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rss  Vol. XVIII - Nº 305         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2020
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Os telómeros dos partidos

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Acabo de aprender que as células humanas têm uma capacidade incrível de se reproduzirem e as que se reproduzem chegam a um ponto em que perdem a capacidade de voltarem a reproduzir-se.

Os cientistas chamam a esta parte final dos cromossomas, os telómeros.

É com base nestes estudos da genética que tentam descobrir a vacina para o cancro.

Ora, os partidos políticos andam à procura da mesma cura, tentando regenerar-se – chamando-lhe «renovação» –, num combate contra a fossilização da militância.

Houve uma altura, sobretudo no período do PREC (Processo Revolucionário Em Curso), em que os partidos se reproduziam com a avalanche de adesões. Vivia-se na ilusão da virgindade política.

A efervescência foi perdendo gás e, hoje, a maioria das forças políticas apresentam quase sempre as mesmas caras, os tais telómeros sem capacidade de reprodução.

É por isso que o processo de renovação partidária se torna cada vez mais difícil, restando aos seus dirigentes recrutar na sociedade civil colaboradores que desejam manter-se como «independentes».

Esta atitude, dos novos eleitos, em quererem manter-se longe das regras castrantes e ardilosas dos partidos, dos rótulos de «yes man», enfraquecem as estruturas da organização e deveriam ser motivo de alerta para os seus responsáveis.

O cenário agrava-se quando as forças políticas, chegadas ao poder, recorrem apenas aos seus telómeros, sem olhar ao mérito ou talento, fechando-se ao compromisso da renovação e dando a entender que as cadeiras do poder são lugares exclusivamente destinados aos que estão ao lado do líder.

Esta cultura de obediência e clientelista é que tornou a nossa política a coisa mais enfadonha deste novo século e que ninguém leva a sério. Internamente, agem com mentalidade maçónica: um dos nossos perdeu as eleições? Foi rejeitado pelos eleitores? Vamos já arranjar um tacho público para compensá-lo...

A política honesta, a política da reflexão e do debate, a política da aceitação de outras ideias, a política da humildade, a política da independência de se pensar por si próprio, a política da verdade – toda essa política esfumou-se nestes últimos anos, dando lugar à cultura da dependência, da incompetência e da negligência.

É por isso que toda a gente fica surpreendida quando um partido reforça os seus lugares elegíveis com os tais «independentes», com gente fora do sistema, com base no seu mérito e valor.

Ou seja, o que deveria ser uma atitude normal, torna-se, nos dias de hoje, uma anormalidade nas rotinas dos partidos.

Foi o que aconteceu, nos últimos dias, com a indicação de Sofia Ribeiro para candidata do PSD-Açores nas listas às europeias, causando surpresa cá fora e a incredulidade lá dentro, entre os militantes telómeros.

Outro hábito, muito frequente, é quando os partidos se apoderam das grandes decisões que envolvem os cidadãos, sem os consultar, sem os chamar ao debate e ignorando o contributo de novas ideias.

Este afastamento da sociedade só descredibiliza a política e a governação.

Nestes últimos anos, por exemplo, o poder nos Açores deu-se ao luxo de prometer grandes obras em cada uma das ilhas, que depois não cumpriu.

É uma coleção de incumprimentos que deveria preocupar os responsáveis partidários.

A desistência do cais de cruzeiros em Angra não é original.

Houve muitas bandeiras eleitorais por estas ilhas fora que acabaram em nada: a construção da maternidade no Pico, o campo de golfe em Santa Maria, a cobertura do Estádio de S. Miguel, o falhanço das Ilhas de Coesão... e por aí adiante.

Estes sinais são pouco dignificantes para a política e para os políticos.

Como é que os cidadãos vão saber, doravante, que os políticos estão a falar a verdade? Como confiar em promessas que depois não sabemos se vão ser cumpridas, a julgar pelo histórico destes anos?

Pior é quando os partidos se fecham ao espírito crítico dos seus próprios militantes.

Podia dar o exemplo da aselhice parlamentar à volta da história dos professores contratados. Mas prefiro o caso concreto de um deputado do partido do governo, que pensa pela sua própria cabeça, autoridade na matéria que versa, que levantou uma série de dúvidas preocupantes acerca do concurso para a construção de dois navios de passageiros.

O seu partido (e governo)... deixou-o a falar sozinho!

Como se nada se passasse. Como se não tivéssemos, nós cidadãos, direito aos esclarecimentos públicos, às contas certas, à transparência e ao exercício salutar de um debate público sobre a forma como são decididos estes investimentos com o dinheiro dos contribuintes.

É por isso que toda a gente foge dos partidos.

Porque foram eles que criaram, sem saber, esta repulsa.

E isto não é nada bom para um país e região que completam 40 anos de liberdade.

Crónica
Acabo de aprender que as células humanas têm uma capacidade incrível de se reproduzirem e as que se reproduzem chegam a um ponto em que perdem a capacidade de voltarem a reproduzir-se.
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