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rss  Vol. XVIII - Nº 302         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 07 de Abril de 2020
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Que mistério guarda o Morro da Cruz?

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

Nos idos anos sessenta, costumava passar as férias de verão na casa da «tia» Volga. Na verdade, a «tia» era de direito prima e, de facto, muito mais que uma tia do coração. Foi ali no convívio dos primos e da turma da Herman Blumenau que ouvi falar, pela primeira vez, sobre a existência de um misterioso túnel ligando o Morro do Antão, a 450 metros acima do nível do mar, até a Igreja Nossa Senhora do Desterro e que teria sido construído por jesuítas como via de fuga, caso a Ilha fosse tomada de assalto por piratas ou, os padres, perseguidos pela mão de ferro do Marquês de Pombal. Até um baú carregado de pedras preciosas e joias de ouro da mais fina ourivesaria portuguesa dizia-se ter sido escondido no lendário túnel pelos jesuítas. Tudo é possível: o túnel e o tesouro escondido.

Por muito tempo, esta história do fabulário ilhéu, parte do imaginário coletivo da nossa cidade me intrigou. No entanto, nunca encontrei uma pista que confirmasse a sua existência, a não ser o costumeiro «diz que diz» envolto em mistério, visões sobrenaturais, «pombocas» ou tochas que se apagavam e ventos uivantes em torno da sua embocadura abaixo da grande pedra, no alto do morro do Antão, assim chamado porque na encosta leste residira o açoriano Antão Lourenço Rebolo. Era também conhecido por Pau da Bandeira por ter servido de posto semafórico como meio de comunicação entre os navios e à Vila de Desterro.

Lugar de grande beleza paisagística, vegetação exuberante, elo entre a Vila de Desterro e a freguesia da Santíssima Trindade de Trás dos Montes. Como bem descreve Virgílio Várzea em Santa Catarina, a Ilha (1900): «Por este valor portentoso abrindo para uma natureza de supremo encantos, o Morro do Pau da Bandeira deve atrair a curiosidade de todos que visitam o Desterro, como acontece com os que ali nascem e vivem...»

A propósito da beleza da Ilha e seu destino, observou o arguto Paulo Joze Miguel de Brito em sua Memória Política sobre a Capitania de Santa Catharina (1839,39-40): «Se a Ilha de Santa Catarina se tivesse dado a atenção política que merece, e se tivessem aproveitado devidamente as vantagens que ela oferece (...), sem dúvida seria ela hoje o Paraíso do Brasil.»

31 de dezembro de 1900. Fim de tarde na Ilha. O dia se esvai na água cálida da baía enquanto o céu tingido de púrpura saúda a procissão de fiéis que parte da Igreja Matriz levando o cruzeiro de ferro para erguê-lo no alto do Morro do Antão num pedestal erguido pelo povo de Desterro. Uma iniciativa do Padre Francisco Xavier Topp para assinalar a passagem do século. A bênção aconteceu em 6 de janeiro de 1901, dia consagrado aos Santos Reis.

A Ilha adentrou o Século XX sob o abraço da Cruz que, do cimo do Morro do Antão, agora Morro da Cruz, abençoava a antiga Desterro de ontem e abençoa a Florianópolis multicultural do Século XXI, esta linda moça faceira que, na inquieta jornada das gerações, como a mítica Penélope, tece a renda infinita do imaginário da Ilha com seus mistérios e lendas.

Crónica
Nos idos anos sessenta, costumava passar as férias de verão na casa da «tia» Volga. Na verdade, a «tia» era de direito prima e, de facto, muito mais que uma tia do coração. Foi ali no convívio dos primos e da turma da Herman Blumenau que ouvi falar, pela primeira vez, sobre a existência de um misterioso túnel ligando o Morro do Antão, a 450 metros acima do nível do mar, até a Igreja Nossa Senhora do Desterro e que teria sido construído por jesuítas como via de fuga, caso a Ilha fosse tomada de assalto por piratas ou, os padres, perseguidos pela mão de ferro do Marquês de Pombal.
Morro da Cruz.doc
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