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rss  Vol. XVIII - Nº 301         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 26 de Maio de 2020
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O admirável mundo-jogo

Onésimo Teotónio Almeida

Por Onésimo Teotónio Almeida

Levei os meus alunos do seminário «On the Dawn of Modernity» à John Carter Brown Library, famosa biblioteca sobre o período dos descobrimentos, especializada no Novo Mundo. Possui, por isso, um belo acervo português dos sécs. XVI-XVIII. Tem mapas antigos e primeiras edições de Os Lusíadas, Peregrinação, obras de Pedro Nunes, Garcia de Orta e João de Barros. E inclui preciosidades como um dos sete exemplares de Cultura e Opulência do Brasil, por André João Antonil [1711], que escaparam à confiscação ordenada por D. João V. A ordem real foi motivada pelo receio de que as informações no livro contidas, sobretudo acerca do oiro de Minas, despertassem a cobiça de estrangeiros. Aqui há anos, um anónimo comprou-o por 200 e tantos mil dólares e ofereceu-o à biblioteca.

Os alunos apreciam imenso a visita e o poderem ver e tocar edições originais de obras lidas no curso. Desta vez, não sei como, eu, que ainda tenho arrumadinha na cabeça, graças ao Pe. Horácio Noronha, meu professor de História Universal, uma série de datas, entre as quais as da queda do império romano do Ocidente (476) e do Oriente (1453), fui assaltado por um momento de dislexia e saiu-me 453 e 1476. O Yichao, um moço do 1º ano há três meses chegado diretamente da China para a Brown, corrigiu-me.

Agradeci e perguntei-lhe:

        – E como sabes isso?

      – Aprendi nos videojogos.

Fiquei a entender melhor um e-mail do mesmo Yichao enviado há semanas e de que traduzo algumas passagens:

 

Professor,

Eu sei que os videojogos não são o seu género, mas o jogo Europa Universalis IV proporciona-me a melhor simulação de Portugal e Castela desde o final do século XV até ao fim do século XIX. Sei que a curva de aprendizagem deste jogo é bastante elevada, mas este grande jogo estratégico criou com êxito, em vez de «a história no nosso mundo», a «história a ser feita». Como comandante-em-exercício de um país, fica-se em controlo de praticamente tudo: desenvolvimento tecnológico, eleições de cardeais e papas; casamentos reais, etc.. Nestes dias, estou a jogar como se vivesse em Castela em 1506 e os meus navios atingiram a costa norte da América do Sul. E antes que os portugueses o fizessem, criei uma colónia castelhana no Cabo da Boa Esperança. Juro-lhe por Deus que o seu curso me permitiu introduzir muitos e muitíssimo vívidos pormenores no jogo, o que torna as minhas leituras semanais dez vezes mais atraentes. Recomendo-o altamente para uso no curso. Garanto que os meus colegas aprenderão imenso, como eu estou a aprender. E disponibilizo-me para lhe fazer demonstrações de como tudo funciona.

 

Na altura, li o e-mail com uma gorda dose de ceticismo. No entanto, com o Yichao ali diante de toda a gente a corrigir-me as datas que o bom do Padre Horácio conseguira gravar-me indelevelmente na cabeça, mas a idade, por momentos, me baralhava nos neurónios, reconheci mérito nos videojogos e informei o Yichao que aceitava, sim, uma lição sobre o Europa Universalis IV. Aposto é que ele não vai ter o mesmo êxito do P. Horácio em colar-me um monte de datas na cabeça. Palpito com segurança que não vou atinar com aquelas geringonças criadas para gente da geração do Yichao. 

O mais prudente será pedir-lhe uma lição sobre o Europa Universalis I.

 

Crónica
Levei os meus alunos do seminário «On the Dawn of Modernity» à John Carter Brown Library, famosa biblioteca sobre o período dos descobrimentos, especializada no Novo Mundo. Possui, por isso, um belo acervo português dos sécs. XVI-XVIII.
LER Janeiro 2014.doc
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