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rss  Vol. XVIII - Nº 312         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 11 de Agosto de 2020
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O divórcio do «Brasil de Chuteiras»

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

«Mostra tua força Brasil

E amarra o amor na chuteira

Que a garra da torcida inteira

                    Vai junto com você Brasil»

Quando no último dia 12 de junho, em plena Arena do Corinthians – «o Itaquerão» de São Paulo, na abertura da Copa do Mundo 2014, o público cantou à capela com toda a força da emoção, em tom uníssono, cheio de garra, o Hino Nacional Brasileiro estava decretado o divórcio do «Brasil de Chuteiras» do «Brasil Insatisfeito». Uma insatisfação que atinge 72% dos brasileiros, segundo revelou, no passado abril, a pesquisa do renomado Instituto Pew Research Center dos Estados Unidos. O Hino Nacional entoado com paixão por 62 mil pessoas, a plenos pulmões, foi um ato de bravura, lindo, patriótico tal qual o grito do Ipiranga de Dom Pedro I, proclamando a independência do Brasil. Um grito de guerra que extravasou os limites do Itaquerão, sacudiu o País, encantou o Mundo do futebol. A torcida brasileira que com seu canto retumbante arrepiou o País, hipotecou confiança à seleção e, mais uma vez, escancarou a paixão nacional pelo futebol, ali sob o manto verde amarelo que abraçou o estádio por inteiro, mandou o seu vigoroso recado: chega da política do «Pão e Circo!» Aliás, expressão que tem origem na antiga forma romana – dar pão e divertir o povo é o suficiente para abafar a insatisfação (de panem et circenses in: Sátiras do poeta romano Juvenal, c. 50-128 d.C.). Agora, este povo que por 32 dias viverá a magia da Copa do Mundo, tem a consciência cívica que é possível separar o pão do circo ou o joio do trigo e não aceitar que seu amanhã lhe seja oferecido carimbado como «bolsa família».

Brasil das Chuteiras.jpg

O recado veio na euforia do cantar abraçado o Hino Nacional, de vestir a bandeira verde amarela e pintar a cara de felicidade. O recado ressurgiu em forma de vaia homérica, por quatro vezes e acompanhada por xingamento ofensivo e desrespeitoso à Presidente Dilma Rousseff (e ao seu cargo) que não se pronunciou na Abertura da Copa, que se escondeu no camarote oficial e que na véspera fez um discurso elogioso ao seu governo e ao futuro legado da Copa. Nada justifica a atitude agressiva e nem quero incentivar a cultura ao desrespeito. Antes pelo contrário, merece repúdio.

O povo brasileiro decepcionado não se deixa iludir pelo canto da «sereia» que mascara em discursos flamejantes os descalabros financeiros, os gastos abusivos, a conivência com a corrupção, o potencial de erros de obras faraônicas superfaturadas e não acabadas da Copa mais cara da história do campeonato mundial e que custará a fortuna de 30 bilhões de reais. Com padrão FIFA, é claro!

O caos que precedeu a tudo nasceu no «Brasil Insatisfeito» que não suporta mais o desgoverno que se espalhou pelo País, num enrosco que parece não ter fim. Mas, há de ter. Afinal, este é um povo que vive a esperança até os limites da exaustão.

O Brasil de Chuteiras que traz na alma o amor pelo futebol (quase às raias do fanatismo) sempre soube que sua paixão não tem nada a ver com política e nem é instrumento ou mote para campanha eleitoral. Não admite ser manipulado. Não aceita qualquer intromissão, venha de onde vier. A propósito, no Copas do Mundo: Comunicação e Identidade Cultural no País do Futebol, obra organizada pelos professores Ronaldo Helal e Álvaro do Cabo, lançada recentemente pela Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EdUERJ), Ronald Helal afirma: «É um equívoco associar a seleção ao governo. A sociedade amadureceu, derrotas e vitórias dentro do campo não são mais um projeto de nação.» É isso aí!

No entanto, quase que este «Brasil Insatisfeito», descontente, fez fenecer a alegria e o brilho de uma Copa do Mundo que pela segunda vez se realiza no Brasil. Na hora certa, a separação com o País real, que gravita fora dos estádios, se tornou inevitável. Mesmo que seja uma separação efêmera com prazo de validade até o apito final do campeonato a 13 de julho vindouro. Até lá o que importa para muitos é viver intensamente o momento e celebrar a grande festa do futebol mundial – o patrimônio de todos.

É verdade, que o povo relutava a entrar no clima da festa e vestir verde amarelo. Porém, aos poucos e muito timidamente, as bandeiras foram desfraldadas nas sacadas e janelas, as ruas e avenidas se enfeitaram e a euforia tomou conta da gente brasileira numa grande corrente avassaladora de apoio aos meninos do Brasil.

Pelo sim ou pelo não, os grandes momentos do Jogo de Abertura da Copa 2014, Brasil x Croácia, na tarde de 12 de junho, quinta-feira, dia dos Namorados, não será esquecida pelos torcedores presentes no estádio e pelos 200 milhões de «técnicos» brasileiros espalhados de Norte ao Sul.

Há duas semanas assiste-se a 736 jogadores de 32 seleções a disputarem a conquista da Taça do Mundial de Futebol. Ao todo serão 64 jogos. É extraordinária a sua magnitude!

Para o Brasil de Chuteiras a hora da vez é curtir os ídolos, comemorar os dribles, os remates, os golos dos craques nacionais e estrangeiros. É torcer loucamente, gritar, pular, sambar e abraçar muito a glória da vitória ou chorar de tristeza, brigando e xingando todos os «culpados» pela tragédia da derrota. Uma implacável cobrança para ficar na memória coletiva. Nem o empate «desce redondo». Fica entalado como algo morno, indefinido, no limbo entre o céu e o inferno.

Afinal, futebol foge da lógica. Basta ver alguns confrontos e resultados inesperados que deixou o GOLLLL preso na garganta como o futebol alegre da Costa Rica que deu uma rasteira no confiante Uruguai, a incompreensível e dramática derrota de Portugal para a Alemanha e a campeã Espanha atropelada pelo alaranjado da Holanda e desclassificada por um Chile forte e guerreiro. Nada é racional. Muitas vezes parece que as bruxas estão soltas conspirando contra o ponderável. Cada embate, cada momento, cada jogada ou apito do juiz fascina ou decepciona.

Tudo é só emoção, magia pura depositada, apaixonadamente, por milhares de torcedores nos pés de sua seleção, de seus ídolos, seja o moleque Neymar Jr. com dribles desconcertantes e golos geniais, o veloz Cristiano Ronaldo e seus remates incríveis, a máquina Lionel Messi de chutos certeiros e tantos outros craques que vão surgindo, fazendo a diferença e levando a torcida ao delírio.

O divórcio do Brasil de Chuteiras vai persistir até o final, quando acaba o padrão FIFA e volta o padrão Brasil.

Seja qual for o resultado da Copa, Hexa ou Penta, continuarei a acreditar e torcer pelo meu Brasil de Chuteiras, pelo País real com suas mazelas e dilemas, pela grande nação brasileira, bonita por natureza, cordial, hospitaleira, festeira, tolerante, cheia de fé no Futuro e que faz minha alma vibrar em compasso com a nossa gente num só coração.

Meu Brasil mostra a tua força!

«[...] E faz da nação a tua bandeira/Que a paixão da massa inteira/Vai junto com você Brasil!» (versos do hino Mostra tua força Brasil, interpretado por Paulo Miklos e Fernanda Takai).

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Crónica
Vai junto com você Brasil
O divorcio do Brasil de Chuteiras.doc
no
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