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rss  Vol. XVIII - Nº 304         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 07 de Julho de 2020
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Nem tudo na rede é peixe

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Circula há alguns anos na NET a frase Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão, atribuída a Eça de Queirós. Porque já a conhecia em inglês, e habituado que estou a encontrar traduções e adaptações semelhantes apresentadas como originalmente lusas, acreditei tratar-se de mais um exemplo. A minha outra razão era intuitiva: aquele humor não me parecia eciano. Independentemente, claro, do meu avultado respeito pelo nosso mestre da ironia.

Há pouco tempo, esse «apócrifo» de Eça surgiu-me de novo no ecrã e resolvi-me a um tira-teimas. Emailei A. Campos Matos, senhor de tu-cá tu-lá com os textos queirosianos. A resposta veio célere e perentória: Tal como a conhecida história da carta ao diretor da Companhia das Águas a perguntar Que posso eu cortar a V. Ex.cia se V. Ex.cia me cortar a água?, essa frase não vem em qualquer livro de Eça. É uma falsa atribuição. E, de seguida, em PS: A carta ao diretor da Companhia das Águas é da ramalhal figura.

A frase passou a circular na Internet sobretudo depois do aparecimento do filme Man of the Year, de 2006, em que Robin Williams, no papel de Tom Dobbs, figura decalcada em vários talk-show hosts norte-americanos, a repete, supostamente citando Benjamin Frankin.

Estes casos abundam. Gabriel Garcia Marquez farta-se de repetir que não é autor de uma famosa carta a despedir-se da vida, em circulação há anos na Internet, na qual o romancista, declarando-se una marioneta de trapo, se retrata de profundas convicções que sempre manteve. O texto, aliás, é bastante digno (e de não envergonhar nem sequer um Nobel). Todavia, se não é de Gabo e se o próprio autor de Cien Años de Soledad é quem o afirma, há que ouvir-lhe a voz e aceitar-lhe o legítimo desejo de dissociar o seu nome desse texto.

A verdade é que a Internet tornou impossível retificar tais erros. A velhíssima estória de alguém a quem mandaram espalhar penas de galinhas e mais tarde recolhê-las todas, missão impossível porque o vento as espalhara (a moral do exemplo era: «assim acontece com os rumores lançados acerca das pessoas») tem hoje na NET a sua versão em progressão geométrica não à velocidade do vento, nem sequer do som, mas da luz. E fica tudo aí pelo espaço dependurado ninguém sabe onde, e para sempre inapagável.

Há semanas passou aqui por Providence Luís Fernando Veríssimo de cujas crónicas sou há décadas confessado fã. Montou-se uma mesa-redonda para uma conversa em sala cheia de alunos e leitores do mundo lusófono. LFV, conhecidíssimo por não gostar de falar nem em público nem em privado (na Póvoa de Varzim, numa sessão nas Correntes onde os escritores em regra pedem mais uns minutinhos de antena, abriu a sua intervenção com duas ou três frases e voltou-se para o moderador: Já falei o mínimo?), conversou com aparente gosto. A certa altura, revelou que também circulam na NET crónicas atribuídas a ele que não são da sua autoria. A propósito de um desses escritos apócrifos, contou de uma mulher se ter acercado dele algures na rua e lhe ter confessado despudoradamente: Leio sempre o que o senhor escreve e não gosto, mas desta (uma crónica cujo título não fixei e que LFV garante nunca ter escrito), gostei muito.

Parece – convenhamos – uma das deliciosas estórias que o LFVeríssimo inventa. Mas neste caso, pode rolar por aí à vontade como verdadeira. Se ele a inventou e a conta ao vivo, então é real. É dele.

 

Crónica
Circula há alguns anos na NET a frase Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão, atribuída a Eça de Queirós. Porque já a conhecia em inglês, e habituado que estou a encontrar traduções e adaptações semelhantes apresentadas como originalmente lusas, acreditei tratar-se de mais um exemplo. A minha outra razão era intuitiva: aquele humor não me parecia eciano. Independentemente, claro, do meu avultado respeito pelo nosso mestre da ironia.
LER-Novembro-2013-OTA.doc
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