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rss  Vol. XVIII - Nº 304         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 26 de Maio de 2020
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Também colaboradora do LusoPresse...

Lélia Pereira Nunes, uma catarinense-açoriana

Inês Faro

Entrevista de Inês Faro

Através do skype, podemos ver e ouvir em tempo real alguém de outro hemisfério. Infelizmente, a tecnologia ainda não nos permite trocar cheiros nem sabores. Se fosse possível, tenho a certeza que a chamada para o Brasil cheiraria a mar. Do lado de cá ainda neva e o dia está particularmente ventoso e frio. Do lado de lá estão 37km de areal e mar e o eco de uns festejos que anunciam o fim do carnaval. Lélia Pereira Nunes nasceu em Tubarão, Ilha de Santa Catarina, e vive em Florianópolis a maior parte do ano, mas é na Praia do Arroio Corrente, Jaguaruna – uma comunidade formada por açorianos no século 18, onde estão guardadas algumas das melhores memórias de três gerações da sua família.

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Ao ser entronizada na Academia de Letras do Estado de Santa Catarina, Lélia Pereira da Silva Nunes recebe o respetivo colar

Entre uns olás a quem passa, esta filha de pais açorianos, conta-me que cresceu sem ouvir falar dos Açores. Durante alguns anos tão pouco fazia a distinção dos seus legados açoriano e santa catarinense. Foi já em adulta que percebeu que quem era resultava da confluência dessas duas realidades. As manifestações culturais – as festas do Espírito Santo; as celebrações do Senhor dos Passos; o Entrudo do Carnaval e o culto aos mortos, entre outras, que sempre lhe foram familiares tinham com certeza uma origem. No início dos anos 80 ainda havia pouca informação sobre a influência açoriana na ilha de Santa Catarina. Lélia Pereira Nunes, então já formada em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, propõe que se investigue a fundo o patrimônio imaterial Catarinense. E o que poderia ter sido uma curiosidade pessoal, acabou por determinar toda a sua vida e a história do Estado de Santa Catarina.

Durante mais de 40 anos investigou, estudou, escreveu, rescreveu, ensinou, viajou e conheceu em profundidade as manifestações culturais das dez ilhas do seu coração. Para poder fazer o mapeamento cultural da Ilha de Santa Catarina, teve que compreender também a vivência das festas e as diferenças no culto do Espírito do Santo nas noves ilhas dos Açores. A sua implicação foi determinante para o dinamizar o diálogo cultural entre o arquipélago açoriano e Santa Catarina. A ponte espiritual e cultural já tinha sido feita com a presença dos primeiros imigrantes açorianos no sul do Brasil desde o século 18, agora era preciso estabelecer pontes académicas e políticas. Florianópolis e Ponta-Delgada passaram a ser «cidades-irmãs» e o intercâmbio entre as universidades das duas regiões passou a ser cada vez mais profícuo. Uma aproximação para que vários nomes conhecidos dos Açores também contribuíram. Com Lélia Pereira Nunes estiveram Machado Pires, Urbano Bettencourt, entre muitos outros, de quem a socióloga ressalva o contributo determinante de Alzira Serpa Silva, antiga Diretora Regional das Comunidades na criação de laços fortes entre as duas comunidades.

Lelia Nunes foto 2.JPG
Lelia Nunes

Embora hoje em dia as relações académicas se tenham dissipado, a presença açoriana está mais visível do que nunca em Santa Catarina. A diferença de hoje com a paisagem de há 30 ou 40 anos atrás é que hoje se conhecem as origens das manifestações culturais e se conseguem identificar os traços açorianos (a par com as também fortes influências italianas e alemãs naquela região do país) na identidade cultural dos catarinenses. «Podemos encontrar massa açoriana, cachorro-quente açoriano, o Hotel açoriano, etc. Na vida do dia-a-dia é fortemente presente a reinvenção de tradição açoriana», conta a escritora.

Academia Catarinense de Letras, Cadeira 26

Quando lhe perguntei como deveria apresentá-la, Lélia Pereira Nunes riu-se. «Gosto de escrever, vou deambulando, pensando, gosto de contar histórias, de buscar o processo da memória. A minha preocupação é que se perca a memória cultural das pessoas. Estou muito interessada no registo da memória», diz-me. «O Onésimo [Teotónio Almeida] diz que o meu género é uma prosa que vai do ensaio à crónica, passando pela visão da memória. Acho que é uma boa definição», conclui.

É professora aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina. É Conselheira do Conselho Estadual de Santa Catarina, é Sócia Emérita do IHGSC – Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, é Conselheira titular do Conselho Superior da Comissão Nacional de Folclore, Região Sul, entre muitas outras instituições que ocupam os seus dias. Publicou livros sozinha e como coautora, escreve crónicas e ensaios de forma regular para várias publicações – incluindo o LusoPresse; e está sempre envolvida em diferentes projetos culturais.

Em novembro do ano passado viu o seu contributo literário de mais de 30 anos ser reconhecido. A escritora Lélia Pereira Nunes assumiu – de forma vitalícia, a cadeira 26 da Academia Catarinense de Letras (ACL). Uma academia com cerca de 100 anos dedicada à produção literária e à congregação de escritores excepcionais de Santa Catarina. A entrada de Lélia Pereira Nunes foi também um marco histórico. Em 26 anos Lélia Pereira Nunes foi a primeira mulher a entrar na ACL.

Agora com assento na Academia, a escritora pretende continuar a lutar pelo que sempre acreditou: a difusão da produção literária catarinense e o incentivo à leitura. «Acho muito importante que o escritor tenha espaço para divulgar o seu trabalho, que ele possa ter uma voz e que ele possa contribuir para a formação do público», diz. «O meu contributo vai ser a elaboração de projetos, de intercâmbios entre as várias instituições literárias e entre as academias do país; e, claro, alimentar as vozes criativas entre as pessoas de Santa Catarina e dos Açores», conclui.

Depois de ter cumprido um sonho, o de entrar na Academia Catarinense de Letras, Lélia Pereira Nunes quer cumprir outros. Para já tem planeada a publicação de mais um livro, Pedra de Toque, e outro, o resultado de muitos anos de trabalho, «Açores, Ilhas de Espírito Santo», um projeto que diz, já deveria ter sido feito. Neste livro a escritora vai registar as diferentes manifestações da celebração do Espírito Santo nas várias ilhas – a que assistiu ao longo dos últimos 20 anos, uma investigação para a qual já reuniu mais de 2000 fotografias.

«Ai, Inês, eu falo muito, não é?», perguntou-me do outro lado do skype. «Sabe, eu falo pelos cotovelos, e escrevo pelos cotovelos!», diz a rir-se. Depois da entrevista, a conversa continuou animada e descontraída. O skype lá está, não faz milagres, mas já permite distinguir as pessoas bem-dispostas das não tão bem-dispostas. As palavras da Lélia são habitadas por uma alegria terceirense, característica que a escritora atribui ao ADN dos catarinenses. Ficou a promessa de nos conhecermos um dia. Desliguei o computador e fui à janela ver a neve que caía neste início de março. Mas, mesmo a um hemisfério de distância, foi o cheiro a maresia que me acompanhou durante esta tarde de trabalho.

Pode ler o discurso de Lélia Pereira Nunes aquando a posse na Academia Catarinense de Letras aqui: lusopresse.com

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Entrevista
Através do skype, podemos ver e ouvir em tempo real alguém de outro hemisfério. Infelizmente, a tecnologia ainda não nos permite trocar cheiros nem sabores. Se fosse possível, tenho a certeza que a chamada para o Brasil cheiraria a mar. Do lado de cá ainda neva e o dia está particularmente ventoso e frio. Do lado de lá estão 37km de areal e mar e o eco de uns festejos que anunciam o fim do carnaval. Lélia Pereira Nunes nasceu em Tubarão, Ilha de Santa Catarina, e vive em Florianópolis a maior parte do ano, mas é na Praia do Arroio Corrente, Jaguaruna – uma comunidade formada por açorianos no século 18, onde estão guardadas algumas das melhores memórias de três gerações da sua família.
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