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rss  Vol. XVII - Nº 300         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 16 de Julho de 2020
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Prefácio

Âncora do meu coração

Por Susana Goulart Costa

Bem sabemos que, no mundo atual, realçam-se mais os bens do que as pessoas. Vivemos rodeados de coisas e este mundo material absorve-nos, atrai-nos, domina-nos e limita-nos. Mas, muitas vezes, o que verdadeiramente conta são as pequenas coisas e os atos, os afetos e as nossas memórias. É nesta linha que se integra o livro de Maria Palmira da Silva Leite Bettencourt, um verdadeiro hino de homenagem ao passado recente do concelho de Lagoa.

Uma das mais-valias deste texto é ser contado na primeira pessoa, através de uma biografia da memória pessoal da autora, onde se cruzam outras biografias. No livro Âncora do Meu Coração, Maria Palmira da Silva Leite Bettencourt recua ao seu passado afetivo e fala-nos dos seus avós maternos e paternos, do seu pai e do seu tio/padrinho. E nós, leitores, começamos a imaginá-los: eles com o bigode típico da primeira metade do século XX; elas de saias compridas a arrastar o chão. Depois, a estes rostos imaginados, associamos características da sua personalidade, umas que nos são indicadas por Maria Palmira Bettencourt, outras queremos nós concebê-las, pois quase se tornaram um pouco como nossos avós, alguém que efetivamente conhecemos ou, até, alguém que gostaríamos de ter conhecido. E assim surgem eles na nossa imaginação: firmes, caridosos, justos e até teimosos, como nos desabafa, aqui e acolá, a própria autora sobre si própria.

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Susana Goulard Costa.

Maria Palmira da Silva Leite Bettencourt nasceu numa família privilegiada em todos os sentidos: não seriam muitos os lagoenses que teriam uma casa de férias, possibilidades de visitar as Furnas e de viajar até ao estrangeiro. No tempo quotidiano, ouviam-se as estórias da rádio, as músicas no gramofone e experimentavam-se os novos equipamentos sociais, como a piscina da Lagoa. Entre estas experiências da vida moderna, Maria Palmira Bettencourt beneficiava dos laços com as tradições mais firmes da vila lagoense: a matança do porco, as festas religiosas, os carros de bois enfeitados, as terríveis mortes por doenças infecciosas, a importância da cerâmica no espaço doméstico…

Mas rapidamente estas memórias pessoais tornam-se, a certa altura, as memórias de muitos. Os dois exemplos mais ilustrativos respeitam a Fábrica de Cerâmica e a Fábrica do Álcool. Recuamos, desta forma, aos primórdios da industrialização do concelho, que tão importante foi para a área social lagoense, garantindo emprego a muitas famílias, e também para o desenvolvimento cultural, pois o intercâmbio de produtos e a certeza do rendimento familiar permitia uma abertura de horizontes vislumbrados através da Casa do Operário, da cantina, do presépio movimentado, dos primeiros bonecos de presépio…

Como vemos, a história pessoal de Maria Palmira Bettencourt cruza-se com a história da própria Lagoa. E, no tempo em que vivemos, é preciso realçar a importância da memória de cada um. Vivemos na era da comunicação social, mas na era do vazio na comunicação individual. Ouvimos informações oriundas de muitas fontes, cruzamos informação com muitas pessoas, mas dificilmente as conhecemos, não as ligamos a uma família, a um espaço e a um tempo. Não lhes conhecemos a sua âncora, pois! E este é o principal mérito da obra de Maria Palmira da Silva Leite Bettencourt, que nos confessa, numa linguagem acessível, com termos de época, pormenores da sua vida que se interligaram com a vida de muitos mais. Depois de crescer na Lagoa, viajou até ao centro da Europa, beneficiando das condições da cidade de Paris. Não tenho dúvidas que viajar é fundamental. Mas parece-me tão crucial como ter algo para onde voltar, seja qual for a âncora. E a de Maria Palmira Bettencourt sempre foi a Lagoa, onde se ancorou nos seus cheiros, nas suas gentes, nos seus espaços e, acima de tudo, nas suas memórias. Maria Palmira da Silva Leite Bettencourt, sempre ligada à música, arte pela qual sempre teve um apreço especial, acabou por compor neste livro um hino dedicado à Lagoa. Que seja cantado por muitos e que cada um dos leitores possa colocar na sua pauta uma pequena nota, por mais singela que seja.

Livros
Bem sabemos que, no mundo atual, realçam-se mais os bens do que as pessoas. Vivemos rodeados de coisas e este mundo material absorve-nos, atrai-nos, domina-nos e limita-nos. Mas, muitas vezes, o que verdadeiramente conta são as pequenas coisas e os atos, os afetos e as nossas memórias. É nesta linha que se integra o livro de Maria Palmira da Silva Leite Bettencourt, um verdadeiro hino de homenagem ao passado recente do concelho de Lagoa.
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