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rss  Vol. XVIII - Nº 310         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 23 de Outubro de 2020
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Notas bárbaras (de um quase diário)

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Já conheço uns quantos parques nacionais do oeste americano. A grandiosidade do Grand Canyon parece inultrapassável, mas a beleza diferenciada de todos eles é espantosa. Há dois anos, visitámos três no sudeste de Utah. Desta vez rumámos a sudoeste e hoje foi o Bryce, há décadas na minha lista de espera. Considerado de pequena dimensão em termos de parques nacionais, é só um pouco menor do que a ilha do Faial. Em beleza, se se tem a sorte do sol e céu azul, resulta num despoletar de adjetivos em incontrolável cadeia: belo, estupendo, magnífico, espetacular, esfusiante, incrível, inacreditável, e só com a ajuda de um dicionário de sinónimos se não torna monótona a ladainha.

O Bryce Canyon é uma explosão de relevos naturais em rochedos e colunas atrevidas e desafiadoras dos tempos cronológico e meteorológico. O «anfiteatro», como é conhecida a vista do miradouro mais visitado, lembra um órgão monumental. A emergir abrupto do fundo da terra, todo aquele cenário é um autêntico barroco ao natural. Formas voluptuosas, douradas pelo sol em contraste com o azul do céu, um azulejo imenso a fazer de azul-real em fundo contra uma talha dourada de espirais e arredondados, em voltas gordas e teatrais, descomedidas e celebratórias da arte pela arte.

O panorama do alto (o rim, ou a orla da rocha que abraça o canyon), de uma altitude de dois mil e quinhentos metros (mais alto que o Pico), é portentoso; todavia, descer é que proporciona o espetáculo em plenitude. Fizemos cinco quilómetros, uns 400 metros de descida por entre delirantes formas geológicas, como se a deambular pelo labirinto infindável de um altar barroco supergigante. Pus-me a cirandar por ali todo Alice in Wonderland. A alturas tantas, diante de torres explodindo em ornamento, soltou-se-me um Eureka: Se calhar Gaudí inspirou-se neste canyon para criar a loucura da sua igreja da Sagrada Família em Barcelona.

Caminhantes em silêncio, pais com crianças às cavalitas e corajosos seniores, tudo gente em boa forma física, saudando-se à passagem sorrindo ou ciciando num respeito quase-religioso. Aqui, Rousseau tem razão: reduzidos a uma natureza destas, somos todos bons selvagens. E Espinoza, aposto, veio aqui beber o seu Deus sive natura.

Não há vislumbre de papel no trajeto, nem rasto de plástico nos atalhos construídos disfarçadamente de modo a quase nem serem notados.

Subir de regresso foi um tal lembrar com saudade os anos da peitaça juvenil. Aguenta que é obra! Para mais, com a rarefação da altura (estávamos a 2500 metros de altitude), respiração rimava com ofegante.

Foram 340 fotos só de hoje, o cabo dos trabalhos para selecionar uma dúzia e meia partilháveis com os amigos. Depois de me cruzar muitas vezes com gente dos quatro cantos do globo, toda de máquina fotográfica em perene clicagem, voltei-me às tantas para uns europeus de ar nórdico: Aqui somos todos japoneses! Eles sorriram e desdobraram-se em adjetivos parentes dos meus para classificar a paisagem. Ao lado, um suíço ouviu e lamentou-se: Ainda estou no princípio e já não tenho memória na minha disquete. Só me resta a hipótese de comprar postais. Fosse comigo, dava-me não sei que ataquinho. Eu para aqui com estas banalidades incapazes de descreverem tão empolgante experiência de beleza, e aterro dela a lembrar a saída de um dos primeiros habitantes desta região, um cowboy a quem perguntaram como se sentia a viver num cenário assim: É um lugar dos diabos para se perder uma vaca! (It’s a hellava place to lose a cow!). Provavelmente apócrifo, mas bene trovato. Se calhar esta beleza contemplada todos os dias transforma-se em banal. Mas não quero saber. Hoje ela foi transcendente.

2 de Abril

Esteve aqui o Anthony De Sa, o escritor de Toronto filho de micaelenses da Lomba da Maia. Veio fazer um circuito pelos Estados Unidos. Cinco semanas, pagas pela sua editora (Algonquin), a fazer leituras aqui e ali para promover o seu segundo livro e primeiro romance – Kicking the Sky. Pediu-me colaboração e organizei-lhe um microcircuito aqui na área. O ponto alto foi a sessão no Providence Atheneum, a biblioteca frequentada por Edgar Allan Poe para se encontrar com a namorada de Providence. Eu estava com receio de não aparecer muita gente porque… April is the cruelest month, como já escreveu T. S. Eliot. De manhã, contei no Brown Morning Mail, que nos chega diariamente por via eletrónica a relembrar a lista de eventos do dia: eram 36. Só ontem (hoje são 45!). Mas a sala estava composta.

O Anthony é um grande contador de estórias, mas tudo só colhido na sua própria vida. É um mestre no ofício. E, diante do público, cativa-o em pleno.

Eu tinha lido o livro no verão passado, na Caloura, antes ainda de ser publicado. Notei erros nas palavras portuguesas que ele cerziu no texto e fiz-lhe saber. Atuou imediatamente, a tempo de ainda conseguir parar a impressão da edição canadiana para introduzirem as correções.

Entretanto, sugeri à Leonor que lesse o romance. Fê-lo e gostou deveras. Nova sugestão minha: Escreve uma recensão! Ela fê-lo, mas acabou saindo-lhe um ensaio. Quando agora surgiu a edição americana e me dispus a colaborar na digressão do Anthony, empurrei a Leonor para apresentar o livro na sessão no Atheneum. Ela detesta falar em público, todavia acabou cedendo às minhas insistências e manteve com o Anthony uma bela conversa, pois transformou o seu escrito num conjunto de bem informadas perguntas e respostas.

Tanto ali como no meu programa de TV e na livraria da Brown – os três eventos em que participei – ouvi muitas estórias ao Anthony. Não dá para contar aqui, até porque isso seria impossível visto elas viverem do charme, da emoção, do manuseio da linguagem, do aguda capacidade de reproduzir observações da vida real que o Anthony exibe. Mas não resisto a resumir deslavadamente duas.

Quando a avó o obrigava a rezar, e ele tinha que o fazer em português (o pai do Anthony obrigava todos a falarem inglês em casa, mas com a avó ele tinha que falar português), ela explicou-lhe a sua exigência: O Jasus nam fala inglês.

Um dia, tinha ele já 12 anos, a avó precisou que ele a acompanhasse ao médico para servir de intérprete. Quando lá chegou, apercebeu-se de se tratar de um ginecologista. Ainda tentou esquivar-se, mas a avó insistiu na necessidade de ele ficar para traduzir.

Ouvi-lo descrever a cena é um portento. Durante o exame, a avó a fazer-lhe dizer ao médico que aquilo que ele estava ali a ver, durante toda a sua vida só um homem tinha visto: o marido. Antes do exame, porém, o médico quis saber dados da biografia da senhora e perguntou-lhe a idade. Ela não sabia. Aventou se não seria uns oitenta. Deve ser para aí – respondeu. E quantos filhos teve? A avó também não sabia. O Anthony envergonhado e mantendo-se sempre à distância: Mas como é que a avó não sabe quantos filhos teve? E ela: Para que é que ele quer saber essas coisas todas? Depois de algum esforço, lá confessou: Vinte e dois. O Anthony boquiaberto, porque só conhecia sete tios e tias, demorou a deduzir que os outros tinham morrido.

Passado o vexame daquela experiência de se desnudar diante de outro homem e na presença do neto, a avó foi para casa já bem menos nervosa. O Anthony, ainda a pensar nos 22 filhos, atreveu-se a ir um pouco mais longe: A avó deve ter tido uma vida muito dura. Quais foram os melhores anos da sua vida? A senhora não pestanejou: Os três anos em que o teu avô esteve embarcado na Bermuda!

 

Crónica
Já conheço uns quantos parques nacionais do oeste americano. A grandiosidade do Grand Canyon parece inultrapassável, mas a beleza diferenciada de todos eles é espantosa. Há dois anos, visitámos três no sudeste de Utah. Desta vez rumámos a sudoeste e hoje foi o Bryce, há décadas na minha lista de espera.
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