logo
rss  Vol. XVIII - Nº 306         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

«Deixa estar que eu vou botar todos vocês no meu livro»

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

«Quando estou na cidade tenho a impressão que estou

na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes

de viludo, almofadas de sitim. E quando estou na favela

tenho a impressão que sou um objeto fora de uso,

digno de estar num quarto de despejo».

Carolina de Jesus (1914-2014)

Anoitece na praia da Jaguaruna. Aos poucos a praia «fecha" – como uma revoada de pássaros as famílias partem. Resta o silêncio quebrado pelo canto do mar, o sibilar do vento e o bailado das aves migratórias – agora donas absolutas da praia. Recolho a rede pendurada na varanda enquanto o meu olhar lavado se perde na imensidão líquida, impetuosa, nas ondas rendilhadas que beijam a areia numa singular coreografia coadjuvada por centenas de garças brancas flanando suaves e bandos de quero-quero bicando a sobrevivência. Curvo-me ante a beleza desse momento infinito com o mesmo sentimento de encantamento que inspirou o ilhéu Othon d’Eça (1892-1965), há sessenta e cinco anos atrás, ao escrever a crônica «Jaguaruna» em 1949 curvado ante a beleza desse infinito momento. «Multidões de pequenos pássaros cor de cinza levantam o voo, espalham-se, e logo se juntam; sobem e descem em leque, sobre o mar, dando a impressão de grandes tarrafas; depois, levadas pelo vento, tomam rumo sul e se perdem entre as altas névoas frementes...»

DEIXA ESTAR FOTO-CAROLINA-MARIA1.jpg

Recordo Elis Regina a cantar que «são as águas de março fechando o verão/ é a promessa de vida no teu coração», versos de Águas de Março, criação de Tom Jobim.

O carnaval ficou para trás, mas eu continuo com o coração fantasiado de alegria, na maior emoção pela vitória da Escola de Samba Os Protegidos da Princesa, de Florianópolis que fez brilhar na passarela Nêgo Quirido a arte e a vida do artista Willy Alfredo Zumblick, com o enredo «Divino Zumblick» – «Se foi você quem pintou o colorido/Sou imperador-menino num cortejo divinal/E o povo como se fosse uma aquarela/Desce o morro e faz da passarela a obra viva de um artista genial [...]». É lindo e estou muito orgulhosa como tubaronense e como autora do livro que foi uma das fontes referenciais na criação do enredo campeão.

No Carnaval o Brasil literalmente para. Tudo fica para depois da quarta-feira de cinzas. Na verdade, para muitos brasileiros, a primeira segunda-feira após o Carnaval é de fato o primeiro dia útil do ano. Sei bem o que é isso. Os meus dias passados na praia são de puro deleite, recesso total, para curtir o marzão e renovar as energias. Aproveito para fazer o que me dá prazer sem a obrigação profissional, para botar a leitura em dia e retomar algumas delas que jaziam em «banho-maria», quase perdidas. Ao regressar à Florianópolis e ao corre-corre diário deparo-me com uma agenda tão congestionada quanto o trânsito caótico da Ilha – palestrar na Associação Coral de Florianópolis sobre o contributo da diáspora açoriana em Santa Catarina, reuniões do Conselho Estadual de Cultura, da Comissão Editorial do «100 Cópias sem Custo», da Academia Catarinense de Letras com o tradicional «Chá das Cinco» e por aí vai... Espio o Calendário pintado de vermelho para não esquecer nada, nem as datas memoráveis como o aniversário de 70 anos do escritor açoriano e saudoso amigo Daniel de Sá a 2 de março, os 150 anos de Lauro Muller, patrono da cadeira 26 da ACL e o único catarinense a pertencer à Academia Brasileira de Letras, no dia 8, os 116 anos do poeta Cruz e Sousa e o centenário de nascimento da escritora Carolina Maria de Jesus, no dia 14 de março.

Como não homenagear a mulher negra, altiva, lenço amarrado na cabeça, maços de folhas de papel escritas abraçados junto ao corpo esguio, o embrião do que seria seu primeiro livro «Quarto de Despejo. Diário de uma favelada», publicado em 1960 pela Editora Francisco Alves, do Rio de Janeiro? Ou, ainda, lembrar dos fragmentos do diário daquela humilde catadora de papel que a revista «O Cruzeiro» apresentava para todo o Brasil, em 1959, contando que ela escrevia obstinadamente como forma de escapar da realidade madrasta.

Carolina Maria de Jesus, registrou em vinte cadernos recolhidos do lixo o que ouviu, presenciou, sentiu na carne, vivenciou na condição de mulher negra, migrante, mãe solteira e favelada. Cada linha, cada palavra mal desenhada, na caligrafia simples de quem frequentou até o segundo ano primário, refletia o universo de uma Literatura Marginalizada por estereótipos sociais e sexuais da sociedade dos anos sessenta. Naquela década, marcada por tantas mudanças culturais e políticas, até a mulher branca nascida em berço de renda, criada entre almofadas de cetim na «sala de visita das cidades» tinha dificuldade de se realizar no mundo masculino das letras. Basta lembrar que o ingresso da primeira mulher na Academia Brasileira de Letras ocorreu em 1977 quando Rachel de Queiroz rompeu o cerco da segregação literária que imperava na centenária Casa de Machado de Assis – ela que era a mais festejada cronista brasileira e que por trinta anos assinou a última página da revista O Cruzeiro.

Descoberta por acaso, em 1958, pelo jornalista Audálio Dantas quando fazia uma reportagem sobre a vida miserável dos favelados do Canindé e foi surpreendido com os gritos de uma mulher que ameaçava seus vizinhos: «Deixa estar que eu vou botar todos vocês no meu livro». Na reportagem para a revista O Cruzeiro que teve imensa repercussão, Adálio Dantas, expôs num realismo brutal a história de vida de Carolina e de seu diário parido na favela – o quarto de despejo.

Carolina Maria de Jesus, 49 anos, mineira de Sacramento onde viveu até emigrar para São Paulo, no ano de 1937, num piscar de olhos, virou um fenômeno editorial. Em quatro edições desaguaram cerca de 100 000 exemplares. Seu vagido se ouviu por toda a parte, sendo traduzida para treze idiomas e lida em mais de cinquenta países. O livro virou um best-seller. Carolina virou uma estrela. Revolucionou o mundo das letras, conquistou escritores como Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Jorge Amado.

«Quarto de Despejo» não é um simples diário. Abraça o ser e a vida. Respira o lugar, documenta, faz sociologia, interpreta sentimentos. Nas entranhas do diário iniciado em 1955, o autorretrato da miséria humana expresso na cultura da escrita simples, na extraordinária narrativa da denúncia, forte, construída na primeira pessoa por alguém que é criador e criatura a imergir-se no cerne da marginalidade social. Narradora e protagonista, viventes de um mesmo cenário: «A minha (vida), até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.» Ali onde se escondia o lixo urbano se desvendava a alma da escritora e mulher. Nada mais verdadeiro, afinal a «literatura é usada para ver a alma» já dizia o romancista irlandês Bernard Shaw (1856-1950).

Infelizmente, a glória da escritora foi efêmera e o sucesso literário que a consagrou não voltou a se repetir. Depois da fama do Quarto de Desejo publicou «Casa de Alvenaria-Diário de uma ex-favelada» (1961), o romance Pedaços da Fome e o livro Provérbios, ambos em 1963 e as publicações póstumas o Diário de Bitita (Paris, 1982 e Sacramento, 2007); Um Brasil para Brasileiros (1982); Meu Estranho Diário e Antologia Pessoal, poemas (1996).

Carolina aos poucos foi relegada ao esquecimento. Preconceito? Não-aceitação da sua obra? Os dois. Alguns críticos apontavam controvérsias. Outros, não reconheciam na sua narrativa ou no texto poético o seu «Eu Negro» identitário, seu sentido de pertença. Morreu pobre e quase anónima em fevereiro de 1977, na chácara Coração de Jesus, em Parelheiros, na periferia de São Paulo.

Nos anos noventa, a publicação de Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus (1994, UFRJ) da autoria dos estudiosos José Carlos Sebe Bom Meihy (brasileiro) e Robert Levine (norte-americano) reavivou o interesse por sua obra e trouxe à luz mais 37 cadernos com poemas, contos, romances, peças de teatro, memórias. Um acervo que não deixa dúvida quanto à grandeza da obra da mulher negra que um dia sonhou ser escritora.

Mesmo agora, quando se comemora o seu Centenário de Nascimento, ela continua desconhecida do grande público e, sobretudo, das novas gerações. Embora, alguns eventos estão acontecendo no Brasil e no exterior onde ela é lida e admirada. A propósito, a Doutora Maria Coutinho, da Faculdade de Letras de Lisboa, me dá notícias da celebração do Centenário de Carolina de Jesus na Casa do Brasil em Lisboa e pela Associação Internacional de Paremiologia no 8º. Colóquio Internacional de Provérbios em Tavira, Algarve.

Carolina Maria de Jesus é merecedora de todas as homenagens por sua escrita corajosa, de inegável valor na representação de um Brasil invisível, marginal.

«Quarto de Despejo. Diário de uma favelada» transformou a vida da Carolina, provocou uma rotura na sua trajetória migrante, mudou seu destino. Teria mudado a sua sorte?

3

Crónica
«Quando estou na cidade tenho a impressão que estou
Deixa estar CAROLINA.doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020