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rss  Vol. XVII - Nº 300         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020
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Por fechar uma hora mais tarde...

Ourivesaria Rosas de Portugal multada com 1 885$

Raquel Cunha

Por Raquel Cunha

Embora não sejamos um jornal de opinião, há coisas que são quase impossível de não causar indignação, como é o caso da recente multa atribuída a Eduardo Nunes, proprietário da ourivesaria Rosas de Portugal, na Avenida Saint-Laurent.

Embora o acontecimento seja datado de abril do ano passado, a ida do réu ao tribunal decorreu a 8 de outubro último, e a fatura com o valor final sentenciado chegou às suas mãos há apenas uma semana.

Eduardo Nunes trabalhava num sábado, que se disse movimentado, e ao invés de fechar o seu estabelecimento às 17 horas, como estava indicado no horário afixado na porta do comércio, atrasou-se e fechou um pouco mais tarde. Estava quase a fechar, a guardar as coisas no cofre, quando por volta das 18 horas entrou um fiscal da Câmara a perguntar se ainda estava aberto. Era claro que estava em processo de fecho mas disse, a brincar, que se quisesse comprar alguma coisa que ainda o atenderia. Gentileza portuguesa que lhe custou uma multa, por trabalhar fora do seu horário de trabalho.

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Eduardo Nunes sente-se revoltado!

Aqui são evidentes as diferenças culturais entre cá e lá. É costume do povo português, povo de pequenos negócios, ficar mais tarde do que a hora estabelecida, a fim de atender os clientes mais atrasados, e enquanto isso é rotina do outro lado do Atlântico, do lado de cá tal é considerado ilegal. O respeito obrigatório pelo horário de trabalho é um lema que visa, segundo a Câmara de Montreal, a proteção dos direitos dos trabalhadores, a lei dos empregados da empresa.

Embora neste caso não houvesse empregados, apenas um proprietário e o seu comércio, e o atraso tenha sido somente de uma hora, a juíza considerou o arguido culpado e sentenciou-o a uma multa de 1 885 $ a ser paga em prestações durante seis meses.

Eduardo Nunes sente-se revoltado: «o negócio já não anda bem, e ainda nos fazem destas! Onde é que a Câmara tem dinheiro para pagar um fiscal só para verificar se os estabelecimentos fecham à hora marcada? Não há coisas mais importantes onde gastar o dinheiro?»

Há 32 anos que Eduardo Nunes é dono do estabelecimento, e diz-se surpreso com esta atitude: «podiam pelo menos terem-me enviado um aviso».

Veio para o Canadá com seis anos de idade, oriundo de Santa Maria, nos Açores. Os seus pais foram ambos trabalhadores fabris: o pai numa fábrica de carpintaria e a mãe numa de costura. Eduardo andou por vários empregos mas aos 18 anos, em 1981, o seu primo, então dono da ourivesaria, decidiu voltar para Portugal. Eduardo Nunes assumiu o negócio que, nessa altura, ainda se encontrava na esquina da avenida Pine com a St-Laurent.

Há oito anos, por problemas relativos ao preço da renda, decidiu mudar-se para ao lado da Casa Minhota, pois queria ficar na St-Laurent. Mas não correu bem, confessa, o primeiro ano ainda foi bom, mas depois começaram as obras na rua e tem sido o declínio, comenta. Sente-se saturado e considera que «Mataram esta avenida!»

Há, é claro, outras razões para a dificuldade no negócio, como a crise, o aumento do preço do ouro, as rendas altas e a dificuldade de competir com as grandes empresas. Por isso é categórico: «não aconselho este ramo a ninguém. A meu ver, os pequenos negócios estão a acabar, é impossível para nós, os pequeninos, competir com os grandes estabelecimentos. Se eu quisesse fazer hoje o que fiz há 30 anos, seria impossível!», completa.

Não recomenda aos seus três filhos que continuem os passos do pai. «O negócio está mesmo difícil, e aqui na St-Laurent ainda mais. Estou aqui há oito anos e já me partiram o vidro onze vezes! Para não falar nas inúmeras vezes em que os bêbados da rua fazem o alarme disparar, eu tenho que vir cá acima às tantas da madrugada, e no final de contas ainda pago uma multa por falso alarme».

Embora por princípio a lei da proteção da carga horária seja compreensiva, não é aplicável neste caso, e vê-se mais uma vez o absolutismo de certas entidades, de levar as medidas de tal modo à letra que chegam a cair no ridículo.

Não será com multas como estas que a Câmara irá conseguir recuperar a Avenida St- Laurent do declínio em que tomba. Aguardamos, contudo, por novos acontecimentos. No entanto, fica aqui o aviso, aos nossos gentis comerciantes: Tomem cuidado com as horas marcadas.

Reportagem
Embora não sejamos um jornal de opinião, há coisas que são quase impossível de não causar indignação, como é o caso da recente multa atribuída a Eduardo Nunes, proprietário da ourivesaria Rosas de Portugal, na Avenida Saint-Laurent.
Ourivesaria Rosas de Portugal.doc
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