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rss  Vol. XVIII - Nº 310         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 23 de Outubro de 2020
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Pedra de Toque

Daniel de Sá e o Senhor da Esperança

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

«Que mãos terão esculpido este rosto?...

Que espírito concebeu assim o olhar humano de Deus?...

Que umas vezes parece triste, dramaticamente triste, outras

vezes apenas resignado...

Houve um artista que foi encarregado de substituir estes olhos

por outros, de vidro.

Com o cinzel pronto para o primeiro golpe, sentiu chegar-lhe à

alma aquele estranho olhar. Reteve o gesto, e disse: «Não posso.»

Por isso os olhos do Senhor Santo Cristo dos Milagres

continuam a ser os mesmos de sempre.»

Daniel de Sá, In: Senhor Santo Cristo – o olhar humano de Deus, 2007

Pedra de toque Daniel de Sa.jpg
O saudoso escritor Daniel de Sá.

Maio. Primavera. Há cerca de um ano, numa manhã açoriana que, entre o azul das hortênsias e o verde da criptoméria, se descortinava o amarelo da bela e perfumada flor da conteira, chegava da freguesia da Maia a notícia da partida repentina e serena do escritor Daniel de Sá. Na Ilha de cá, que o Daniel teimava em dizer que não era Ilha de verdade (ter o continente à distância de uma ponte não é viver numa ilha a sério...) era uma dessas enxovalhadas manhãs de outono que apetece ficar quietinha, curtindo o aconchego da casa. Aliás, igual ao dia de hoje – cinzento, frio, nuvens grossas como um mata-borrão secando a umidade do céu. Ou, será a minha vista turvada pela dança das lágrimas? Sentar aqui, depois de um ano sem o Daniel e falar da saudade do escritor e do amigo, não é nada fácil.

Talvez, não o conhecesse tanto quanto seus amigos de uma vida. Mas, conheci o suficiente para saber que ele, também, não ia gostar de ler um rosário de choramingas em sua memória. Em 27 de maio de 2013 lamentávamos a sua partida, deixando-nos órfãos do seu saber, da sua palavra sempre pronta, da ternura de atitudes, da sua lealdade e frontalidade, hoje, recordo Daniel de Sá, cidadão português, açoriano da Maia, homem de muitas letras, professor, marido de Maria Alice, pai e avô amado e querido amigo.

Quero correr por canadas da memória a cirandar de umas para outras lembranças vivas como a lição que me dedicou sobre o uso do «c» mudo em Português de Portugal que perdeu a validade: «Nós por cá, em Portugal,/temos cês muito discretos./E quem não quer amar mal/Tem de pô-los nos afectos./ É que esta questão dos cês/Não se faz assim à toa./Tem razões e tem porquês,/Não é moda de Lisboa [...] Vais aprendendo a lição? Se não vais, já me retracto,/mas nestas há quem os diga,/Dou o dito por não dito/Que a nossa lição prossiga.[...] ». Pois, a deliciosa lição do «dilecto» amigo prosseguiu rendendo um bom debate, além do ensinado ou do humorado puxão de orelha.

Intelectual brilhante tratava da linguagem como um virtuose da palavra, brindando seus leitores com verdadeiras preciosidades literárias esculpidas na sua elegante e fecunda escrita. Sua produção se alimenta da história social, do tempo e do espaço apontando caminhos de um processo histórico marcado pelo fenômeno da emigração, pela condição de estar fora da Ilha ou dentro dela. Daí a afirmação antológica – sair da Ilha é a pior maneira de ficar nela – do seu romance «Ilha Grande Fechada» que tanto comove por ser tão verdadeiro mesmo sendo ficção. Daniel é citado como uma voz de grande sensibilidade que falava da freguesia da Maia de histórias passadas com as coisas, com a vida das Ilhas. Sobretudo, é lembrado por sua escrita de respeito à condição humana e de amor a terra, desvendando-lhes a alma, gravando verdades ou, simplesmente, contando histórias – retratos da vida real «penetrados por uma claridade particular que os converte em fonte de sentidos-outros e os transfigura. E no encontro da palavra iluminada por um espírito unificador, institui-se o espaço da revelação». Aqui, cito a escritora Adelaide Freitas sobre a escrita de Daniel. Autora que ele muito admirava e queria bem. Duplamente me emociono.

Milhares de crônicas, artigos de jornal, prefácios, textos, notas, mensagens do correio postal às eletrônicas. Livros, uns vinte, creio. Gerou e deu voz a personagens tão distantes como Charles Lawson, o jornalista luso-americano de O Espólio (1987), e Aharon Csánady Halévy, o sobrevivente de Auschwitz, de E Deus Teve Medo de Ser Homem (1997) ou, ainda, como João, o romeiro de Ilha Grande Fechada (1992), e de António, o amado de Helena, de A Terra Permitida (2003). No entanto, tão próximos nos questionamentos e no entendimento que têm de si, de seu lugar no mundo, de suas escolhas, de sua capacidade, de seus limites e de seus desafios.

O que realmente me cativa é a sua narrativa em Sobre a Verdade das Coisas (1985). Debruçado sobre factos corriqueiros, conhecidos de toda a freguesia, vai entrelaçando a realidade e a ficção na urdidura de cada personagem e conto como se tudo acontecesse sob a sua janela. Daniel de Sá transforma a Maia em palco, num cenário aberto para sua ficção e de lá se fez ouvir. E de lá descansou a pena para sempre.

Quero lembrar Daniel de Sá por sua devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres – o Senhor da Esperança. Comentar sobre o enlevo de sua escrita espiritualizada, de profunda religiosidade, enquanto a cidade de Ponta Delgada ainda «cheira a Festa» e vive o clima de grande comoção que marcou, mais uma vez, a procissão da rica imagem do Senhor Santo Cristo, coroado de espinhos, sofrido, olhar triste, mas cheio de amor e levando com Ele todas as aflições e esperanças renovadas a cada primavera, num dramático e verdadeiro testemunho da imperecível fé dos açorianos.

Fiel aos seus princípios e crenças, Daniel era frontal, punha na sua escrita tudo aquilo em que acreditava e com absoluta convicção partilhava o seu pensar. O seu texto para o livro Peregrinos do Senhor Santo Cristo dos Milagres (2009) é a sagração da história do culto da imagem do Senhor Santo Cristo – o Ecce Homo. Estudioso, investigador sério, lançou seu olhar acurado, isento, sobre os factos sociais e históricos que registram a celebração religiosa na sua essência e manifestação. Daniel não deixa dúvidas quanto à origem remota do culto, à sua expansão e popularidade às outras ilhas do arquipélago e também a muitas comunidades da diáspora açoriana, bem como a data da primeira procissão em 11 de abril de 1698, há 316 anos. Magistral história guardada na memória coletiva dos antepassados, transmitidas aos seus descendentes e contadas e (re)contadas às gerações de hoje e às gerações de amanhã.

Concordo com Onésimo T. Almeida quando diz que «quem nunca assistiu àquelas festas (nem viu um rancho de romeiros) não conhece a cultura micaelense. As festas fazem parte do mais fundo da cultura daquela ilha [...] ».

Jamais esquecerei a emoção sentida ao assistir à Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Da madrugada de sábado até domingo à noite procurei acompanhar e entender os significados do culto e do ritual marcados por momentos de intensa religiosidade e beleza no Santuário da Esperança, onde uma montanha de flores abraçava a imagem e, no lado de fora, no campo de São Francisco, uma feérica iluminação dominava com arte toda a praça. Segui a procissão da mudança da imagem e no domingo mergulhei no mar de gente que acompanhava a imagem pelas ruas enfeitadas com tapetes de flores e das janelas ornadas com lindas toalhas numa profusão de cores e cheiros. Meu olhar incansável e deslumbrado ia do povo às janelas e varandas, onde famílias reverenciavam a tradição secular. É impossível não se emocionar. Já escrevi anteriormente sobre a grandiosidade da Festa e da comoção coletiva que perpassa naqueles dias de louvor, de vivência da fé e tributo ao Senhor da Esperança.

No texto do DVD Senhor Santo Cristo – o olhar humano de Deus, Daniel de Sá deixou o seu recado: Felizes aqueles que acreditam sem ver. Mas os nossos olhos precisam de imagens como esta que nos lembrem alguém que tanto nos amou. E de multidões cujo exemplo de fé nos leve a confiar também. A dor acompanhada é menos triste, o amor partilhado é mais forte.

Minha gratidão ao Daniel de Sá por todas as palavras ditas e por todas as que escreveu e que ficam para sempre.

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Crónica
«Que mãos terão esculpido este rosto?...
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O tempo no resto do mundo

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