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rss  Vol. XVIII - Nº 306         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 31 de Março de 2020
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A fatura bomba-relógio

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Falar de pobreza nos Açores é assunto quase tabu.

Está fora da agenda dos políticos, que preferem encher a boca com «riqueza», «crescimento», «desenvolvimento harmónico», e outras tretas.

Confinados a uma espécie de gueto, os pobres deste país e desta região são encarados como um peso social que só traz complicações à engrenagem eleitoral.

Não admira, portanto, que os números divulgados na última semana pelo INE sobre a pobreza em Portugal tenham causado algum embaraço aos políticos instalados.

Em resumo, ficou-se a saber que o número de pobres aumentou de forma arrasadora em 2012, que a faixa etária dos mais novos e em idade ativa é severamente atingida e que quase metade da população do nosso país estaria na miséria absoluta se não fosse abrangida pela rede social do Estado.

É o começo da fatura que tantas gerações vão ter de pagar pelas asneiras de uma classe política inconsciente.

O retrato da pobreza nos Açores não deve andar muito longe do nacional.

Não fosse o forte dispositivo de apoio social que grassa em todas as ilhas – o voluntário e o oficial – e teríamos uma região inteira literalmente a pão e água.

Se na década passada já se dizia que um quarto da população açoriana vivia no limiar da pobreza, imagine-se agora.

Mais de 50 mil açorianos a viverem com menos de 400 euros significa que 1 em cada 5 açorianos vive recheado de privações.

Tudo isto somado a 20 mil desempregados, a outros tantos no rendimento social de inserção, a mais de três dezenas de casas entregues à banca, por ano, por incumprimento nas prestações, acrescentando-se a outros recordes, como o maior número de analfabetos do país, maior número de consumidores de álcool, maior número de casos de violência doméstica, maior número de casos de abuso sexual, maior número de casos de gravidez precoce, maior número de mortalidade infantil, e aqui temos uma verdadeira bomba-relógio social com consequências imprevisíveis.

Como diz o sociólogo Fernando Diogo, da Universidade dos Açores, o problema da pobreza nos Açores não está na exclusão social, mas sim associada aos baixos rendimentos, ao alcoolismo e às baixas qualificações escolares.

Temos 160 mil açorianos apenas com o 3º ciclo do ensino básico, 25 mil com o ensino secundário e apenas 14 mil com o ensino superior. É muito pouco para uma região que pretende dar o salto da qualificação.

Segundo o INE, quem aufere pouco mais de 400 euros por mês enfrenta o risco de pobreza, valor que ganha uma dimensão muito mais preocupante nos Açores, porquanto o custo de vida nas ilhas é maior e, nalguns casos, é incompreensivelmente mais caro, como o setor alimentar e do vestuário, mesmo com o IVA mais barato do que no continente.

Por este andar, vamos chegar ao dia em que o bolo do orçamento regional nem chegará para acudir a todas as famílias açorianas, quanto mais para investir em setores produtivos.

Problema maior, nestes últimos anos, é a pobreza envergonhada, que se vai alastrando por famílias inteiras, numa espécie de dependência endémica, incluindo a chamada pobreza cíclica, em que muitos beneficiários de apoios sociais estão ligados a famílias que há muitos anos também beneficiam.

Ou seja, uma espécie de bola de neve, mitigada pelo apoio da vizinhança ou das redes de voluntários que aparecem como cogumelos nos meios rurais, mais ou menos anónimos, com a distribuição de sopas, produtos alimentares e vestuário.

E se olharmos bem para a frente, com o crescente desemprego entre os jovens, não sei onde vamos parar.

É que estamos a deixar para as gerações futuras problemas complicados que elas não terão capacidade para resolver, desde logo o peso do endividamento crescente, para cobrir apenas problemas do presente.

Sem crescimento, sem emprego, sem crédito, como é que os jovens de amanhã vão sobreviver?

Tudo devido a políticas erradas e ambições desmesuradas.

E a uma classe política incompetente e irresponsável, que se vai governando com despesas de representação e senhas de presença.

A fatura será pesadíssima.

Crónica
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