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rss  Vol. XVII - Nº 297         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 05 de Junho de 2020
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S. Jorge da Beira, um presépio no Açor

Adelaide Vilela

Por Adelaide Vilela (texto e fotos)

Serra do Açor:

Divulgar a nossa terra é tarefa obrigatória. Dizem que é muito antiga, por isso a Fina da Mina pesquisou e trouxe-nos este magnífico resultado: «Desconhecemos as origens de São Jorge da Beira. No entanto, pensa-se ser uma povoação antiga. Uma terra de pastores, carvoeiros, ferreiros. Terá servido de entreposto comercial de 2ª categoria às rotas comerciais que pela Serra de Cebola passavam (Rota da Lã, Rota do Sal, Carvão – Estradas Romanas...).

O topónimo cebola é referido num documento do século XIII, mais precisamente no ano de 1245, que «dicta hordem outra doação de huma povoaçam em termo de Covylhãa que se chama Cassegas.» Nesta doação à Ordem do Templo e em referência ao seu limite geográfico é escrito: «(…) inde sicut dividit cum aerada et etiam sicut tendit ad serram de zebola usque ad sumum.(…).»

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Sou beirã daquela serra, com sentido de orgulho e de pertença! Minha mãe foi cozinheira, parteira e costureira e meu pai o mineiro de serviço até ir para Angola. Ambos trabalhavam para o sustento dos seus 6 filhos. A cegonha trouxe-me em 5º. lugar. Deram-me simplesmente a graça de Adelaide, como a avozinha paterna. Há quem diga que sou a cópia fiel da matriarca, por ter um caráter decisivo e altruísta. Outras vozes se levantam: «Herdastes a generosidade da tua avó e o feitiozinho dela». São tudo referências da aldeia, mimos que me batem ao coração e entram instantaneamente, como se chegassem na palma da mão dos meus avozinhos. Três deles falecerem era eu ainda pequenina. No dia em que fiz nove meses partiu a minha avozinha materna. Até dizem que o bebé Adelaide a ajudou a apaziguar a doença de coração que viria a finá-la, no meio da sua vida na terra. Sendo assim, conheci apenas o avô materno e dele trago ainda recatadas lembranças e saudade.

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A nossa colaboradora, Adelaide Vilela, em São Jorge da Beira, terra que a viu nascer.

Esta aldeia dos meus ancestrais e aquela que me deu luz, é precisamente a terra mãe das Minas da Panasqueira e de outras anexas pertencentes à freguesia. Só ali vivi 10 anos mas quando por lá passo adoro trepar por aquele deslumbrante presépio agarrado à montanha do Açor e subir ao Picoto, à alta e bela cordilheira da Serra da Estrela! A Serra do Açor é um dos Ex-líbris da aldeia de S. Jorge da Beira. A altura dá lugar a uma paisagem sumptuosa, airosa e saudável e proporciona aos caminhantes a oportunidade de apreciarem a exuberante vegetação de cada dia. Na primavera o rosa das carquejeiras e o amarelo das moiteiras fazem daquele lugar um paraíso sem igual. O povo de S. Jorge da Beira respira e compõe a vida de geração em geração, com uma vontade intrínseca de preservar seus usos e costumes. No decorrer dos anos vimos mudar a face das mentalidades, a emigração também se juntou à evolução dos tempos e das gentes para que outro clima nascesse nos confins da Beira Baixa. Por outro lado a aldeia viu e sentiu-se diminuída, centenas de pessoas emigraram na década de 60. Deu-se o vaivém do povo e muitas coisas boas foram abandonadas. Assim sendo, com o aparecimento do museu, mandado fundar pelo Sr. José Romão e por outros elementos que compunham a Junta de Freguesia daquele ano, a aldeia de S. Jorge tornou-se a imagem de marca que o couto mineiro necessitava. Quem visitar esta terra mineira pode agora ficar a saber tudo sobre o povo e o seu modo de ser e de viver. O museu, para além de servir para arrecadar e conservar todos os utensílios usados pelas gentes de Cebola abraça a cultura ancestral do povo e seus valores.

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Isaura e Alfredo Gregório, tios da nossa repórter, e residentes em S. Jorge.

Ali ainda se preserva a Fé do povo à moda antiga. Se estivermos atentos damo-nos conta como o povo pára às 18h00, para rezar ao toque das Ave-marias. O som chega-nos da capela antiga, de Nossa Senhora de Fátima, linda e muito bem conservada! Vizinho de Nossa Senhora é O Sagrado Coração de Jesus, que vive há muitos nos no alto da sua varanda. Quando por ali passamos o olhar não mente, emocionamo-nos ao ver o Rei abrir os braços e abençoar todos os que entram na Igreja, do outro lado do ribeiro da ponte. Não muito longe, em frente, vive aquele santo lugar onde me batizaram.

De quando em vez lá apareço em São Jorge da Beira para matar saudade. Também sucede apanhar alguns sustos. Foi o que aconteceu num certo entardecer, quando um raio de um gato rompe a toda a pressa por entre os meus pés, quase me deitou a baixo. Sem saber de onde surgiu, pensei... alguma alma penada se cruzou no meu caminho. Mais tarde li no site Web de Cebola o que o Sérgio Braz nos conta acerca do gato doido. Será o gato maluco ou é a tradição?

«Quando era garoto, ao cimo da rua da minha avó, ao Rodeio, era colocado um mastro em madeira (pinheiro), envolto em palha e rosmaninhos. No fundo era colocado um molho de rosmaninhos. Depois de caçarem um gato, colocavam-no dentro de um cântaro de barro e atavam-no ao topo do mastro. Era então aceso o molho de rosmaninhos. O fogo propagava-se pau acima, ardia o rosmaninho e a palha, aquecendo o »cu" do gato. O cântaro caia no chão, partia-se e o gato fugia a sete pés». E o Sérgio diz ainda que nunca entendeu bem a finalidade desta tradição mas que faz parte das suas lembranças, nas noites de S. João em S. Jorge da Beira.

Susto passado, coração pausado, numa inesquecível manhã sentei-me a descansar nas escadas dos meus pais, respirando o cheiro das flores silvestres, tentava deixar-me conquistar pelo azul do céu e pelo verde das montanhas, enquanto escutava o cuco para me inspirar. Tudo o que começava a escrever me soava muito bem ao ouvido e à alma. Era uma vez uma moura encantada... chorava e ria numa das galerias das minas da Panasqueira. Tinha um filão de ouro na mão! De repente algo muito perturbador me derrubou o pensamento. Muitas vozes se ouviam (aflitas) ao mesmo tempo: «tragam água, muita água, cordas, muitas cordas para subir os baldes do ribeiro até cá em cima ao alto da estrada.

Logo me dei conta que havia fogo do outro lado. A casa estava em chamas... nunca pensei voltar a ver o branco e o vermelho daquela moradia. Gritei até perder a voz: já chamei os bombeiros. Já boto a caneta e o papel ao diabo e vamos apagar as labaredas.

Não levou 5 minutos e o povo formou um cordão humano. Apagaram o fogo da casa da aldeia que só teve tempo de consumir o forro, ou seja o caniço como lá se costuma dizer.

Quando chegaram os bombeiros já o sino havia calado o seu desdém. Depois, não viram fogo algum. Perguntam: Onde é o fogo? Já o apagamos, disseram em coro. Aqui nada nos escapa. O comandante disse então ao dono da casa que nunca tinha visto um caso destes nem uma gente tão eficaz como a de S. Jorge da Beira.

Constatei naquele ano que não há gente como a minha, nem gastronomia como a nossa. Ainda hoje fazem em S. Jorge da Beira as célebres couves com feijões, as ervas, (esparregado) os chouriços, o grão-de-bico com ovo, as deliciosas filhós, arroz doce, tigelada, os broeiros, etc. Todas estas delícias e mais algumas podeis prová-las um dia ao visitar S. Jorge da Beira e as Minas da Panasqueira.

As Minas da Panasqueira são das maiores e mais profundas do mundo. Parto à aventura e conto levá-los por aqueles 12 mil quilómetros de túneis escavados por mãos de heróis que arriscavam a vida para ganhar o pão debaixo do chão do ouro negro, o volfrâmio. Estivemos lá para contar: Sigam-me na próxima edição do LusoPresse.

Reportagem
Divulgar a nossa terra é tarefa obrigatória. Dizem que é muito antiga, por isso a Fina da Mina pesquisou e trouxe-nos este magnífico resultado: «Desconhecemos as origens de São Jorge da Beira. No entanto, pensa-se ser uma povoação antiga. Uma terra de pastores, carvoeiros, ferreiros. Terá servido de entreposto comercial de 2ª categoria às rotas comerciais que pela Serra de Cebola passavam (Rota da Lã, Rota do Sal, Carvão – Estradas Romanas...).
O bom trabalho S Jorge.doc
yes
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