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rss  Vol. XVIII - Nº 302         Montreal, QC, Canadá - domingo, 16 de Fevereiro de 2020
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O Livro Digital e a França da Cultura Com Preço Fixo!

Fernando Pires

Por Fernando Pires

Decerto que não foi o livro numérico digital de Dany Laferrière que fez com que ele fosse eleito para a Academia Francesa, levando este escritor Haitiano ao «santuário» dos intelectuais da francofonia?!

A natureza da hierarquia desta instituição francesa do saber, talvez não se enquadre hoje, ainda, nas alianças da troca do saber comercial no mundo da sabedoria numérica digital do livro. Por isso é de tirar o chapéu aos negociadores da Aliança Comercial Europa-Canadá, sobretudo ao negociador Pierre-Marc Johnson, por ter deixado de fora nesta aliança, uma cláusula de exceção cultural para o Québec.

Mas vamos ao assunto que aqui mais nos interessa, que é a edição do livro de papel em relação à edição do universo digital das novas tecnologias numéricas do livro prancheta editado pela americana multinacional AMAZON, onde este monstro do digital começa a deixar rastos que é de arrepiar os cabelos.

Primeiramente, temos que identificar o estratagema, do modo como este elefante sem escrúpulos faz dinheiro com o comércio da rentabilidade, da sabedoria dos homens (Amazon é a décima nona multinacional mais rica do mundo, fundada apenas há 13 anos, que conta 52 milhões de clientes).

Segundo o jornal «O Mundo Diplomático» são «cem mil pessoas, através do mundo, que se ativam numa azáfama no seio de oitenta e nove armazéns num espaço de uma superfície que acumula um total de sete milhões de metros quadrados», tradução livre... Ou seja atualmente: Alemanha, Japão, Estados Unidos e França... A escolha da Alemanha na Europa não foi um puro acaso, o estratagema foi pensado como cabeça-de-ponte, num país onde o Banco Central alemão dita a sua maneira de gestão à outra Europa, o qual país não tem uma lei do salário mínimo! Por isso o Sr. Jeff Bezos, patrão da Amazon Web Services, viu aqui uma oportunidade para atingir o seu objetivo. Este senhor está disposto a vender tudo (mesmo a própria mãe). Aproveita assim o desemprego atual em Portugal, Espanha, Itália, e noutros países da Europa, cruelmente obriga trabalhadores em França a aceitar condições de trabalho sem aquecimento, nos seus armazéns, a trabalhar de luvas, de parkas e de barrete. (Não me venham agora dizer que Amazon-digital não tem nada a ver com a escravatura da tecnologia numérica moderna!)

Onde mora a democracia direta que não distingue a qualidade da quantidade?

Decerto que a quantidade dos serviços que Amazon produz, tem como consequência produzir mais, em menos tempo, e em condições indignas de trabalho a que são submetidos os seus trabalhadores. Espaço de habitação restrito para oito homens sujeitos a aceitar temperaturas demasiado quentes, ou extremamente frias em locais de trabalho e de alojamento!

Vamos agora aos livros pranchetas digitais e das suas «consequências» ao longo dos tempos com a rapidez e a impaciência da utilização das novas tecnologias, assim como a «brevidade utilizada, que vai ao encontro da especificação rigorosa em assuntos aprofundados da paciência de um leitor». Este entre aspas, é aquilo que pude interpretar da explicação mencionada num artigo de opinião publicado no jornal «Público» e referido na conferência que Valter Hugo Mãe deu no Instituto Camões na Universidade de Montreal.

Hugo Mãe, numa passagem do seu livro escreve o seguinte: «tu sabes hoje armazenam-se informações que não serão jamais consultadas».

Será que a leitura efémera da rapidez de leitura numérica não será meio caminho andado para a desmaterialização da humanidade?

Para que serve o desenvolvimento da tecnologia numérica senão para aliviar o homem das algemas da vida que o condicionam, encaminhando-os para a sua libertação?

Fabien Deglise menciona como «paradoxo» o facto de não se avançar com o «desenvolvimento da tecnologia numérica e digital» sobre a presença científica da Astronomia, em vez do obscurantismo, esoterismo horoscópico e práticas do feiticismo (que se veem constantemente em jornais cá do nosso bairro).

O jornalista Deglise dá como o exemplo o jornal «La Presse» que numa página numérica, ao lado, se encontra a leitura do horoscópio. Portanto, o conceito de Astrologia não é um conceito científico! Mas esta crítica vai mais longe quando cita o «Império Ficher-Price» como inventor de uma cadeira batizada «Apptivity Seat», para um bebé com mais de 18 kg, cadeira essa ajustada ao nível da vista do bebé para ele poder ver o iPad. Imaginem!

Não teria havido também precipitação na edição do livro numérico em substituição do papel? Nicolas Carr, um especialista americano das novas tecnologias, diz o seguinte: «No que diz respeito aos tabletes, quanto mais o número aumenta menos eles servem para ler livros», acrescentando ao mesmo tempo que num futuro previsível, «o livro eletrónico poderia não ter existência que como apêndice do livro imprimido, como o livro audiovisual». A França, talvez seja um exemplo na Europa, dado o avanço das novas tecnologias numéricas, mesmo em Paris as pequenas livrarias ainda não cederam todo o espaço à leitura da prancheta digital!

Talvez por isso Jeff Bezo, patrão da Amazon, ainda não tenha conseguido o sucesso esperado, visto que é uma empresa deficitária de quem o fisco francês reclama quase 200 mil euros. No entanto é possível que daqui por cinco anos os franceses cedam a este monstro multinacional de fazer a entrega a domicílio em «taxi-drôme» dentro de alguns minutos! Obrigando assim ainda mais o cidadão a sedentarizar-se e a tornar-se legume?

O texto numérico sabe hoje das nossas vidas porque estamos rodeados de um «Big-brother» que pode saber hoje o que escrevemos, o que lemos, os males do corpo de que sofremos e por aí adiante.

A potência da ferramenta da transmissão digital hoje, nesta cultura numérica, é imensa, mas também pode ser efémera.

Citemos André Schiffrin, que fez carreira na edição nos Estados Unidos e que escreveu «Em 1945 Nova Iorque tinha 300 livrarias, hoje são apenas 30» (Os oráculos modernos).

Ref.: Jornal «O Mundo Diplomático» n° 716 – novembro 2013.

Jornal «Le Devoir» – 13/16 dezembro 2013.

Jornal «Público» (Opinião Digital) – 1 de dezembro 2013 (Valter Hugo Mãe «L’apocalypse des travailleurs», Éditions Métailié – Paris 2013).

Revista «Pour la Science»» n° 433 – novembro 2013.

Crónica
Decerto que não foi o livro numérico digital de Dany Laferrière que fez com que ele fosse eleito para a Academia Francesa, levando este escritor Haitiano ao «santuário» dos intelectuais da francofonia?!
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