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rss  Vol. XVII - Nº 299         Montreal, QC, Canadá - domingo, 23 de Fevereiro de 2020
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Literatura Açoriana: um bom motivo para conhecer os Açores

Por Patrícia Martinho Ferreira

No canal (FaialPico) também há dias em que o Sol aquece e faz bom tempo. Nesses dias em que o céu se impõe com o seu azul luminoso, o Pico nem sempre se mostra e o que dele se consegue ver, a partir da marina da Horta, é a extensa base e, com muita sorte, o cume – o pico do Pico. A montanha imponente está, porém, lá, à espera de que as nuvens deem licença e a deixem exibirse na totalidade. Ao atravessar o canal na sua direção, a extensão da base desaparece e a sensação de que estamos a entrar em terreno sagrado apoderase de nós. A iniciação ao mundo mágico dos picoenses começa no mar ou na ilha em frente, talvez seja por isso que, para o poeta Manuel Tomás, os «relógios do Faial têm sempre uma hora certa / a hora de partir para o Pico».

Licencieime em Estudos Portugueses sem nunca ter ouvido falar de literatura açoriana ou de açorianidade e talvez a culpa seja minha, que deveria ter tido curiosidade intelectual para procurar informação de forma autónoma e ativa... Mas não será a minha experiência parecida com a de tantos outros colegas igualmente professores de Português? Lamento que o cânone académico português não contemple textos e autores relevantes. Na verdade, depois de ter feito um curso de Literatura Açoriana na Universidade de Brown (no outono de 2012) e de, neste verão, ter visitado os Açores, sintome completamente redimida dessa falha.

Nas primeiras aulas sobre Literatura Açoriana, após algumas palavras sobre o enquadramento históricogeográfico do arquipélago, o Professor Onésimo Almeida chamounos a atenção para o termo açorianidade, cunhado por Vitorino Nemésio na década de 30, para designar a mundividência insular que caracteriza os açorianos. Mundividência essa profundamente marcada pela perceção e pela relação que estes mantêm com o espaço. É neste âmbito de ideias que se entende o argumento de Nemésio: no contexto açoriano, a geografia «vale outro tanto como a história». Ora, este verão, quando cheguei a Ponta Delgada para iniciar uma visita de estudo a quatro das ilhas açorianas, foram precisamente as conversas dessas primeiras aulas sobre a importância da posição geográfica dos Açores nas vivências, formas de estar e de ser dos ilhéus que me vieram à memória.

Visitei as ilhas de São Miguel e Terceira há alguns anos, pelo que já sabia que me esperavam paisagens naturais de tirar o fôlego, um céu em constante mutação e um mar multicolor (e muitas vezes revolto, tal como o descreveu Dias de Melo no romance Mar pela Proa). Porém, se o meu primeiro olhar, numa visita fugaz, foi o da turista do continente que se deixa absorver totalmente pela natureza paradisíaca, desta vez senti que as minhas motivações eram muito diferentes e que não deveria visitar os Açores, mas sim tentar vivêlos, isto é, conhecer histórias, compreender geografias, privilegiar o contacto humano e construir diálogos entre os textos dos autores açorianos que me tinham sido dados a conhecer e o que ia vendo, ouvindo, cheirando, provando, tocando e sentindo. E, de facto, nos encontros com os diversos escritores, professores, artistas e promotores da cultura açoriana, a consciência insular dos açorianos de que tanto tínhamos falado nas aulas foi ganhando rosto e contornos precisos, foi saltando dos textos para as emoções, das palavras para a voz…

Embora existam marcas comuns a todas as ilhas – onde todos os açorianos certamente se reconhecem –, este périplo humano mostroume que cada uma delas é um microcosmo, com uma dinâmica, uma geografia e uma história muito próprias. De facto, as condições e condicionantes geográficas e a posição que cada ilha ocupa no contexto arquipelágico determinam e marcam intrinsecamente a história dos Açores. E a minha maior descoberta foi talvez ter percebido que os Açores estão marcados por uma dupla condição geográfica: por um lado, a distância entre o Arquipélago e o Continente (o que, em alguns textos literários, se reflete, por exemplo, no tema do isolamento) e, por outro, a distância a que cada uma das ilhas está das outras, bem como as relações que estas mantêm entre si. Os Açores são, no fundo, compostos por vários pequenos Açores. A isto acresce ainda o facto de o arquipélago estar a meio caminho do continente NorteAmericano, fazendo com que a emigração para a «América» se transforme numa das características mais marcantes da açorianidade.

Estou consciente de que, ao formular este raciocínio, não estou propriamente a ser inovadora nem pioneira, mas apenas a enfatizar a importância da Geografia no mundo da açorianidade. E isso é tanto mais visível quando se chega ao grupo central: estando no Faial a ver o escondeesconde do Pico e no Pico a imaginar os encantos das cores e formas de São Jorge, o arquipélago ganha inegavelmente uma áurea de mistério e cumplicidade indescritíveis. A mesma sensação de encantamento repetese quando enganamos a montanha mágica e sobrevoamos o seu cume ou quando nos deixamos envolver pelas cores basálticas dos Capelinhos e nos lembramos de que a natureza vulcânica dos Açores está em constante metamorfose. Foi nesses instantes de proximidade visual intra e interilhas que as palavras de Nemésio fizeram todo o sentido: «Como as sereias temos uma dupla natureza: somos de carne e pedra. Os nossos ossos mergulham no mar.»

Literatura
No canal (FaialPico) também há dias em que o Sol aquece e faz bom tempo. Nesses dias em que o céu se impõe com o seu azul luminoso, o Pico nem sempre se mostra e o que dele se consegue ver, a partir da marina da Horta, é a extensa base e, com muita sorte, o cume – o pico do Pico. A montanha imponente está, porém, lá, à espera de que as nuvens deem licença e a deixem exibirse na totalidade. Ao atravessar o canal na sua direção, a extensão da base desaparece e a sensação de que estamos a entrar em terreno sagrado apoderase de nós.
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