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rss  Vol. XVII - Nº 300         Montreal, QC, Canadá - segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2020
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Mau tempo no calhau

Para a Lisa

Osvaldo Cabral

Por Osvaldo Cabral

Quando as nuvens se enrolavam, em forma de anel, na montanha do Pico, Mestre Tarimba, na sua pose majestática, recolhia-se na vigia das baleias da Gigana.

Era sinal de depressão.

A inapetência só tinha uma terapia, sempre fiel: olhar para a vastidão do mar, mas com olho sempre em terra, focando-se no extenso matagal de urze rente à costa.

– Ó Simão, o que vai ser destas terras de meu avô quando eu morrer?

Simão Timoneiro, viúvo, era o único amigo de infância – e das adegas – que lhe quebrava a melancolia.

Permitia-lhe a companhia na vigia, porque levantava-lhe a moral, recordando, com manifesta admiração, episódios do seu tempo de baleeiro.

– Eh Tarimba, tu resolves isto num repente. Quando morreres, eu vou pôr um periscópio, como os submarinos, na tua campa. Sempre que te apetecer, vês como estão as coisas cá por cima...

                                                          ****

Mestre Tarimba era uma espécie de figura escadeada. Tanto se ufanava dos feitos, como entrava em súbita nostomania.

Gostava de comparar os tempos vividos, insurgindo-se contra «esta rapaziada nova que agora nem sabe a diferença entre bombordo e estibordo».

– Conheces o João Rabicha, neto do Mestre Rabicha, de Santo Amaro?

Simão acena com a cabeça entre duas fumaças de folha de milho.

– Ele julgava que ser neto de quem é, já dominava o mar! Armou-se em oficial da «Trindade» e logo na primeira regata de botes, na festa da Calheta, enfiou-se na rocha do Cabrito. Estes rapazes estão bons é para estar na loja do Rezingão com telemóvel todo o dia na mão...

O velho Simão ia ouvindo sem largar a mortalha, ora olhando para ele, ora olhando para o mar picado.

– Estes rapazes não têm tino. Sabes que hoje morre mais gente no Pico em acidentes de mota do que no meu tempo na caça à baleia? Não sabem andar de mota e querem galgar as ondas na Baixa do Galego. C'm é que é?!

                                                      ****

Luis Cagarro tinha vindo de Santa Maria em 1996.

Contratado para trabalhar na construção, saíra de Santana («por detrás do Asas do Atlântico, tás a ver?»), com mulher e três filhos, numa aventura meia abrumada.

Desconfiava que a mulher o traía com o vizinho, mais novo, em Santana, e batia-lhe.

A sua nova terra, na Piedade, em frente à ilha de S. Jorge, tinha que ser o céu para a sua redenção familiar.

Cedo se afamou como mestre na armação de ferro nas obras de novos edifícios, mas mais cedo se perdeu na via-sacra de fim de semana pelas adegas do calhau.

O irmão já tinha falecido com cirrose e ele ia pelo mesmo caminho, diziam-lhe.

As coisas voltaram ao antigamente. Um dia chegou a casa e ia degolando a mulher.

Uma semana depois tinha a casa vazia, sem mulher nem filhos.

Hoje vai deambulando pela Baixa da Areia, batendo na porta da tia Leodete para uma sopa quentinha e, mais tarde, espreitando a adega do Simão, a ver se há caldo de peixe.

Quer regressar a Santa Maria, onde pensa que estão os filhos, mas não tem dinheiro, e perdeu a noção do tempo.

O único relógio que possuía, oferecido pelo último patrão, ficou em mil nicas.

Caíra no tanque, em casa, quando lavava a louça.

– Ainda o pus no micro-ondas, para secar, mas aquilo parecia o rebentamento da pedreira de Santa Luzia! Olha, ali é que eu vi que o relógio era de contrabando. Puta que pariu ao patrão, que eu nunca lhe pus madeira, em vez de ferro, nas armações.

                                                   ****

A noite de Natal na adega do Simão, na Baía das Canas, era tudo nostalgia.

Para além de Simão Timoneiro, lá estavam Mestre Tarimba, a sua mulher Jorgina Faidoca e o Luis Cagarro.

Simão queixava-se da falta de sal no caldo de peixe, Jorgina fazia careta com a veja escalada deslavada, Luis recordava os filhos e Mestre Tarimba olhava para o céu, pelo canto da porta, à procura dos cagarros.

– Homem, esta coisa de apanhar os cagarros na estrada e atirá-los depois ao mar é coisa tola. Eles morrem na mesma, de fraqueza. É isco para os sargos...

Jorgina resmungou cabisbaixa:

– Estás sempre a salceirar com cagarros e baleias

– E tu, sempre a enriçar. Já viste Simão? Esta mulher parece o governo, sempre contra. Ainda agora, antes de vir para cá, vimos uma baleia na costa, no mar da Engrade, e eu inquieto para trancá-la... e ela que não!

Eh homem, o governo não deixava...

– Porque não percebe nada disso! Baleia que anda sozinha aqui na costa é baleia velha, como eu, já não vale nada. É uma ameaça às outras espécies. Devia ser permitida a caça.

A conversa é interrompida com um choro compulsivo.

Ninguém se deu conta do Luis Cagarro, que se sentava na escada de pedra à entrada da adega, de copo na mão, lavado em lágrimas.

Dizia palavras indecifráveis e, no fim, mais claro, «mê ricos filhos... mê ricos filhos».

Foi então que Mestre Tarimba se sentou ao seu lado, tirou da algibeira um rolo de notas e entregou ao Luis.

– Hoje faço de pai natal. É o que me resta da venda do vinho madeira. Vai amanhã para o aeroporto e apanha o avião.

Três dias depois, Simão Timoneiro, todo surpreendido, encontrou Luis Cagarro na loja do Rezingão.

Podre de bêbado, Luis não conseguia responder à pergunta de Simão sobre o que fizera ao dinheiro.

Só lhe mostrou o pulso, que segurava um relógio reluzente.

E dispara:

– Belo natal. Não é de contrabando!

Natal de 2013

Crónica
Quando as nuvens se enrolavam, em forma de anel, na montanha do Pico, Mestre Tarimba, na sua pose majestática, recolhia-se na vigia das baleias da Gigana.
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