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rss  Vol. XVII - Nº 299         Montreal, QC, Canadá - domingo, 23 de Fevereiro de 2020
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O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo e a Dama da dramaturgia brasileira

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

Para Fernanda Montenegro e sua «Bibiana Terra»

No escuro do cinema fui tateando à procura do meu lugar enquanto na telona projetavam-se as primeiras cenas do filme O Tempo e o Vento. Estanquei deslumbrada com a beleza do amanhecer no pampa. Admirei a indescritível magnitude das imagens pampeiras abundantes que se reproduzem desde o nascer do sol até esplêndidos ocasos de tirar o fôlego, onde um bando de intrépidos Quero-queros – sentinelas dos campos voam céleres cortando os céus e vencendo a terra amainada pelo minuano.

Neste cenário majestoso, panorâmico, cinematográfico abraçando a largueza rio-grandense desde as Missões Jesuíticas até à fictícia Santa Fé, réplica cénica erguida na região de Bagé, numa área de 10 000 m2, o diretor Jayme Monjardim desenvolveu o enredo do filme O Tempo e o Vento, baseado no romance «O Continente» (1949) que integra a trilogia O Tempo e o Vento, a grande obra do escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), a maior referência da literatura «do e sobre» o Sul do Brasil.

Começo passeando pela obra de Veríssimo, este gaúcho nascido em Cruz Alta que em 1931 aos 26 anos, já casado, se bandeou para Porto Alegre, o mesmo «Porto dos Cazaes» açorianos, migrantes do século XVIII. Sua estreia na literatura ocorre em 1932 com Fantoche, uma coletânea de contos. Clarissa (1933), seu primeiro romance, descreve o cotidiano de uma adolescente do interior vivendo em Porto Alegre.

O sucesso e o reconhecimento de Érico Veríssimo chegam em 1938 com Olhai os Lírios do Campo, de grande repercussão nacional e internacional. Autor consagrado recebeu o Prémio Machado de Assis em 1934 com a obra Música ao Longe e o Prémio Graça Aranha com Caminhos Cruzados em 1935. Em O Resto é Silêncio (1943) deixa pistas claras e basilares de O Tempo e o Vento (1949-1962), a história romanceada do Rio Grande do Sul que começou a escrever em 1947. Segue um terceiro momento de sua produção literária considerada universalista. As obras desse período são críticas e mordazes, dando ênfase a temas políticos: O Senhor Embaixador (1965), O Prisioneiro (1967) e ao realismo mágico em Incidente Antares (1971). O Prémio Jabuti ganha com O Senhor Embaixador em 1965 e o Troféu Juca Pato – Prémio Intelectual do Ano veio em 1968, outorgado pelo jornal Folha de São Paulo e União Brasileira de Escritores.

Érico Veríssimo publica Solo de Clarinete, o primeiro volume de suas memórias no ano de 1973. Falece em 1975 deixando a obra inacabada – Parece que o tempo maneia o vento.

Sem sombra de dúvida, a trilogia O Tempo e o Vento é a obra-prima de Érico Veríssimo e uma das mais vigorosas da literatura brasileira contemporânea. Tanto é que, em 1954, a Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra, lhe concedeu pela segunda vez o Prémio Machado de Assis.

O Tempo e o Vento narra a formação do Rio Grande do Sul, a constituição da sociedade gaúcha a partir da saga das famílias Terra e Cambará entre 1745 e 1945. A ideia de transitoriedade acompanha a narrativa cíclica das gerações.

Na verdade, a abrangência histórica é de quase trezentos anos desde a invasão espanhola à Colónia de Sacramento em 1680 até ao fim do Estado Novo em 1945. Tempos assinalados pelas relações de poder das oligarquias, por guerras internas entre irmãos e as guerras de fronteira. Obra épica com 2 500 páginas dividida em três partes: O Continente  (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago  (1961). Enredo regionalista memorável onde a ficção se cruza com episódios e personagens que marcam a história do Sul do Brasil: a Revolução Federalista (1893-1895), a Guerra dos Farrapos (1835-1845) e a Guerra do Paraguai (1864-1870).

Érico Veríssimo faz a diferença entre os autores brasileiros cuja tónica de sua escrita é o realismo mágico, o regionalismo e liberdade linguística, como Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego e Guimarães Rosa. Porque enquanto estes escritores se debruçam sobre o imaginário do sertão agreste, das lutas e dramas do nordeste brasileiro, Veríssimo destaca-se por retratar o Sul do Brasil, divulgando a cultura, os costumes do pastoril sulista, do gaúcho gaudério, livre, destemido, machista, amante; da mulher, a beleza da prenda, a valentia da guerreira, a força no sofrimento e a submissão da obediência – «tipologia guasca dos pagos indomáveis». Retratos de uma região rica, de raízes vincadas nas campanhas, pampas e coxilhas, da chama crioula da tradição, da história de um povo escrita pela brava gente sulina.

Jayme Monjardim, no filme O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, segue um caminho épico romântico ao fazer a adaptação do universo ficcional de O Continente, a primeira parte da trilogia. Apresenta a questão política, as lutas separatistas, a formação histórica do Rio Grande do Sul de forma ténue, quase como pano de fundo. O roteiro traz a assinatura dos gaúchos Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas renomado cineasta, autor do argumento de A Antropóloga, o filme de Zeca Pires que narra uma viagem no tempo desde as Ilhas açorianas Faial e Pico até à Costa da Lagoa na Ilha de Santa Catarina.

Amei o filme, a poesia épica e romântica de Jayme Monjardim que sabiamente entregou o fio condutor da narrativa a uma mulher. A saga é contada a partir do olhar feminino de Bibiana Terra, personagem vivida por Fernanda Montenegro, a dama da dramaturgia brasileira. Atriz de grande envergadura, Fernanda veste a personagem de uma Bibiana forte, eloquente e com inegável mestria, conduz a narrativa da trama recuando no tempo um século para contar, lavada de ternura, as memórias de Bibiana e, talvez, as minhas como leitora de O Tempo e o Vento.

Claro, que o tempo de noventa minutos não consegue mostrar as várias gerações e os saltos temporais do livro. No entanto, não se pode negar que a essência de Érico Veríssimo está ali, enquadrada em cada cena de grande beleza e na arquitetura de personagens absolutamente marcantes que, a velha Bibiana – da octogenária atriz, com talento inigualável, faz emergir no desenrolar da narração: a saga da avó Ana Terra (Cléo Pires) e o amor pelo índio Pedro Missioneiro (Martin Rodriguez); a história da própria Bibiana e o seu romance com o atrevido aventureiro Capitão Rodrigo Cambará (Thiago Lacerda).

Uma história épica, uma história de um grande amor contada com forte cadência e no ritmo da passagem das gerações pela magistral Fernanda Montenegro, na pele da velha Bibiana, ao fantasma do seu Capitão Rodrigo que voltou para buscá-la.

«Uma nova raça sairá desta terra. Nada impedirá o meu caminho. Nem os castelhanos, nem o tempo, nem o vento. Isso eu juro.»

Juramento de Ana Terra que o tempo e o vento avalizaram.

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Crónica
Para Fernanda Montenegro e sua «Bibiana Terra»
O Tempo e o Vento de Erico Verissimo.doc
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