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rss  Vol. XVIII - Nº 307         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 16 de Julho de 2020
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Editorial

A culpa é do tempo!

Carlos de Jesus

Carlos de Jesus

Costuma-se dizer que os eleitores raramente votam por uma causa, mas contra.

Não foi o que aconteceu nas últimas eleições do Quebeque.

Os eleitores votaram realmente contra o Partido Quebequense, mas acima de tudo pela proposta de quatro anos de paz, sem referendo, que lhes propôs o Partido Liberal.

Pior, nem foi contra o P.Q. em si mesmo, embora a própria chefe Madame Pauline Marois tenha sido derrotada na sua circunscrição, mas sim contra a opção fundamental deste partido que é a sua razão de ser – fazer a independência do Quebeque.

E no entanto, à partida, tudo parecia alinhado para que ela e o seu partido ganhassem estas eleições.

É verdade que os primeiros meses de governo foram incompreensivelmente difíceis. Não obstante a grande experiência ministerial da então nova primeira-ministra, o seu governo fez as mais controversas propostas possíveis, como foram os cortes nos programas sociais, os aumentos de impostos e de taxas sobre as minas, do défice zero e aí por diante, tendo, em quase todos eles de recuar.

Com o desastre ferroviário do Lac-Mégantic, Pauline Marois passou a ganhar uma certa simpatia pública, de proximidade com o povo, ela que sempre fora considerada como demasiado pedante.

Entretanto, nas oficinas do governo pequista, o novel ministro e antigo jornalista Bernard Drainville organiza toda uma campanha à volta da chamada «Carta dos Valores Quebequenses», que mais tarde é rebatizada num nome demasiado longo para que alguém a possa nomear. Em resumo, trata-se de explorar o filão do tema identitário que tinha sido tão proveitoso ao partido da antiga Action démocratique du Québec quando Mário Dumont resolve tirar o seu partido do anonimato e propulsá-lo ao lugar de Oposição oficial nas eleições de 2007, tendo para o efeito exaltado os ardores nacionalistas do eleitorado com os chamados abusos dos imigrantes em termos de acomodamentos razoáveis.

A discussão à volta da Carta acaba por dividir a população. Os pró carta vão ao ponto de acusar os seus adversários de serem anti Quebeque. Os segundos acusam os primeiros de serem xenófobos. O certo é que várias sondagens dão um sólido apoio, do lado francófono, à dita carta e, baseada nesses reconfortantes resultados, a primeira-ministra resolve demitir o governo e chamar o povo a novas eleições sob o pretexto que, como governo minoritário tinha todos os projetos de lei bloqueados pela oposição e que precisava de obter um voto maioritário para sair do impasse e assim poder impor a carta.

Uma das mais frequentes acusações feitas ao Parti Québécois é o facto de ser um partido com poucas bases no mundo empresarial e, com os seus deputados militantes ecologistas ser mesmo contra os investimentos privados.

Como que para paliar a este défice de imagem, Madame Marois consegue trazer para a sua equipa um nome sobejamente conhecido no mundo dos negócios, Pierre Karl Péladeau (PKP), proprietário da Québecor, o maior magnate da informação do Quebeque, com os seus canais de televisão, de jornais diários, semanais, revistas, companhia de televisão por cabo e companhia de telefones.

Acontece que Péladeau não é bem visto no mundo sindical, que é a base militante do P.Q. Com os seus 14 lock-outs e despedimentos em massa, PKP sempre foi considerado um mau patrão e mesmo um mau gestor para outros, com a falência da Quebecor World. Mas, na opinião geral dos quebequenses francófonos, é considerado como um grande empresário, um exemplo de sucesso económico.

Ora, para que este novo militante fosse bem aceite pela base pequista, claramente da esquerda ou social-democrata, era preciso que a sua entrada em cena se fizesse sob a bandeira do nacionalismo independentista e foi assim que ele foi apresentado ao público, diante das câmaras de televisão com o punho no ar, como um vulgar agitador, a gritar «entro em política para fazer do Quebeque um país!».

Foi a partir daí que tudo derrapou para o PQ. Levados pela onda da profissão de fé do Tyson financeiro do Quebeque, mesmo os líderes sindicais mais militantes de esquerda, como os antigos líderes do próprio partido, saíram à rua a louvar em coro o novo recruta. A própria primeira-ministra começou a falar do novo país, do seu passaporte, das suas fronteiras e da sua moeda – que seria o dólar canadiano, indo mesmo ao ponto de falar em que o Quebeque devia ter um assento no conselho de administração do Banco do Canadá!

Se o partido Liberal, que até aí pouco tinha brandido, como é aliás seu hábito nas eleições provinciais, o lema do referendo para se atacar aos pequistas, do género «se não querem um referendo, a única alternativa é votarem liberal» – palavras do candidato Yves Bolduc na cidade de Québec – desta feita nem foi preciso insistir muito no mote porque os pequistas se encarregaram de levar a boa nova a todos os cantos da província.

Esta declaração de guerra dos independentistas foi o que incendiou a mecha anti Parti Québécois. Votar pela carta dos valores passou para segundo lugar. O mais importante era evitar que houvesse um novo referendo, custasse o que custasse. E nem foi preciso o Partido Liberal insistir muito nisso, ao contrário do que dizem agora os derrotados, de que o PLQ fez uma campanha de medo com o referendo. Aliás, o segundo partido da Oposição, a Coalition Avenir Québec (CAQ), pela voz do seu dirigente, François Legault, martelou muito mais nesse aspeto, sobretudo durante os debates televisivos, que o próprio líder liberal Philippe Couillard.

E aqui entra a grande contradição do PQ. Por um lado quer manter o primeiro artigo do seu programa eleitoral que é fazer do Quebeque um país independente, por outro não quer que se fale nisso e acusa mesmo os seus adversários de maus jogadores por lhe apontarem esse objetivo.

Com a vitória incontestável e folgada do Partido Liberal que ficou a dever-se à grande transferência de votos francófonos do P.Q. para o P.L.Q., a derrota dos pequistas foi muito mais amarga porque até ao passado dia 7 estavam convencidos e proclamaram por toda a parte que os liberais eram o partido dos ingleses e dos imigrantes. Com os resultados obtidos de apenas 26 porcento, quase todos obtidos nas zonas rurais do interior, longe dos centros urbanos como Monreal e Québec, mas sobretudo com a derrota humilhante da sua própria líder, o Parti Québécois, acordou na manhã do dia 8, como se tivesse acordado dum mau sonho.

No fim, o grande inimigo do Parti Québécois nem são os liberais, nem os caquistas, nem os seus próprios militantes e estrategas. Muito menos os símbolos religiosos, os emigrantes ou os ingleses. É o tempo. Como se tem digo e redito o projeto de fazer do Quebeque um país soberano é um velho sonho da geração dos baby-boomers.

A professora da Universidade de Montreal, Claire Durand, especialista na análise das sondagens, num dos seus blogues chamava a atenção para o facto de que em 1980, o apoio à soberania se encontrava na faixa dos menos de 35 anos. Hoje, a média de idade dos que apoiam a soberania, é de 55 anos.

Como dizia a cronista e conhecida escritora e polemista Denise Bombardier, a demografia é que nos apanhou!

Mais uma eleição e o Parti Québécois vai entrar noutra liga, como entrou o Bloco Québécois em Otava, a liga dos existencialistas. Dos que teimam em existir.

 

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