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rss  Vol. XVIII - Nº 305         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2020
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Editorial

Mário Soares

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Santos de casa não fazem milagres, diz o ditado e é bem verdade. Foi preciso virem os jornalistas estrangeiros, acreditados em Portugal, atribuir o «Prémio Personalidade do Ano da imprensa estrangeira» ao Dr. Mário Soares para que finalmente alguém se lembre de salientar a craveira daquele que foi e continua a ser um grande homem de estado, um militante incansável pela justiça social e uma voz de revolta contra o saque do estado português por meia dúzia de caciques vendidos ao neoliberalismo.

Compreende-se que haja muita gente que não goste do Dr. Mário Soares pelas mais variadas razões. Uns porque são de direita e nunca verão com bons olhos um socialista, por mais mérito que ele tenha, faça ele o que fizer. Outros são de esquerda e não perdoam que um socialista lhes faça frente. É o que se chama fobia ideológica, a doença dos «ismos», uma pecha de que, infelizmente, nenhum partido está livre.

Temos depois contra ele quase todas as vítimas da caótica descolonização africana que se seguiu ao 25 de Abril e que encontraram na figura do Dr. Mário Soares o bode expiatório para todos os males que lhes aconteceram. A quem sofre na pele é compreensível que pense mais com as tripas do que com a cabeça. Mas é preciso olhar para o contexto da época, e sobretudo não esquecer a responsabilidade que coube ao Partido Comunista pela forma como ateou o processo, levando assim a cabo uma estratégia muito mais ampla do que eles deixavam adivinhar. Atribuir o falhanço da descolonização e todo o descalabro que se seguiu à Revolução dos Cravos ao Dr. Mário Soares é não ter em conta que a descolonização, por um lado, era historicamente inevitável, humanamente justa, e reparo necessário aos atropelos que em nome do país se cometeram em África e, por outro lado, a possessão de colónias era (e é) totalmente incompatível com um regime democrático digno desse nome. Hoje, quase 40 anos passados sobre aqueles acontecimentos e visto a abertura que as antigas colónias estão a fazer aos jovens portugueses de hoje, podemos concluir que no fim nem tudo correu mal.

Naquele contexto do imediato pós 25 de Abril, com um Partido Comunista de índole estalinista, enfeudado à esfera soviética, e ansioso para instalar uma república de estilo cubano naquele canto da Europa, os comunistas tudo fizeram para ajudar os seus «irmãos de armas» dos movimentos independentistas africanos como naturais aliados para os desígnios a que se tinham proposto, o de fazer de Portugal e das antigas colónias, com o auxilio estratégico, económico e militar dos soviéticos, um novo mundo satélite de Moscovo.

Foi aliás graças à sua luta infatigável pela democracia em Portugal, que o Dr. Mário Soares conseguiu libertar o país das tentações ditatoriais da esquerda soviética e isto, depois de ter, numa primeira fase, dado a mão ao Dr. Álvaro Cunhal e a todos os antifascistas que, imediatamente, ignorando a nobreza do gesto, se quiseram impor em senhores da terra, ocuparam de facto todas as oficinas do poder, e tentaram arredar toda a oposição democrática, com o apoio dos ingénuos úteis do Movimento das Forças Armadas.

O que ninguém pode ignorar, e a História o confirmará, é que a luta do líder socialista contra a ditadura do regime de Salazar — que o levou à prisão e ao exílio — e a sua incansável batalha para impor um regime democrático em Portugal — contra ventos e marés, da direita e da esquerda — foi sempre a constante da sua vida, até ao ponto de hoje, não obstante a sua idade avançada, continuar a militar pelos seus ideais. Foi aliás a constância deste combate que foi realçada, no momento da entrega do prémio, pelo presidente da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP), Belén Rodrigo, quando afirmou «Os correspondente quiseram premiar Mário Soares por ser uma das vozes mais ativas no seu país, com uma grande repercussão no estrangeiro. Ante a dificuldade dos portugueses, Soares não se tem calado».

Seja como for, este prémio, vindo dos correspondentes estrangeiros em Portugal, tem um significado que transcende as linhas partidárias, já que ninguém, de boa-fé, pode atribuir intenções escondidas ao júri do prémio, composto de jornalistas dos mais variados países, os quais logicamente não têm qualquer interesse partidário na escolha feita.

Ora, não obstante a patente ausência de partidarismo nesta escolha, acontece que na cerimónia da entrega dos prémios, na sala dos espelhos do Palácio Foz, brilharam pela sua total ausência os representantes dos outros partidos, mas sobretudo, o facto de também nenhum membro do governo ou da presidência da república se ter feito representar. Estiveram no entanto presentes, para além dos ex-líderes do Partido Socialista, o antigo presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, alguns embaixadores estrangeiros e a maioria do corpo de correspondentes estrangeiros em Lisboa.

A deselegância deste gesto por parte dos atuais dirigentes políticos portugueses, tanto à sua direita como à sua esquerda, revela, perante a imprensa estrangeira — o mesmo é dizer perante o resto do mundo — que Portugal é governado por gente sem classe, gente mais parecida com figurantes de partidos de opereta, francamente comparáveis aos prepotentes caciques das repúblicas das bananas, do que a dirigentes dum estado de direito, civilizado e democrático onde o fair play é a norma.

Mas não nos devemos surpreender. Quando os atuais dirigentes não passam de sargentos tarimbeiros que grimparam na escala social, sem preparação, nem instrução, com diplomas comprado na Internet ou assinados por universidades de vão de escada, propulsados para as luzes da ribalta pelos apaniguados das suas alas da juventude — os famosos betinhos das jotas — é este o resultado que dá.

Costuma-se dizer que cada país tem os governantes que merece. Mas, francamente, no caso português, um povo historicamente tão martirizado, espezinhado, vilipendiado e explorado pelas suas autoproclamadas elites, já devia ter ganho o direito de merecer viver, neste século XXI, numa sociedade civilizada, mais justa, mais igualitária. Quanto Mários Soares serão ainda precisos para que esse dia chegue finalmente?

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Santos de casa não fazem milagres, diz o ditado e é bem verdade. Foi preciso virem os jornalistas estrangeiros, acreditados em Portugal, atribuir o «Prémio Personalidade do Ano da imprensa estrangeira» ao Dr. Mário Soares para que finalmente alguém se lembre de salientar a craveira daquele que foi e continua a ser um grande homem de estado, um militante incansável pela justiça social e uma voz de revolta contra o saque do estado português por meia dúzia de caciques vendidos ao neoliberalismo.
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