multipla nos cantos da freguesia, espalhando como fogo num campo seco. A população chega apressada na beira do mar. O Osmarina, um barco elegante de sete metros com proa curvada, surge do seu abrigo, empurrado na areia por homens. Rapidamente o barco é lançado no mar e as redes são posicionadas em água pouco profunda, formando uma meia circunferência. Dois homens seguem atrás do barco para guiar as cordas da rede até à praia. Os assistentes gritam e gesticulam cada um as suas ordens.

Após colocar as redes, Osmarina encontra novamente a praia. Outro grupo de assistentes se organiza ao lado do barco, mãos preparadas para puxar a corda. As boias brancas suportando a rede descrevem uma meia-lua na superfície do mar. São trocados mais gritos de ordens e de instruções, mãos acenando, pessoas correndo e finalmente os dois grupos nas extremidades começam a puxar a rede.

O escritor e cronista de cultura popular, Fernando Alexander, se ocupa do tainhanarede.blogspot.com, uma referência virtual sobre assuntos locais. Ele publicou também o excelente Dicionário Da Ilha, Falar & Falares da Ilha de Santa Catarina. Alexander me informa que barcos como o Osmarina se chamam canoa bordada e são construídos duma única árvore. Cinquenta pessoas estão envolvidas em cada barco para ajudar na pesca e são pagas com peixes pelo trabalho. Fernando comenta que a quantidade de tainha está diminuindo por causa da pesca industrial dos grandes barcos em águas profundas.

Tainhas 02.jpg

Durante gerações, canções e rituais ligados à pesca de tainha têm sobrevivido. Cada comunidade tem suas próprias versões. As fotografias nas paredes do restaurante legendário, o Arante, mostram cenas bíblicas da praia coberta da tainha. Fernando insiste sobre a importância do caráter artesanal e solidário da pesca e sobre o facto de que a sua celebração unifica a comunidade. A tainha, Fernando diz, é deliciosa assada na brasa, frita ou cozida no tradicional feijão preto.

Enquanto os dois grupos se aproximam puxando a rede para a praia, os peixes saltam tentando escapar. Todos tentam adivinhar quantas tainhas foram capturadas. Esta é a primeira pesca de tainha da estação. Quando a rede está aberta e os peixes jogados em montes na areia, a quantidade fica menos impressionante do que nas cenas bíblicas nas paredes do restaurante. Arantinho, o dono do barco Osmarina, murmura «286» e parece decepcionado. Ele aponta o horizonte, dizendo «a maioria escapou naquela direção...»

As redes são recolhidas depois de lavadas no mar. Um caminhão frigorífico chega na praia para levar a pesca. Osmarina é levado de volta para água e em seguida puxado novamente para a praia. É a hora do pequeno-almoço, mas a pesca de tainha só começa.

Duas horas mais tarde gritam de novo os alertas e a população da freguesia chega rapidamente na praia para encenar o ritual mais uma vez. Capturam mais peixes desta vez e o trabalho acontece de maneira mais ordenada e calma. Antes do fim de dia, Osmarina lança suas redes mais três vezes e outro barco, o Mariposa, vem também pescar.

Eu troco o meu papel de observador para ajudar a puxar as redes. Após a pesca, uma garrafa de cachaça, a bebida local, passa de mão-em-mão. Só após ter tomado um grande gole vejo a pequena serpente vermelha no fundo da garrafa. Cobra-cachaça está escrito na etiqueta.

A excitação e o ambiente de festa ilumina a face dos pescadores. Chegou do mar a abundância que liga todas as pessoas da freguesia. Elas voltaram para casa cada qual com a sua porção de tainha.

richardsimas@netaxis.ca

tainhanarede.blogspot.com.br s acendandas e ntuiluições

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Na madrugada, uma calma enganadora reina nesta praia de pescadores. Esperam a chegada da tainha. «Precisa de vento e ar mais frio» disse alguém um dia antes. «Estão chegando», murmura um velho, imóvel, olhos fixados no mar.
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