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rss  Vol. XVII - Nº 299         Montreal, QC, Canadá - terça-feira, 14 de Julho de 2020
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Neto dum soldado português de Moncorvo

O artista decorador Claude de Gouveia quer mobilar o mundo

Jules Nadeau

Por Jules Nadeau

Se subir a pé o boulevard Saint-Laurent (ao se aproximar de Saint-Viateur), vai ver, na porta da loja Olam, o nome Claude de Gouveia. Patronímico puramente português! Um delicioso expresso está à sua espera lá dentro: não amargo! Mas sobretudo móveis de todas as cores. «Olam, decoração de interior».

Genial o conceito «café + decoração de interior». Alguém haveria de pensar nisso. «Eu não queria passar dias inteiros sem ver entrar um único cliente. Assim, há sempre gente. E eu sou um apaixonado da cozinha. Fiz um menu de sanduíches e de saladas. Simples mas muito convivial», filosofa o acolhedor patrão a uma das sólidas mesas de madeira onde conversam alguns convivas. Na luz generosa do meio-dia. A sopa de ervilhas-cenouras-chouriço passa bem o teste. A sanduíche de salmão com queijo branco prolonga o prazer do paladar e dos olhos. Salada temperada com azeite (sem vinagre). Pastéis de nata decentes. O café é uma mistura feita por medida da marca Brossard. Música em surdina.

Longa experiência

Claude Gouveia portugues2.jpg
O nome Olam tem um sentido em francês e eu hebréu, ao mesmo tempo que faz pensar em «olá!» em português.
Foto  - LusoPresse

A loja é espaçosa. Uma grande superfície. Três empregados. O artista decorador com mais de 20 anos de experiência descreve-me o essencial da profissão e do seu comércio. «Reciclamos muito com os artesãos quebequenses. É importante de o dizer. Sempre trabalhei com artesãos. Isso permite-me de criar... de estar à escuta do cliente.» As realizações de Olam? A grande sala VIP do casino do Mont-Tremblant. O restaurante Richmond da rua Notre-Dame. O auberge Saint-Gabriel. O hall de entrada e os quartos do hotel De La Montagne. Rústico modernizado. Estilo gustavien.

Porquê Olam? «Lido ao contrário, é Malo, como Saint-Malo, pelos primeiros Franceses que aqui chegaram. Por Jacques Cartier. O Quebeque. Em hebreu, significa universo. Temos a ambição de mobilar o mundo», diz a brincar o patrão. (encontro aí mesmo o amigável olá português.) Para a foto do LusoPresse o sexagenário, possuidor de uma bela cabeleira grisalha, veste o elegante casaco de cabedal castanho. Depois, enrola duas vezes à volta do pescoço o cachecol de riscas vermelhas. Para acentuar o seu lado de artista descontraído.

Diplomado de Belas Artes da excelente escola de Casablanca, depois das de Rouen et de Beauvais, Claude de Gouveia enche depressa o seu CV. Com 22 anos, depois do serviço militar, faz do porta à porta para vender misturadores duma sociedade alemã «muito rigorosa» que sabia enquadrar bem o pessoal. «Foi engraçado. Esta experiência ensinou-me muito comercialmente.» Depois começou nos móveis numa grande sociedade: topo de gama, cozinhas integradas, para uma clientela com meios. Com a idade de 27 anos, com um amigo de Beauvais, lança a sua primeira companhia de planeamento de espaços.

Capaz de reconstruir?

O decorador de Casablanca decidiu imigrar para o «Quebeque francófono» há apenas oito anos. Nas pegadas do filho osteopata e de amigos de infância de há 30 anos. Em parte por causa da língua, mas sobretudo como um desafio, insiste. «Em França, quando quis montar este projeto, disseram-me que era velho demais. Que não tinha dinheiro que chegasse. É duro, não?» (Longa pausa.)

Aos 55 anos, em vista de montar Olam, Claude de Gouveia vende a casa para arranjar um pouco de capital. Deixa a França com a esposa Isabelle Baillière (uma autêntica parisiense) e as filhas. Associa-se com Charles Abitbol, amigo de infância de Casa que lhe tinha prometido: «Estou pronto para investir contigo». A ideia de aceitar o desafio era incontornável. «Queria saber se era capaz de voltar a construir.»

Na minha vida, país de partilha, o Marrocos foi uma bela passagem. Na minha profissão, fiquei embebido das suas cores quentes excecionais. Terra vermelha. Argila. Flor de laranjeira. Perfumes. Nasci em Casablanca à beira do mar. Amo o azul do mar que me repousa. Por vezes, isso falta-me aqui», acrescenta o «criador de espaços» para evocar a sua terra de origem.

A França é o teu país?

A mãe era de confissão judaica. O pai, diretor dum centro de higiene, formava jovens quadros nesse serviço público. Em 1955, o Marrocos independente inverte a prática. A partir de agora a prioridade é para os Marroquinos! Por causa do insubstituível trabalho de enfermeiro do pai, a família continua no reino árabe até 1963. Mas, era de esperar: como os Portugueses em Angola, um dia, disseram-nos: ala!», acaba por confessar o empresário.

De malas na mão, deram-nos ordem de dizer adeus à Cidade branca. Mas o acolhimento do outro lado do Mediterrâneo não foi fácil. Era o momento errado, numerosos Pieds-noirs acabavam de reintegrar o Hexágono depois da sale guerre da Argélia. «C'était la galère!» O jovem Claude com 13 anos foi parar, primeiro a Pau (Pirenéus) com os pais, os dois irmãos e as duas irmãs. Depois, direção Pas-de-Calais onde vive a avó materna – viúva de um Português.

Sem insistir sobre as vantagens e as misérias das suas raízes duplas, o homem de negócios lembra-se do lado desencorajador. «Em Marrocos, diziam-me que a França era a mãe pátria, é o teu país. Em França diziam-me: o que é que vens aqui fazer? Com 13 anos, eu não compreendia...» Tudo isto não parece tê-lo traumatizado, mas encorajou-o sem dúvida a pôr o contador a zero. No seu novo continente. «Não sei se as pessoas se apercebem... alguém que imigra... todos os esforços que são precisos quando se é imigrante.»

À minha última pergunta, Claude responde: «Nunca! Cada vez que tentei ir a Portugal, houve sempre alguma coisa. Uma barreira! Por outro lado, estive em Macau durante três horas.»

(www.olaminterieur.com)

 

Claude de Gouveia

Procura o avô português

Por Jules NADEAU

Único na sua família a estar interessado nesta procura, Claude de Gouveia sonha com achar a traça do avô. Português morto em França durante a Grande Guerra. «Sou um apaixonado por esta pesquisa», confessa-me, explicando que a avó e o pai pouco lhe disseram sobre este jovem que ele qualifica de «belo homem». Um belo mistério!

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Com a esposa Élise Beaugrand, o avô em uniforme José Maria de Gouveia Ferreira pouco tempo antes da sua partida em direção às linhas inimigas. Foto centenária cedida graciosamente ao LusoPresse por Axelle de Gouveia (em França).

Os factos resumem-se em poucas palavras. Nascido na vila mineira de Torre de Moncorvo (distrito de Bragança) em 1899, o soldado José Maria de Gouveia Ferreira teria morrido no campo de batalha em solo francês durante a Primeira Guerra Mundial. Ele fazia parte dos 55 165 militares do Corpo Expedicionário Português. Com a idade de 19 anos apenas quando a morte o ceifou.

Há muito tempo, o neto Claude tentou saber mais interrogando a avó, mas «ela fez-se discreta» sobre o seu homem, conta ele. Segundo os seus cálculos, ela ficou grávida com a idade de 17 anos. O seu pai também não lhe disse muito, evocando mesmo a vaga possibilidade que ele tenha sobrevivido à guerra. Partido sem deixar morada para o Brasil? Talvez, mas não há nada de muito claro. Também nenhuma informação do lado de Moncorvo, onde Claude escreveu (em francês) uma única carta – que ficou sem resposta.

O Corpo Expedicionário

O que é que sabemos sobre Torre de Moncorvo? No passado, esta vila da região do Douro foi um centro de atividades judaicas. Por causa da perseguição em Vila Nova de Foz Côa, vários cristãos-novos refugiaram-se em Moncorvo e formavam uma comunidade distinta em 1917, segundo uma fonte enciclopédica. Economicamente, os seus ricos depósitos conferiram-lhe o título de «capital do ferro». Para pesquisas genealógicas aprofundadas, era preciso fazer um inquérito nos arquivos das 17 freguesias.

A existência do famoso Corpo Expedicionário Português (CEP) não tem nada dum mistério. Foram 55 165 bravos que foram dar uma ajuda aos franceses em 1916. O Écho du Pas-de-Calais (2008) cita estes números: 2 160 homens aí perderam a vida, 5 224 foram feridos e 6 678 feitos prisioneiros dos Alemães. Marie-Claude Muñoz (2009) acrescenta o número de «13 000 trabalhadores civis na indústria e na agricultura». Ela prossegue: «O primeiro contingente do CEP desembarcou em Brest a 2 de fevereiro de 1917 e ingressou na frente da Flandres onde foi reforçar o dispositivo aliado.» Digno de menção, a batalha de La Lys foi desastrosa para as tropas do General Gomes da Costa.

Associações, investigadores dos dois países e apaixonados de genealogia continuam a pesquisar a memória coletiva. Os descendentes destes combatentes mantêm a recordação graças ao monumento de La Couture, da capela de Nossa Senhora de Fátima e de cemitérios como o de Richebourg-L'Avoué. Claude de Gouveia percorreu ele próprio todos os lugares de sepulturas do Norte da França à procura do seu antepassado.

O LusoPresse lança um apelo a todos os apaixonados de história que possam ajudar o nosso amigo Claude no seu inquérito.

Reportagem
Se subir a pé o boulevard Saint-Laurent (ao se aproximar de Saint-Viateur), vai ver, na porta da loja Olam, o nome Claude de Gouveia. Patronímico puramente português! Um delicioso expresso está à sua espera lá dentro: não amargo! Mas sobretudo móveis de todas as cores. «Olam, decoração de interior».
Claude de Gouveia.doc
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Acordo Ortográfico

O que é o novo acordo?

O LusoPresse decidiu adotar o novo acordo ortográfico da língua portuguesa.

Todavia, estamos em fase de transição e durante algum tempo, utilizaremos as duas formas ortográficas, a antiga e a nova.   Contamos com a compreensão dos nossos leitores.

Carlos de Jesus
Diretor

 
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