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rss  Vol. XVIII - Nº 301         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 03 de Junho de 2020
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Ken Pereira

Uma saga familiar

Carlos de Jesus

Entrevista de Carlos de Jesus

Ken Pereira, nos tempos que correm, é certamente o luso-canadiano mais conhecido no país, e sobretudo na província que o viu nascer, o Quebeque.

Depois de ter passado as passas do Algarve (referência ao facto de ter sangue algarvio) em consequência das denúncias que fez à televisão de inquérito da Radio-Canada, em 2008, acerca das irregularidades que se verificavam no seio do sindicato da FTQ Construction, viu-se mesmo obrigado a «exilar-se» para a Alberta.

Este sindicalista ambicioso e convicto, não obstante todas as ameaças que pesam sobre si (foi a própria polícia que o avisou que a sua vida estava em perigo por ter denunciado a influência do crime organizado no Fundo de Solidariedade dos Trabalhadores da FTQ), não obstante a enorme pressão que puseram sobre ele os inquiridores e os procuradores da Comissão Charbonneau, incluindo a própria presidente da comissão, Ken Pereira não tem desistido da sua campanha para levar a cabo o saneamento do sindicato.

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Os pais de Ken Pereira, Odete Brito de Andrade e Manuel dos Santos Pereira.
Foto  - LusoPresse

A sua presença nos jornais, na rádio e nos ecrãs de televisão de praticamente todos os postos do Quebeque e do resto do Canadá, fizeram dele e da sua forma de falar o francês popular – como gostam de sublinhar os jornalistas intelectuais do Plateau – fizeram dele uma figura incontornável no meio sindical, político, policial e judiciário, ao ponto de, com razão, vários o terem aplaudido como um herói nacional do Quebeque. A sua passagem na emissão de variedades do domingo à noite na SRC «Tout le monde en parle» fez dele uma figura consagrada do mundo mediático.

Não é pois de estranhar que o LusoPresse tivesse ido à cata de mais elementos sobre a vida de Ken Pereira, este luso-quebequense de Montreal, filho de algarvios que imigraram para o Canadá em 1955.

Saga familiar

Encontrámo-nos com os pais de Ken Pereira nos estúdios da LusaQ Tv por ocasião da entrevista que este deu e que passará na próxima segunda-feira no canal ICI. Como nos confessou o próprio, sentia-se um pouco intimidado por ter de falar em português, visto que foi à escola inglesa e aprendeu o francês na rua. Nunca foi muito forte na escola, ao contrário da sua irmã que tirou um curso universitário. Finalmente saiu-se muito bem para quem tem tão poucas ocasiões de falar a língua de seus pais.

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Ken Pereira, em Cascais, no verão passado.

O pai de Ken Pereira, Manuel dos Santos Pereira, é um algarvio de São Brás de Alportel que nos anos 50 trabalhava como mecânico lá na sua terra. Nessa altura o governo do Canadá procurava imigrantes que fossem agricultores e foi com esse estatuto que ele embarcou, em 1955, com 24 anos de idade, no navio grego Vulcania, para Halifax, onde apanhou o comboio com destino a Guelph no Ontário, onde havia uma quinta à espera dos seus braços para a trabalhar, segundo o que tinha sido estabelecido pelas autoridades da imigração canadiana. Embora filho de agricultores detestava trabalhar na lavoura. Ainda que não falasse nada para além do português, lá se fez compreender do patrão que podia conduzir um trator. E foi assim promovido na escala salarial. Mas o trabalho nos campos continuava a não lhe agradar.

Mudar de vida

Pouco tempo depois recebeu a visita dum funcionário da emigração do governo português que vinha inquirir sobre as condições de trabalho. Tinha constado que os portugueses eram mal pagos e mal tratados. Com ele, nada disso se passava e estava até muito contente com o patrão. Só o que o aborrecia era de ter de esperar um ano para poder largar aquele trabalho. Afinal estava enganado. Ninguém era obrigado a trabalhar durante um ano para o mesmo patrão. Como lhe explicou o funcionário do governo português ele podia largar o trabalho naquele dia mesmo e ir para onde quisesse. O Canadá é um país livre. Não o fez no mesmo dia para não comprometer o dito funcionário. Mas dias depois, com outro colega de trabalho, também português, embarcou no comboio para Montreal apenas com um pedaço de papel onde estava escrito o nome dum canadiano e o seu endereço nesta cidade.

É uma estória curiosa a deste papel. Aconteceu que um casal de canadianos tinha passado uns dias no Algarve e que um familiar dos Pereira, que tinha vivido nos Estados Unidos e falava inglês, se ofereceu como cicerone durante aquela estadia, tendo mesmo o casal ido comer a casa deles. Os canadianos ficaram tão bem impressionados com esta gentileza e esta hospitalidade, que o homem lhes deu o seu cartão-de-visita com o recado: «Se um dia forem a Montreal estarei lá à vossa disposição».

Era aquele cartão que o Manuel Pereira trazia com ele e foi deste modo que foi bater à porta da firma, propriedade do canadiano, um grande empreiteiro com escritórios no centro da cidade, que o recebeu de braços abertos. Depois de muitos esforços da parte de ambos com ajuda de alguns italianos e espanhóis, o nosso português lá se fez compreender que queria trabalhar como mecânico. E nesse mesmo dia embarcou para Baie-Comeau onde a dita empresa estava a construir um grande complexo industrial.

Baie-Comeau

Foi em Baie-Comeau que foi encontrar outros dois portugueses, o Henrique Tavares Bello, que viria mais tarde a ser o fundado do jornal Luso-Canadiano e o Engenheiro Lança. Esta ida para o norte do Quebeque foi muito vantajosa. Nessa altura, em Montreal, um mecânico ganhava 60 cêntimos à hora e ele foi ganhar um dólar. Outra consequência da sua ida lá para cima é que no fim da construção da fábrica ofereceram-lhe um trabalho permanente a ganhar 1,75/h e mais uma casa para viver.

Como entretanto tinha deixado a noiva em São Brás de Alportel, já tinha enviado a procuração para se casarem e assim poder chamar a mulher para o Canadá. Visto que economicamente as coisas lhe estavam a correr bem, resolveu fazer uma surpresa à sua futura mulher, Odete Brito de Andrade, e apareceu em pessoa no dia do casamento. Infelizmente a recém-casada teve de seguir os trâmites da imigração e só meses depois pode embarcar para o Canadá.

Claro que a viagem da D. Odete Pereira, embora tivesse sido por avião, para quem não sabia falar inglês, foi cheia de peripécias, como ela nos contou, com escala em Nova Iorque, chegada a Montreal e ala para Baie-Comeau.

O principal problema de aclimatação ao novo país foi a solidão. Um episódio saboroso que ela nos narrou foi quando, nos fins do inverno, numa certa manhã, ainda com restos de neve no chão, viu uns trabalhadores a plantarem os tapetes de relva na frente da casa. Pela aparência tudo lhe levou a acreditar que se tratava de portugueses. Como quem não quer a coisa, foi à porta com o pretexto de sacudir um tapete e ouviu-os a falar realmente na nossa língua. Aí não se conteve que não lhes dissesse «Eu também sou portuguesa». Os homens, ainda bastante novos, a trabalharem com as mãos feridas, na terra fria, sem luvas, diz ela, levantaram-se, atrapalhados, confusos, como se fossem marmotas à procura da sua sombra…

A solidão

A vida lá continuou. Entretanto nasceu-lhes a filha, a Nancy, mas sentiam-se perdidos sem ninguém com quem conviver.

E foi por isso que vieram para Montreal onde já havia o embrião da comunidade portuguesa. Participou com outros compatriotas na ideia de se criar a Associação Portuguesa do Canadá, embora não tenha feito parte dos fundadores, assim com se juntou ao grupo inicial que fomentou a criação da Caixa Portuguesa. Foram viver para o bairro de Rosemont, onde nasceu o Ken.

Nessa altura, como sindicalista já tinha uma boa folha de percurso no campo profissional mas ambicionava mais e lançou-se em vários negócios onde acabou por gastar quase todas as economias que tinha laboriosamente acumulado a trabalhar lá em cima, no norte.

Claro que para ele é um motivo de grande orgulho poder acompanhar, aconselhar e apoiar o seu filho nesta sua militância por um sindicalismo dedicado aos trabalhadores, tal como Ken Pereira definiu, pelas suas próprias palavras – «O sindicato é para servir os interesses dos trabalhadores e não o contrário!»

Concluímos, desejando, em nome do LusoPresse e cremos que de toda a comunidade, que o Ken Pereira tenha o maior sucesso nesta cruzada e que os seus pais, assim como toda a família, vivam longos anos para saborear o preço da vitória.

Destaque
Ken Pereira, nos tempos que correm, é certamente o luso-canadiano mais conhecido no país, e sobretudo na província que o viu nascer, o Quebeque.
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