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rss  Vol. XVIII - Nº 310         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 23 de Outubro de 2020
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Pedro da Silva, primeiro carteiro do Canadá

Vitória Faria

Por Vitória Faria

No passado dia 21 de maio, na simpática biblioteca municipal de l´Ile Perrot, um encontro inusitado entre um escritor português e uma descendente do herói do seu livro, Pedro da Silva.

O escritor é Carlos Taveira, nascido na cidade de Lobito, em Angola, chegado a Montreal em 1985, onde viveu 15 anos, e atualmente a residir na capital nacional.

A descendente do herói do livro é Mme Suzanne Da’Sylva, que descende em linha reta de Nicolas Dasilva, um dos catorze filhos do nosso herói.

O livro é «Mots et marées», uma biografia de Pedro da Silva, o antepassado de todos os «Silvas», incluindo as diversas grafias do nome original, e ainda de alguns dos «Portugais» do Canadá.

Este livro veio parar-nos às mãos por um mero acaso. Entramos numa livraria que nunca frequentamos, principalmente porque tem à venda mais canecas para o café e velas perfumadas do que livros (exagero apenas um pouco) e que, dentre os livros, a parte dedicada à literatura em língua francesa é ínfima. Pois por um segundo acaso, num escaparate com as novidades, havia o livro dum autor com um nome português, para cúmulo sobre um personagem de que todos nós que vivemos no Canadá já ouvimos falar.

Carlos Taveira e a filha.jpg
Carlos Taveira, com a filha.
Foto  - LusoPresse

De Pedro da Silva (ou Pedro DaSilva) pouco se sabe a respeito da data da sua chegada a terras da Nova França, nem como aqui chegou, por que razões, quando e onde nasceu. Foi o trabalho de pesquisa de Carlos Taveira, um trabalho minucioso e feito com todo o rigor exigível para um romance histórico, que nos deu esta biografia fascinante, um volume de 550 páginas que devoramos em poucos dias. Ficamos então a saber que o nosso herói já vivia em Québec no ano de 1672 e que no ano seguinte foi contratado por um período de seis meses por Bertrand Chesnay, conhecido como Lagarenne, um dos negociantes mais ricos da colónia. Facto surpreendente para a época, Pedro da Silva assinou o contrato com uma bela escrita pois sabia ler e escrever na sua língua materna.

Por que razão é que Pedro da Silva é um personagem que ficou conhecido na história do Canadá? As comunicações são importantes, e se o são hoje, ainda mais o eram nesse distante século XVII, em que a Nova França vivia, sem o auxílio da distante mãe-pátria, no meio de guerras com os índios e a Nova Inglaterra. Nesse tempo em que a única via de comunicação era o Saint-Laurent, um rio perigoso, que o nosso compatriota navegou de Québec a Trois-Rivières e até Montreal, nos dois sentidos. O facto de Pedro da Silva saber ler proporcionou-lhe que, para além do transporte de mercadorias, pudesse levar mensagens pois, à medida que ia dominando a língua francesa, era capaz de decifrar corretamente os nomes escritos e assim entregá-las a quem de direito. Os primeiros a recorrerem aos seus serviços foram os Jesuítas, o que decerto inspirou a confiança dos particulares para que, não só lhe entregassem cartas mas também cobranças. Mais tarde, foram os dirigentes da administração colonial que lhe confiaram a correspondência oficial, mensagens de grande importância, sobretudo em tempo de conflito. De tal maneira os seus serviços foram reconhecidos que, em dezembro de 1705, foi nomeado «messager ordinaire» (carteiro) por Jacques Raudot, intendente da Nova França. No documento da sua nomeação como mensageiro do Rei, por ordem de Luís XIV de França, era louvada a sua «diligência e fidelidade, estabelecidas as tarifas do porte das cartas, e solicitada a assistência dos oficiais em caso de necessidade para levar as cartas do Senhor Governador-Geral».

A partir do momento em que Pedro da Silva, a 16 de maio de 1677, se casou com Jeanne Greslon, chamada «la Jolicoeur» para a distinguir da mãe que tinha o mesmo nome, começou-se a dispor de dados sobre a sua vida no Canadá. A data do nascimento de cada filho, quem foram os padrinhos, etc., tudo está consignado nos arquivos da época. Sabe-se que era um homem muito crente e os seus filhos sempre foram batizados, se não no próprio dia do nascimento, no dia seguinte, como o prescrevia a Igreja. Ao longo dos nascimentos pode detetar-se a sua ascensão social, pois se ao princípio as crianças eram apadrinhadas por simples amigos, os últimos o foram por personagens importantes da colónia. Infelizmente, o nosso herói vai-se extinguir a 2 de agosto de 1717, vítima duma febre maligna, possivelmente a febre-amarela, sem a presença dos seus, e enterrado rapidamente no cemitério de Notre Dame de Québec, segundo as medidas usuais para evitar o contágio. Estas epidemias eram coisa corrente na colónia e sempre faziam muitas vítimas. O próprio Pedro da Silva assim perdeu cinco dos seus filhos.

Tudo o que aprendemos com esta leitura, foi-nos exposto por Carlos Taveira na sua excelente conferência, com a vantagem de termos direito à projeção de documentos da época e, sobretudo, de cartas geográficas que nos mostraram os lugares em que viveu Pedro da Silva.

Soubemos também que a sua descendente, Mme Suzanne Da’Sylva, se deslocou a Lisboa para tentar achar mais traços do seu antepassado. Infelizmente, o único registo encontrado nesse nome, seria o de alguém nascido em Setúbal, mas provavelmente não o nosso herói.

 

Este não é o primeiro livro de Carlos Taveira sobre um dos nossos antepassados conhecidos no continente americano. O primeiro intitula-se «Mateus da Costa e os Trilhos de Megumaagee» (2006). Este personagem é outro grande mistério pois o que sabe ao certo é que era um negro originário do Congo com um nome português, homem livre e navegador, que desembarcou em 1607 na América para servir de intérprete de francês para micmac, que era a língua falada então no que é hoje a Nova Escócia, e que se fazia pagar bem pelos seus serviços. Para ter algumas respostas (ou hipóteses de resposta) é preciso ler o livro, que são com certeza horas asseguradas de prazer de leitura, dada a escrita elegante do autor e o rigor histórico observado no único livro seu que tivemos ocasião de ler à data.

Seguiu-se-lhe um outro romance «La traversée des mondes» (2011), uma história cruzada entre a Nova França do século XVII e o Montreal do ano 2000.

Depois da biografia de «Pedro Da Silva, un Portugais messager du roi en Nouvelle-France» (2014) o autor publicou ainda um livro de poesia intitulado «De la racine des orages» (2014).

Carlos Taveira confessou-nos que está em vias de escrita de um romance sobre uma outra conterrânea nossa, Marie-Josèphe, uma escrava negra nascida na Madeira em 1705, vendida na Nova França a Thérèse de Couagne e a seu marido em 1725, que a batizaram de Angélique. Acusada de ser a causadora dum incêndio que devastou um terço da cidade de Montreal em 1734, foi condenada à morte sob o testemunho duma criança de 6 anos e executada a 21 de junho do mesmo ano. Isto sabemos nós, os montrealenses, graças à peça «Mãos Negras», levada à cena por Tetchena Bellange, em abril de 2009. No ano passado, o nome de Marie-Josèphe-Angélique foi dado a um pequeno parque, perto do local onde ela viveu, e que fica ao lado da estação de metro Champ-de-Mars.

Documentário
No passado dia 21 de maio, na simpática biblioteca municipal de l´Ile Perrot, um encontro inusitado entre um escritor português e uma descendente do herói do seu livro, Pedro da Silva.
Pedro da Silva.doc
no
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