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rss  Vol. XVIII - Nº 312         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 03 de Abril de 2020
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Oportunidade perdida?

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Há cada vez mais a convicção de que os Açores estão a aumentar descontroladamente a sua dívida pública, embora varrida dos documentos do orçamento da região.

Basta olhar para as empresas públicas regionais ou para as empresas intervencionadas, para ficar com a ideia de que o filme é muito parecido ao que se passou a nível nacional e que levou ao pedido de ajuda externa.

Esta insustentabilidade tem a ver com muitos fatores, mas o mais importante é o facto de, na região, continuarmos a consumir mais do que produzimos e a vivermos muito à base da concessão do crédito e montes de avales.

Há poucos dias ouvi, creio que do Dr. Álvaro Monjardino, esta frase criativa, magnífica, para classificar boa parte do que vivem muitos açorianos: «indústria extrativa de subsídios».

Alterar este modo de vida não é fácil e torna-se ainda mais difícil quando as elites políticas locais dão o exemplo, teimando numa cultura económica já ultrapassada e que se tenta controlar, com muitos sacrifícios, a nível nacional.

O modelo que estamos a aplicar nos Açores já deu mostras que é defeituoso e que precisa de ser rapidamente revitalizado.

Continuar a encaminhar os nossos recursos para investimentos não produtivos, manter um monstro público de empresas mal geridas, algumas desnecessárias, e canalizar os nossos esforços para áreas que não gerem riqueza interna, são erros com efeitos perigosos que põem em causa a nossa sobrevivência e as gerações futuras.

É urgente potenciar o capital humano em todas as ilhas, investindo a todo o custo na sua qualificação, porque é aqui que podemos, no futuro, explorar áreas tão desaproveitadas na região, como a ciência e a investigação.

Mesmo as áreas tradicionais, geradoras de riqueza, requerem hoje mais conhecimento e inovação, resultando em mais-valias para o reforço da capacidade produtiva instalada.

O turismo, por exemplo, está a definhar-se na região, em contraciclo com o resto do país e do mundo, porque as estratégias têm sido todas falhadas.

Tem a ver com escolhas mal feitas, estruturas inoperacionais (transportes aéreos), recursos pouco qualificados e, especialmente, com a nomeação de pessoas para gerir o setor oficial sem qualquer conhecimento da atividade, sem capacidade de liderança e mobilização e sem qualificação para uma função tão criativa e exigente em termos de conhecimento.

É de ficar atónito quando se olha para a estratégia açoriana no mercado turístico, onde ainda se usam os métodos tradicionais, campanhas sem agressividade e alocação de recursos que outros países já abandonaram há muito.

Até o nosso país teve que alterar muita coisa e os resultados estão à vista, com a obtenção de números nunca antes vistos.

Para isso o Turismo de Portugal teve que mudar radicalmente as suas estratégias, a sua agilidade e acompanhar as novas vagas que varrem o setor em todos os segmentos.

Basta dizer que, para este ano, o Turismo de Portugal está apoiar a vinda de mais de 500 meios de comunicação internacionais, desde jornais, revistas e canais de televisão, incluindo os prestigiados «The Guardian», a «Condé Nast Traveller» ou a famosa BBC, numa ação de notoriedade massiva que resulta em publicidade não paga.

Só no ano passado, esta estratégia resultou em 10 mil artigos sobre Portugal, num valor equivalente de publicidade a rondar os 480 milhões de euros.

Estão a ser organizadas, frequentemente, missões no exterior com empresas turísticas e operadores da área e ainda reuniões profícuas com operadoras aéreas para novas rotas turísticas.

Por cá, o que se faz?

Continua tudo tão rudimentar e entregue a gente sem sabedoria neste setor, tal e qual como se continuassem a colar cartazes nas paredes com a paisagem das Sete Cidades, um homem de burro e uma mulher de xaile...

Enquanto a SATA vai consolidando o descalabro nas suas rotas, o Turismo de Portugal conseguiu que a Air Canadá criasse uma nova rota direta Toronto-Lisboa, já a partir deste mês.

Até os nossos vizinhos madeirenses conseguiram voos diretos, este verão, entre Dusseldorf e a pequena ilha de Porto Santo.

São apenas exemplos de como não estamos a conseguir agilizar e a modernizar um setor com reconhecidas potencialidades nos Açores.

Se queremos relançar a economia e o emprego no arquipélago, temos que mudar de atitude e de novas políticas.

A introdução, agora, do «Competir +», é um bom caminho, como instrumento facilitador, mas é preciso mudar mentalidades, chamar aos lugares certos os bons cérebros que estamos a deixar fugir das ilhas, os bons quadros que não se fixam porque o ambiente politizado e partidarizado nas empresas públicas e setores chaves da economia é um horror, com consequências desastrosas, e atrair gente com capacidade inovadora e mérito curricular para desenvolver as imensas atividades geradoras de riqueza que temos na região.

Porque é que o cluster do mar continua parado nos Açores? Porque será que inúmeros jovens, talentosos, continuam a sair da região para desenvolver atividades lá fora em áreas de nanotecnologias, robóticas, ciências biotécnicas, redes inteligentes e outras áreas de inovação? Porque não as temos cá? E não se desenvolvem cá porquê? O que é que estamos a fazer para fixar esta gente, sobretudo nas ilhas mais pequenas? Como vai ser o nosso panorama demográfico nas próximas décadas se não criarmos, desde já, as condições para fixarmos as gerações futuras? Onde estão os grandes debates e as grandes conferências sobre a possibilidade de rentabilizarmos projetos inovadores, como a exploração da vasta ZEE ou a nova parceria entre os EUA e a Europa, connosco no meio do Atlântico?

Ou muito me engano, ou estamos a passar por uma oportunidade perdida.

(PS – Esta coluna vai de férias, regressando em setembro)

Crónica
Há cada vez mais a convicção de que os Açores estão a aumentar descontroladamente a sua dívida pública, embora varrida dos documentos do orçamento da região.
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