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rss  Vol. XVIII - Nº 302         Montreal, QC, Canadá - domingo, 16 de Fevereiro de 2020
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Valha-nos a França!

Fernando Pires

Por Fernando Pires

Será que a existência do livro em papel tem os dias contados? Contudo, pelo caminho que vamos, existem poucos países que até agora tenham resistido e ousem tomar posição em defesa do livro amigo da «galáxia de Gutenberg» que dormiu connosco na cama durante os anos escolares e perdura desde 1468.

Quem tem a coragem de criticar agora as edições digitais do monopólio mundial da Amazon pela publicação do manifesto Mein Kampf de Hitler que sobe para o topo de vendas como um best-seller? (jornal «O Público» 9-01-2014).

E que será de nós se não houver por aí muitos big brothers como o George Orwell e Edward Snowden, que nos alertem e protejam de todos os tabletes do digital que se apoderaram deste comércio, e nos invadem os cinco sentidos, sem que nós possamos levantar cabelo?

A tudo isto responde a França em defesa dos três mil livreiros franceses, cercados pela edição do digital numérico, monopólio da Amazon que está em vias de se acaparar do lucro mundial do mercado do livro, para já presente na América do Norte e na Europa.

Antes de avançar mais sobre o assunto deixem-me dizer que já denunciei algures neste jornal, que a cultura da escrita sempre dominou a cultura oral dos povos onde esta era e esteve menos presente.

Foi desde os tempos remotos que a cultura das oligarquias milenárias dominaram desde o aparecimento dos símbolos da escrita e a se implantar há quarto mil anos na Mesopotâmia.

Vamos lá então ao assunto do comércio cultural numérico, do qual a Amazon se está a apoderar mas a que uma lei votada pelo senado francês põe um travão, salvando os três mil livreiros independentes franceses das garras do comércio da superfície da Amazon, que engole os mais pequenos.

Nada garante, que a lei que impõe as condições à Amazon, ponha fim ao mercado; mas os 9 milhões de euros que o senado francês votou para combater a concorrência deste monopólio podem ser eficazes. A ver vamos. No entanto, a lei anti-Amazon não proíbe a venda do livro numérico.

O lucro da Amazon não tem mãos a medir. Mesmo já os Michel Tremblay e as Marias Laberge estão a vender alguns dos seus livros através da edição numérica!

Quem sabe se brevemente os «drones» da Amazon poderão distribuir os livros destas pessoas numa praia da Florida?

De modo que me interrogo até que ponto a Aliança Comercial que o Canadá assinou com a França, mesmo com a cláusula especial do Québec que exclui a cultura desta aliança, pode impedir as garras do elefante da Amazon de atingirem «Les Belles-Soeurs» de Tremblay?

Vantagens e desvantagens do numérico do tablete, do iPad, do smartphone, em relação à edição do livro em papel. É certo que qualquer um destes objetos é mais maleável que um livro de bolso. Mas até que ponto a quantidade e a qualidade do conteúdo pode ser absorvida?

Esta questão é levantada numa revista científica sobre a memória da biologia que agora é pesquisa das neurociências.

A pergunta põe-se da seguinte maneira: «Será que o numérico perturba a memória biológica? Até que ponto os diversos médias numéricos em funções simultâneas de situações múltiplas, que exigem uma divisão de atenção, não terá uma influência sobre a memória biológica?» O argumento da vantagem é que o acesso da posição de diferentes janelas permite tarefas múltiplas; mas encaminha-nos para um tratamento automatizado «das informações não consciente que faz intervir estruturas diferentes das quais necessitam uma atenção focalizada» ….

Depois de alguns textos de um estudo científico universitário a conclusão é de que «a monotarefa é consciente focalizando a atenção, enquanto o estudo das multitarefas é superficial». Ademais o serviço público da Amazon anda à deriva do benquerer do poder e do capital!

Numa análise crítica de um livro, Bill Gates não hesita em afirmar que vê o livro como «sensual» em relação ao «computador glacial».

Quero também de passagem mencionar o fator linguístico, mesmo se não implica uma inclusão direta. O inglês é o esperanto da língua mundial que hoje se impõe pelo código numérico. Numa conferência na UQAM (25/10/2013), o linguista Noam Chomsky, respondendo a uma pergunta sobre o desaparecimento das línguas respondeu assim: «É uma perca de quantidade de informação, e também uma tragédia humana, porque estamos a perder a nossa herança cultural»…

Isto mesmo se a «galáxia de Gutenberg» continua a existir remando contra ventos e mares; dentro do «cyberspace» de Marshall McLuhan como o mundo real da pequena aldeia, que nos devia a ajudar a construir Edward Snowden, que nos alertem e protejam de todos os tabletes do digital que é o ideal da democracia cidadã. A realidade é outra, a realidade salta-nos aos olhos, dado que os cidadãos vivem as ruas da amargura espionados nas suas vidas privadas. O pensador livre está longe de dizer aquilo que sente na sua canção «Vejam bem que não há só gaivotas em terra quando um homem se põe a pensar» como canta o Zeca Afonso.

Ref.: Apologia do livro – Robert Darnton. Edição Gallimard 2010/2012. Paris.

Google e o novo mundo, Bruno Racine. Edições-Perrin.Fr.

Jornal «Le Devoir», Michel Lapierre, 2011.

Do Livro sensual ao computador Glacial. Bernard Poulet – O Fim dos jornais e o futuro da informação. Edição Gallimard 2009.

Legenda: O pequeno drone que Amazon quer pôr a distribuir os seus pequenos produtos AFP jornal «O Público», 19/01/2014.

Crónica
Será que a existência do livro em papel tem os dias contados? Contudo, pelo caminho que vamos, existem poucos países que até agora tenham resistido e ousem tomar posição em defesa do livro amigo da «galáxia de Gutenberg» que dormiu connosco na cama durante os anos escolares e perdura desde 1468.
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