logo
rss  Vol. XVIII - Nº 304         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 09 de Julho de 2020
arrowFicha Técnica arrowEstatutos arrowPesquisar arrowContactos arrowÚltima hora arrowClima arrowEndereços úteis
Partilhe com os seus amigos: Facebook

Editorial

Futuro à vista

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Ninguém precisa de ir à bruxa para saber o que o futuro político do Quebeque nos reserva.

Os nacionalistas independentistas não veem a gestão do estado senão pela perspetiva revancharde da mitológica derrota das Plaines d’Abraham, isto é, a de quererem correr com os ingleses e fazerem do Quebeque um país independente e unilingue francófono.

E como todos os fanáticos, ideólogos ou religiosos, para atingirem os seus fins, deitam mão de todo o pau para acenderem a sua fogueira.

É por conseguinte mais que evidente que eles, nas próximas eleições procurem obter a maioria parlamentar, não para governarem segundo os interesses da população mas para porem em marcha o processo que os levará ao referendo sobre a independência, tal como consta do artigo primeiro do programa do Partido Québécois.

O ministro Lisée, o grande estratega político do P.Q., o discípulo nunca desmentido de Maquiavel, para não assustar a população, diz que não, que não haverá referendo enquanto os eleitores não estiverem prontos. Mas é para isso mesmo que toda a máquina pequista está em marcha. Para catequizar e levar os votantes a aderirem à opção da independência do Quebeque.

Os federalistas mais otimistas, reconfortados pelas sondagens que constantemente dão à opção independentista apenas 33 por cento das intenções de voto, esperam, sonham, que esse dia em que os astros estiverem alinhados em proveito da opção dos independentistas nunca chegará. Mas isso é não contar com a determinação e a astúcia dos habilidosos estrategas do Partido Québécois.

O melhor exemplo tem-nos vindo a ser dado pela estratégia utilizada pelos autores e promotores da dita «charte québécoise des valeurs» (só em si o nome é pomposo, como se se tratasse da Magna Carta!), carta que nunca teve razão de ser, visto que nunca houve problema algum com os símbolos religiosos «ostentatórios», facto corroborado por todos os intelectuais sérios, incluindo os antigos dirigentes do P.Q. Mas o facto de as sondagens (embora muito discutíveis, por terem sido feitas pela Internet) darem à dita carta um crescente apoio, sobretudo nas zonas rurais, é a prova mais evidente que o projeto inicial nada tinha a ver com a dita laicidade do estado, como subtilmente foi apresentada, mas tão simplesmente como um triplo exercício de propaganda.

Primeiro objetivo (e bem conseguido) manter os eleitores distraídos com a «carta» para que não se falasse do estado lastimoso da gestão das finanças públicas e de todos os faux-pas que o governo tem dado.

Segundo objetivo (em vias de se concretizar) acicatar a fibra nacionalística dos francófonos rurais, apontando para o papão que representa Montreal e os seus imigrantes, reconfortando-os nas suas inseguranças identitárias e convencê-los de que o Partido Québécois é o único legítimo baluarte contra as investidas dos imigrantes.

Terceiro objetivo, e não o menor, fazer a experiência, aprender com o que tem funcionado, afinar a estratégia utilizada com a carta, para servir de modelo à propaganda em favor da independência.

Os primeiros sinais deste último objetivo foram claramente enunciados pela primeira-ministra Marois quando afirmou, há poucas semanas, que se o P.Q. fosse eleito, um dos primeiros mandatos seria o de fazer uma vasta consulta popular, por todo o Quebeque, sobre o futuro da província com o fim de publicar um livro-branco, onde todas as opções serão abordadas. (É fácil adivinhar qual vai ser a opção preferida…)

Deste modo, graças ao dinheiro do estado, isto é o dinheiro de todos os contribuintes, dos quais mais de sessenta porcento são contra a independência, o Partido Québécois vai tentar catequizar todos os indecisos.

A razão de o P.Q. ter recrutado tantos jornalistas para as suas fileiras, insere-se nesta estratégia. Não lhe é necessário rodear-se de bons gestionários, economistas, técnicos, homens de estado. Não. Basta-lhe ter bons comunicadores para passar a mensagem. E quem fala de comunicadores, em termos de política, fala de propaganda. E quando se trata de nacionalismo, trata-se de evangelismo!

Esta estratégia não é de agora. Já no tempo do primeiro governo do P.Q., o ministério dos transportes, sob o pretexto de fazer publicidade ao uso do cinto de segurança nos automóveis, saiu-se com vários slogans insidiosamente nacionalistas, como aquele famoso «On s’attache au Québec» ou «On fait du chemin ensemble». Até o ministério do comércio saiu-se com uma campanha publicitária do mesmo teor onde um dos slogans era «Envoyons de l'avant nos gens», ou aquela publicidade para sublinhar o quadragésimo aniversário do direito de voto das mulheres, com um slogan da mesma água «On veut l'égalité».

Mas visto que os slogans publicitários não deram afinal o resultado esperado, ei-los que desta vez vão fazer do porta-a-porta, sob o pretexto do dito livro-branco, à conta do orçamento público e como se já não bastasse terem conseguido infiltrar todas as salas de redação da imprensa, rádio e televisão, o próximo objetivo que começaram agora a investir é o de conseguirem açambarcar as redes sociais, Blogosfera, Facebook, Twitter ou YouTube, e assim darem a impressão de que todo o povo está com eles.

Resta-nos a esperança que aconteça ao Partido Québécois o que aconteceu em Portugal ao Partido Comunista. Nos primeiros tempos do pós 25 de Abril invadiram todas as redações, assenhorearam-se de todos os postos de comando. Puseram os seus homens de mão a todos os níveis do aparelho do Estado e quem visse de fora davam a impressão de serem senhores absolutos. Afinal nunca conseguiram o poder central pelas eleições e hoje estão reduzidos a quase nada.

Estamos confiantes também que a sabedoria centenária dos canadianos franceses saiba, uma vez mais, repudiar as manobras dilatórias dos independentistas, mas, o mais importante ainda, é que das fileiras do Partido Liberal saiam os verdadeiros defensores do sistema federalista, capazes de mostrarem à evidência que há outras formas de governo, muitos mais conformes com as aspirações do nosso século, isto é, o de um regime onde todas as línguas, religiões, etnias se sintam em casa, sem que para isso precisem de odiar o vizinho.

Editorial
Ninguém precisa de ir à bruxa para saber o que o futuro político do Quebeque nos reserva.
Editorial.doc
no
O tempo no resto do mundo

Arquivos

Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
LusoPresse - 2020