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rss  Vol. XVIII - Nº 309         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2020
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Arruda Furtado – os imaginários novos manuscritos

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Num dia de abril recebi vários e-mails sobre o mesmo assunto: a descoberta de 500 inéditos com muitos desenhos de Arruda Furtado, o açoriano que se correspondeu com Darwin. A notícia principal saiu no Público e vem resumida assim numa versão que circula na Internet:

 

Cerca de 500 desenhos e manuscritos inéditos do naturalista Francisco Arruda Furtado foram descobertos numa gaveta do Museu de História Natural de Lisboa. O cientista português manteve correspondência com Charles Darwin, o pai da Teoria da Evolução.

 

A coordenadora da equipa de investigadores que analisa o espólio encontrado, Marta Lourenço, afirma à jornalista da Antena 1 Alexandra Sofia Costa que esta descoberta é monumental e importante para a Biologia em Portugal. O conjunto é muito diverso e contém mapas, desenhos zoológicos, desenhos etnográficos e da vida doméstica. ??Os Açores são o tema principal dos desenhos e manuscritos de Francisco Arruda Furtado, que nasceu no arquipélago e trabalhou durante cerca de três anos no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, a partir de 1884. Morreu aos 33 anos, em junho de 1887, mas deixou uma produção científica significativa. ??O espólio agora descoberto vai ser mostrado ao público em Portugal continental a partir de setembro, mas já em maio o poeta português João Miguel Fernandes Jorge vai apresentar 30 desenhos inéditos de Arruda

 

Fiquei contente, claro, e agradeci efusivo aos amigos que me deram essa novidade. Um dos e-mails recebidos, porém, reproduzia a notícia do Público resumida por outro redator onde já se deturpava tudo, pois anunciava terem sido descobertas cartas trocadas entre um açoriano e Darwin. Ao remetente dessa versão da notícia, respondi que não podia ser, pois as cartas de Arruda Furtado a Darwin e as respostas do cientista inglês (cinco e quatro respetivamente) são por demais conhecidas e estão todas publicadas há muito e em vários lugares. A primeira publicação ficou a dever-se a Carlos das Neves Tavares, que em 1957 as divulgou na Revista da Faculdade de Ciências de Lisboa, (C), 5, 2: 277-306. A notícia revelava nada saber disso. Mas não liguei muito e até apaguei esses e-mails para aliviar a caixa do correio que anda a abarrotar. Nem me recordo onde essa notícia foi publicada.

No dia seguinte, recebi da amiga Elisa Costa, historiadora sempre muito interessada nos Açores e que foi, aliás, quem me deu a notícia em primeira mão enviando-me o recorte do Público, o seguinte e-mail:

 

Mandei também a informação para o nosso amigo Professor Arruda e dado que o refere a si aqui lhe re-envio a sua resposta.  

No entanto para o público em geral, falar nele e na obra até tem interesse, penso eu.

 

Um abraço,

elisa

  

 

Olá Elisa!

 

Agradeço a sua mensagem e o seu cuidado. Ouvi essas declarações feitas pela Dra. Marta Lourenço, ontem, no noticiário da meia-noite.

 

Infelizmente, hoje, as instituições e os investigadores têm de viver de propaganda como aquela que ouviu.

 

A tal gaveta nada tem de novo. Já foi vista por cerca de uma dezena de pessoas, entre eles, Carlos das Neves Tavares, que foi meu professor no Departamento de Botânica da Faculdade e que publicou a correspondência com Darwin, na sua versão original, em inglês. Depois, Germano da Fonseca Sacarrão, que foi meu professor no Departamento de Zoologia, publicou na revista Prelo, um ensaio sobre o método científico em Arruda Furtado. Também Manuel Cadafaz de Matos publicou no mesmo número desta revista, uma versão em português, daquela correspondência com Darwin. Ana Leonor Pereira, do Centro de História das Ideias da Universidade de Coimbra, também viu a gaveta e trata Arruda Furtado na sua tese de doutoramento. Frias Martins, da Universidade dos Açores, também conhece a gaveta e a ela se refere numa comunicação a um congresso sobre malacologia. Um outro malacologista de que não me recordo o nome, também lá andou e tem um artigo publicado. O nosso amigo Onésimo também lá andou e escreveu isso numa recensão que fez à minha publicação da Correspondência Científica.

 

Enfim, dizer que os textos e os desenhos são inéditos não é verdade. Dos textos, alguns são apontamentos de estudo, outros são originais de artigos publicados. Dos desenhos, alguns foram feitos para documentar artigos publicados por Arruda Furtado e neles incluídos. Obviamente, desses desenhos, foram selecionadas algumas versões. Das versões não publicadas, algumas foram usadas por mim para ilustrar alguns dos artigos que publiquei.

 

Enfim, não referir o que está publicado, nomeadamente a Correspondência Científica e a Obra Científica é muito feio. Até porque conhecem o que está publicado. Em janeiro pp, quando estive em Lisboa, a Ana Lourenço convidou-me para ver a tal gaveta e se havia lá algo que eu não conhecesse. Todo o existente era do meu conhecimento.

 

Aquela propaganda não deveria ter sido apresentada daquela maneira.

 

Desejo que tudo vá indo bem consigo e com a sua família.

 

LA

 

Em posterior troca de e-mails com o Professor Luís Arruda, que foi Professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e hoje reside na cidade da Horta, onde por sinal ultima a edição do seu livro sobre o Descobrimento Científico dos Açores, obtive dele mais este dado que retiro do seu e-mail, escrito sem a intenção de sair do privado, mas obtive dele autorização para o usar quando decidi escrever esta nota:

Sobre a localização da gaveta. Ela estava na denominada Sala F e não na Sala do Conselho como referido e também era bem conhecida da funcionária D. Pilar Pereira que começou a «arrumar» (catalogar?) todos aqueles documentos. Em janeiro pp, D. Pilar ainda andava lá pela biblioteca como voluntária. Enfim, pormenores que só nos interessam a nós para entendermos melhor a montagem que é aquela notícia.

Quer dizer, portanto, que a notícia é um bluff, naturalmente cheia de boas intenções mas nem por isso revelando menos ignorância. Deduzo, pela resposta do Professor Luís Arruda, que se trata da gaveta que eu próprio consultei há muitos anos. Na altura, procurava saber se Arruda Furtado teria chegado a escrever notas antropológicas sobre os açorianos de outras ilhas, na continuação do que fizera sobre os micaelenses. O que sobre a matéria encontrei na dita gaveta foram os manuscritos e rascunhos que levaram à publicação do seu magnífico Materiais para o Estudo Anthropologico dos Povos Açorianos. Observações sobre o povo michaelense (Edição de Autor, 1884). Aliás, o que lá vi sobre biologia, que não pensei fosse desconhecido pois estava numa gaveta que solicitei após consulta de um ficheiro, levou-me a escrever ao António Frias Martins, biólogo na Universidade dos Açores, amigo e antigo colega, a dar-lhe notícia de material importante para ele, caso não o conhecesse. Disse-me que não conhecia e ficou entusiasmado a ponto de decidir organizar um colóquio na sua universidade sobre Arruda Furtado. Antes de mim, muita gente tinha visto a gaveta, como quem se interessa pela obra de Arruda Furtado sabe muito bem. O material lá contido está todo reunido nos dois volumes da sua obra completa organizados pelo Professor Luís Arruda, para o primeiro dos quais eu até escrevi um prefácio: (2002) (Introdução, levantamento e estudo), Correspondência científica de Francisco de Arruda Furtado. Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de Cultura. O segundo volume, (2008) Obra Científica de Francisco Arruda Furtado, idem.

A eterna queixa de os livros açorianos não chegarem ao continente poderia ser uma pequena desculpa para parte da ignorância, mas neste caso da obra de Arruda Furtado a desculpa não tem qualquer hipótese de validade pois uma simples consulta na Internet dará acesso à obra do antropólogo, disponível num portal do Instituto Açoriano de Cultura: www.iac-azores.org

Haja paciência e cuidado em fazer pesquisa, coisa que vai faltando com o excesso de dados que nos invade os ecrãs.

 

Crónica
Num dia de abril recebi vários e-mails sobre o mesmo assunto: a descoberta de 500 inéditos com muitos desenhos de Arruda Furtado, o açoriano que se correspondeu com Darwin. A notícia principal saiu no Público e vem resumida assim numa versão que circula na Internet:
Arruda Furtado o bluff.doc
no
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