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rss  Vol. XVIII - Nº 312         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 10 de Abril de 2020
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Editorial

O medo dos outros

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

O que é que podem ter em comum a «Carte des valeurs québécoises», a recente vitória dos partidos nacionalistas da extrema-direita na Europa e o Califado agora proclamado pelos jihadistas do Iraque e da Síria?

Se os meios e os fins de todos eles não são comparáveis, e que metê-los no mesmo saco seria não só abuso de linguagem como de grande desonestidade intelectual, o facto é que todos carburam pelo mesmo ingrediente: o medo. Medo dos outros, medo da religião dos outros, medo da modernidade.

De todos eles o mais inócuo, convenhamos, foi a iniciativa falhada da carta dos valores do Parti Québécois e o resultado das últimas eleições veio prová-lo. Veio provar que afinal o espantalho da imigração e da religião, tão frequentemente agitado pelos tenores do nacionalismo étnico, não chegou para meter medo suficiente à grande maioria dos quebequenses que votou por um futuro aberto aos outros e à tolerância.

Mais perigosa foi a vitória dos partidos xenófobos europeus que, contradição das contradições, à semelhança do que representa um partido independentista, como o Bloc Québécois, no parlamento federal, apostaram sentar-se no parlamento europeu para destruir a Europa.

Sabendo-se que a construção da União Europeia foi precisamente a resposta que os dirigentes do velho continente encontraram como solução às sucessivas guerras de destruição massiva a que os nacionalismos étnicos os conduziram, durante séculos, e que culminou com as duas guerras mundiais de triste memória do século passado, a verdade é que os partidos nacionalistas, anti imigração, anti estrangeiros, anti tudo que não seja a ilusória pureza nacional, se não encontrarem pela frente, em Bruxelas, uma oposição firme e esclarecida, vão acabar por despertar os velhos demónios que ensanguentaram a Europa, durante milénios. Tudo parece indicar que tal não voltará a acontecer, que os europeus, logo que a crise seja vencida, irão despertar do pesadelo nacionalista, mas nunca se sabe, por vezes o diabo tece-as.

Evidentemente que de todas estas manifestações de urticária religiosa-nacionalista a mais grave e a mais nefasta, não só em termos civilizacionais, como em custo de vidas humanas que as estatísticas macabras já começaram a contabilizar, é a da recente proclamação do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (ISIS), como primeira pedra na construção do grande califado islâmico, a nação mítica sonhada por Bin-Laden, capaz de rivalizar com o domínio árabe que outrora ocupou a bacia mediterrânica e o médio oriente cujos soldados de Maomé se espalham hoje muito para além daquele alfobre inicial e se infiltram agora pela África adentro, graças ao dinheiro do petróleo da Arábia Saudita.

Como se explicam estes fenómenos? Como se explica esta violência, este ódio, esta intolerância, esta prepotência em querer que todos pensem, ajam e rezem pelo mesmo credo?

Em todo o caso, mas mais acentuadamente no que diz respeito aos islamitas, o grande medo é o medo da modernidade. O medo de desembocarem num mundo novo onde todas as certezas que os alimentava vão ser postas em causa. O medo de verem novas verdades virem ao de cima, de novas descobertas porem em causa a fé que os alimentou desde que nasceram. O medo que sempre foi a grande alavanca e o grande aglutinador de que todos os dirigentes político-religiosos sempre usaram e abusaram para manter o rebanho unido e coeso.

Contra este medo, seja no mundo muçulmano, na Europa ou no Quebeque só há uma solução. A solução que passa pela instrução, pela informação, pelo debate democrático. A resposta dos eleitores do Quebeque é mais do que eloquente. Esperemos que os europeus lhe sigam o exemplo e que os muçulmanos um dia acordem e saiam da negra noite da idade média em que ainda vivem.

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