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rss  Vol. XVIII - Nº 307         Montreal, QC, Canadá - sábado, 04 de Abril de 2020
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40 anos do 25 de Abril *

Salazar, um ditador diferente dos outros

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Poucos podem negar que o 25 de Abril foi a data mais marcante no espírito do povo português, porventura dos últimos 500 anos. É possível que outros acontecimentos tenham alimentado as crónicas onde o povo se viu embarcado, como quando da chegada de Vasco da Gama a Lisboa, depois do seu extraordinário périplo pelos mares da Índia, com o incontável número de lisboetas que o vieram acolher às margens do Tejo, ou a Revolução Liberal no Porto em 1828 que procurou trazer uns ares de democracia parlamentar a que o povo tanto almejava, ou a independência do Brasil em 1822 que marcou o princípio do fim dum império colonial mas para a qual o povo nunca foi ouvido nem achado, ou a implantação da república em 1910 que esperava criar um país desenfeudado da monarquia parasita que o sugava até à medula. Acontecimentos de sobejo aconteceram durante este entretempo mas com os quais as massas populares raramente se viram envolvidas tanto como quando do 25 de Abril de 1974. Com os novos meios de comunicação do século XX, a rádio, a televisão e os jornais, o 25 de Abril chegou a todos os cantos de Portugal. Até aí, todas as revoltas eram muito localizadas, tanto geograficamente como ao nível das classes sociais. As grandes perturbações políticas que os compêndios da História de Portugal registam, raramente foram mais longe que os recintos palacianos e só pela margem e a longo prazo vieram afetar a vida direta da maioria do povo. Não esqueçamos que até ao 25 de Abril a grande maioria dos portugueses era um povo agrícola e semianalfabeto, diferenciando-se pouco, em muitas regiões do interior, quer pelos meios de produção, quer pela estrutura social, dos seus antepassados da Idade Média.

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Otelo Saraiva de Carvalho, o grande estratega militar do 25 de Abril!

Salazar, o ditador cujo regime dominou praticamente durante meio século, não foi um ditador como os outros. Embora isto custe a aceitar a certa esquerda ideológica, mesmo nos dias de hoje em que os arquivos foram esmiuçados, Salazar não foi um ditador como Mussolini, como Franco ou como Pinochet. A sua obsessão pelo poder nunca foi pelas honrarias, nem pelas riquezas, nem para beneficiar a sua família. Antes pelo contrário. Até fazia gala de pagar as suas contas de água e luz e nunca tirou os pais da miséria.

Salazar, como bom seminarista que foi, não quis o poder para privilegiar este ou aquele grupo. Serviu-se deles para atingir os seus objetivos. Acima de tudo impôs uma mão de ferro ao país, prendendo, exilando ou até fazendo desaparecer certos opositores para criar uma sociedade conforme ao seu ideário político. Uma sociedade sem classes, paternalista, sob o tema fascista de Deus, Pátria e Família. Uma sociedade que era ao mesmo tempo anticomunista e anticapitalista. Uma sociedade corporativa à imagem das corporações profissionais da Idade Média onde todos os misteres colaboram entre si e não se opondo como pretende o ideário de Karl Marx. Para evitar as lutas de classes, intimamente ligadas ao desenvolvimento industrial, recusou o progresso tecnológico, reduziu os anos de ensino primário, sob o pretexto que o cidadão quanto mais sabe mais infeliz é. Quis, até ao limite do suportável, manter o antigo império colonial, como uma obra de civilização e evangelização.

Lidou com mão de mestre – mesmo os opositores lho reconhecem – a delicada neutralidade de Portugal durante a última Grande Guerra, quando o país foi várias vezes ameaçado de ser invadido, tanto pelos alemães como pelos espanhóis, ou de perder os Açores às mãos dos Aliados. Foi graças à sua hábil diplomacia, quando ocupou as pastas de ministro dos Negócios Estrangeiros e, das Finanças e do Interior concomitantemente com a de primeiro-ministro, que Portugal tirou o maior proveito económico da guerra, graças ao volfrâmio que ele ajudou a vender a uns e a outros.

A gestão deste episódio da história portuguesa serviu-lhe de caução moral e política junto de grandes setores da população portuguesa para que ele pudesse ignorar completamente a modernidade que exigia uma transição para a democracia.

No final da sua governança o povo português estava pobre e esfomeado, mas o Banco de Portugal estava a abarrotar de barras de ouro.

Foram precisas as guerras coloniais com milhares de estropiados e mais de um milhão de expatriados pelo mundo fora para que o sistema salazarista começasse a abrir brechas. Entre elas o estrondo do livro do General Spínola «Portugal e o Futuro».

As repetidas missões dos oficiais de carreira, aliadas ao contacto com os oficiais milicianos, mais politizados e mais críticos do regime, levaram os primeiros a realizar que a guerra colonial estava num beco sem saída. Em julho de 1973 realiza-se no Porto o Congresso dos Combatentes no Ultramar. Em novembro do mesmo ano, entre os oficiais do quadro, começa a falar-se à boca pequena no derrube do regime como única alternativa possível. Em dezembro os capitães mais ativistas criam o MOFA (Movimento dos oficiais das forças armadas) e elegem uma comissão composta por Vasco Lourenço, Salgueiro Maia e Otelo Saraiva de Carvalho com a função de preparar uma ação militar contra o estado. Das reuniões secretas nasce a ideia de fazer correr o boato que estavam a preparar um golpe militar par o 1º de Maio de 1974, como querendo tirar proveito dos habituais confrontos do dia dos trabalhadores com a polícia, isto de modo a poderem fazer um golpe antes daquela data e assim apanharem o regime desprevenido. Daí nasce o golpe de 16 de março daquele ano no Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha, o qual, com cerca de 200 homens entre praças, sargentos e oficiais, e sofrendo de má preparação e mau planeamento acaba em falhanço. A 3 quilómetros de Lisboa souberam que estavam sozinhos e voltaram para trás, vindo todos a ser detidos e os oficiais enviados para a Trafaria.

Finalmente, com mais preparação e sabendo que o seu nome constava duma lista da PIDE como alvo do movimento dos revoltosos militares, Otelo Saraiva de Carvalho, acaba por organizar o golpe no dia 25 de abril, apanhando mesmo assim de surpresa a polícia política que aguardava uma revolta nos quartéis para o dia 1 de maio daquele ano.

O resto já todos, mesmo os que nasceram depois do 25 de Abril, sabem como se passou. Os militares acabaram por levar avante o seu plano e a democracia, facto inédito na história, foi imposta em Portugal por um golpe militar, faz agora no próximo dia 25, 40 anos.

*Embora este artigo tenha sido escrito segundo o novo acordo ortográfico, mantive o Abril com maiúscula por me referir a uma data importante. Segundo o novo AO os nomes dos meses são sempre em minúscula. É por isso que o 16 e 25 de abril, que no texto se referem a datas, estão em minúsculas. Esta é a minha pequena homenagem aos homens do 25 de Abril.

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