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Como matar a política

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Os partidos estão eufóricos com a decisão do Tribunal Constitucional.

Deveriam estar preocupados, por outras razões.

A atitude do Representante da República, em enviar para o Tribunal Constitucional o Orçamento dos Açores (levando uma grande lição do Constitucional), revelou um caso curioso: para além dos partidos e de alguns comentadores, não se vislumbrou mais nenhuma reação de protesto por parte dos cidadãos.

Idem aspas para o resultado do Tribunal.

Noutra dimensão, a vergonheira que o PSD assumiu na Assembleia da República com a aprovação do referendo sobre a adoção e co-adoção, também mereceu o protesto dos outros partidos, de analistas, algumas organizações... e ficou-se por aí.

Os sinais são evidentes: a população está cansada das forças políticas, da generalidade da classe política e das constantes manobras dos seus dirigentes para promoverem-se a si ou os seus mais próximos.

A nomeação de gente das cúpulas dos partidos para lugares de topo em empresas – públicas ou privadas, nacionais ou internacionais, cá na região ou lá fora – é bem o retrato da desfaçatez a que chegou a classe política dirigente.

A população já não tem forma – e, se calhar, forças – para manifestar a sua indignação perante a miséria política que caracteriza esta geração saída das jotas.

Não é por acaso que a rebaldaria do referendo é da autoria das jotas do PSD.

Não é por acaso que as jotas do CDS-PP pretendiam, qual iluminados, reduzir a escolaridade obrigatória para o 9º ano.

Estamos a assistir a uma deriva em que gente sem maturidade, sem experiência e, também, sem escrúpulos, não faz a mínima ideia do que é o país real, de como as famílias estão a sobreviver e qual os graus de prioridade da vida dos cidadãos.

Depois de tantas trapalhadas políticas, deste empobrecimento do país e das famílias, da olímpica ignorância pelos mais elementares direitos dos cidadãos, só por masoquismo é que os eleitores ocorrerão às urnas em próximos actos eleitorais.

O «protesto silencioso» que se vem registando, nos últimos anos, com a crescente abstenção eleitoral, deveria preocupar os partidos.

Entre nós, o fenómeno já é bem grave.

Em 2009, o PS dos Açores manifestava-se surpreendido com a onda abstencionista e interrogava-se: «até que extremo é preciso ir a abstenção para que alguns líderes partidários achem necessário e urgente analisar o assunto?»

No ano seguinte, o PCP dos Açores apresentou na Assembleia Regional uma proposta, recusada pelos outros partidos, para distribuir pela população documentos relacionados com cidadania, com todos a manifestarem a sua preocupação pela abstenção elevada na região.

Em outubro de 2008, atingimos a maior taxa de abstenção de sempre das regionais (53,2%), com mais açorianos a não votar do que aqueles que foram às urnas.

Nos restantes atos temos vindo a atingir quase metade dos eleitores a ignorarem as eleições.

As presidenciais de janeiro de 2011 foram o desastre absoluto, com quase 70% de abstenção.

Até já houve quem sugerisse o voto obrigatório, lembram-se?

Eu nem me atrevo a imaginar o que vai ser nas próximas europeias...

É fantástico como os partidos manifestam as suas preocupações a seguir às eleições, mas depois não falam mais no assunto, até voltarem a manifestar nova surpresa no ato eleitoral seguinte.

Se as forças políticas promovessem uma manifestação de protesto, em frente ao Solar da Madre de Deus, o mais certo é que não apareceria lá ninguém.

A política – esta política destes últimos anos – desmobilizou por completo os cidadãos, com os mais jovens a desligarem-se da coisa pública.

Isto mesmo já foi confirmado pelo estudo dos politólogos André Freire e Pedro Magalhães, que constataram este desinteresse pela «desidentificação com os partidos políticos, desinteresse pela política e desconfiança nas instituições».

Nos Açores, o sociólogo Rolando Lalanda Gonçalves chama a este fenómeno «(...) o tradicional «vai-se andando» do povo açoriano», certamente agravado por aquilo a que ele associa, também, ao nosso isolamento insular, concluindo que «esta atitude insular constitui simultaneamente um fator de «permanência» e de alheamento contemplativo que em nada é mobilizador, nem mesmo quando as «agressões» ao projeto autonómico são manifestas ou implícitas ou unanimemente repudiadas no parlamento regional».

Ou seja, são as próprias forças políticas, com as suas atitudes arrogantes, que isolam os cidadãos.

E é assim que se mata a política.

Crónica
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