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rss  Vol. XVII - Nº 300         Montreal, QC, Canadá - quarta-feira, 16 de Janeiro de 2019
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Da Posse na Academia Catarinense de Letras, Cadeira 26

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

Uma grande emoção me abraçou quando, recentemente, recebi as insígnias académicas e assumi, humildemente, a Cadeira 26 da seleta confraria da Academia Catarinense de Letras, tomando assento ao lado de homens e mulheres que há noventa e três anos dignificam a história cultural de Santa Catarina. Por ver realizado o sonho urdido no meu caminhar sem pressa, bordado no rendado do mar, escrito na areia da praia, sussurrado ao vento que não esquece e que aqui deposito como os sonhos de que a vida se tece, tomando de empréstimo a expressão cunhada pelo escritor açoriano da Ilha do Pico, Urbano Bettencourt.

Faço, aqui, um recorte das palavras que fizeram parte do meu discurso «de entrada»:

Peço licença para atravessar os umbrais e entrar nesta Casa para a qual fui convidada e eleita por seus ilustres moradores ao fim de renhida disputa eleitoral. Peço licença, respeitosamente, para partilhar desse universo mágico onde artífices com sua pena-cinzel dão forma sensível à palavra, uma verdadeira obra de arte inscrita na poesia, na prosa, na ficção, na crónica, na memória, no ensaio e na crítica literária.

Busco a «palavra prima», a escrita e a do coração. A palavra precisa, forte, a pedra de toque, a palavra viva, epifania, tal qual cantou o poeta Lindolf Bell (1938-1998) «Procuro a palavra palavra/Esta que me antecede/e se antecede na aurora/ e na origem do homem» (in: Código das Águas, 1984). Já segredava Carlos Drummond de Andrade que «elas não nascem amarradas, elas saltam, se beijam, que se dissolvem/ no céu livre (...)» Certo está o grande Pablo Neruda ao escrever que tudo está na palavra... «uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu...»

Bendita dádiva da palavra! Quero-a bem perto de mim. Quero macerar, burilar, desvendar o seu sentido. Para afinal, encontrá-la vibrante, brava, suave, a transbordar sentimentos, pulsar vida e esbanjar humanismo em cada página escrita.

Graças à generosidade dos membros desta Confraria de Letras, honra-me suceder nesta Cadeira 26 – Sylvia Amélia Carneiro da Cunha, advogada, professora, jornalista, poeta. Nascida a 3 de novembro de 1914 no Rio de Janeiro. Mulher de grande sensibilidade estética resultado de sua longa vivência com as deusas da poesia. Assumo o compromisso de servir e engrandecer a Academia Catarinense de Letras para que cumpra a nobre missão no cultivo da língua vernácula e na promoção do desenvolvimento cultural de Santa Catarina. Acima de tudo, quero ser voz forte, vigilante, na defesa dos valores culturais, contribuindo para o livre acesso às diferentes formas de expressões artísticas e literárias, da criação à difusão dos elementos componentes do património cultural, bem como a sua preservação. Pelo estabelecimento de uma política cultural de Estado, democrática, que atenda aos anseios da sociedade catarinense.

Referencio o patrono da Cadeira 26, Lauro Severiano Muller e seu fundador Adolfo Konder, da qual passo a ser titular no dia de hoje até quando Deus assim o permitir. Consciente de que aqui permanecerei «ad immortalitatem» porque o espírito permanece, vivifica. Assim como, permanece imutável, o espírito embrião da Academia, gerado no Jardim de Academo, perto de Atenas onde, por volta do ano 387 a.C. Platão fundou a primeira escola de Filosofia .

O fundador da Cadeira 26 e seu primeiro ocupante foi Adolfo Konder eleito em 1927. Nasceu na cidade de Itajaí em 1884 e faleceu em 1956. Seu pai, Marcos Konder nasceu na Alemanha. A mãe, Adelaide Flores, de ascendência açoriana, da Ilha de São Jorge (descende de Antonio Breves e Maria Fernandes, imigrantes no Rio de Janeiro, em meados do século XVIII). Bacharel em Direito, jornalista, diplomata e político. Foi o 11o Governador do Estado de Santa Catarina (1926-1930).

Retorno à minha antecessora Sylvia Amélia Carneiro da Cunha, autora de quase uma dezena de obras, bem como de inúmeros artigos, crónicas e poemas publicados na imprensa. No seu ingresso na Cadeira 26 da Academia Catarinense de Letras, em 1968, disse o Almiro Caldeira de Andrada: «Na poética de Sylvia sobressai a forma... Sylvia, a escultora de sentimentos em jade de lirismo, o pintor que colariza instantes de vida em imagens trovadorescas.»

Um jeito de escrever que traz a marca inconfundível de sua paixão pelas palavras e do seu disciplinado labor poético – tudo na conta certa. A propósito, ensina-me poeta açoriano Eduíno de Jesus, radicado há muitos anos em Lisboa:

«Lélia, sabes como é um fato comprido nas mangas ou nas calças, largo na cintura, nos ombros? Em poesia é a mesma coisa. Um poema deve ter a extensão exata do tamanho do tema, senão fica a chocalhar no oco das palavras ou então transborda. Em ambos os casos há desperdício, e numa obra de arte tudo deve estar na conta certa.» Então, o milagre está mesmo na forma e sempre soube a nossa Sylvia Amélia em sua arte de poetar.

Estremeço na imensa responsabilidade de suceder a uma mulher de fibra, intelectual brilhante e muito admirada por sua sabedoria. Há vinte e dois anos uma mulher não era recepcionada na Academia Catarinense de Letras. Sou a sétima mulher, em 93 anos, a entrar nesta Casa. Segundo a crença mítica dos ilhéus, a sétima mulher é a Bruxa. Serei eu a Bruxa, atrevida?

Viajo no tempo e corro descalça no jardim do meu passado para um breve deambular... Sou de Tubarão. Fui menina inquieta, travessa. Sou uma mulher inquieta sempre na busca do mais saber e mais fazer.

Da juventude pelos pátios do tempo, chegam as recordações escolares do jornalzinho Aurora onde publiquei o meu primeiro artigo Dias das Mães, aos 10 anos e das tertúlias literárias no Centro Cultural João Teixeira Nunes.

De ontem e de hoje os laços que o tempo estreitou, os amigos e académicos: João Nicolau de Carvalho, Amilcar Neves, Flávio José Cardozo e Miro Moraes. Muitas histórias e vivências desde a Rua da Igreja onde vivi até os 18 anos. O resto é consequência da curiosidade insaciável do mundo pequeno da minha Tubarão. Foi aí que comecei a viajar nas asas do imaginário e por ali fui abraçando o mundo.

O tempo, como uma onda gigantesca impelida pelo nosso Vento Sul levou-me pelos caminhos do mar e me desaguou ou me regressou às ilhas açorianas dos meus ancestrais: Pico e Terceira.

Da esquina das Ilhas, insisto no diálogo plural entre os autores da literatura dos catarinenses e dos açorianos. Vozes de diferentes histórias, pensamentos e gerações que se aproximam numa convergência de escritas e no urgente debate sobre as nossas experiências, culturais e literárias, dentro e fora do nosso microcosmo, nas duas margens Atlânticas, no norte e sul do Equador.

O caminho pode não ser fácil, mas estarei sempre segura do destino.

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Crónica
Uma grande emoção me abraçou quando, recentemente, recebi as insígnias académicas e assumi, humildemente, a Cadeira 26 da seleta confraria da Academia Catarinense de Letras, tomando assento ao lado de homens e mulheres que há noventa e três anos dignificam a história cultural de Santa Catarina. Por ver realizado o sonho urdido no meu caminhar sem pressa, bordado no rendado do mar, escrito na areia da praia, sussurrado ao vento que não esquece e que aqui deposito como os sonhos de que a vida se tece, tomando de empréstimo a expressão cunhada pelo escritor açoriano da Ilha do Pico, Urbano Bettencourt.
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