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rss  Vol. XVII - Nº 297         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2020
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Editorial

Rotundas e imaginação

Carlos de Jesus

Por Carlos de Jesus

Neste domingo o Quebeque vai votar nas autárquicas. Apesar de toda a celeuma que se tem levantado à volta da corrupção e má gestão do erário público municipal (e não só), tal como a Comissão de Inquérito da Juíza Charbonneau, a investigação policial da equipa «Marteau» e a ação coordenada da UPAC (Unité permanente anticorruption) têm vindo a demonstrar, apesar destes escândalos que já puseram na prisão várias figuras gradas de alguns municípios quebequenses (e não dos menores), o que deveria deveras inquietar os eleitores, mas particularmente os que, de ano para ano, têm vindo a ver os impostos camarários aumentar desmesuradamente, muito para além das taxas de inflação, apesar de tudo isto, se acreditarmos nas últimas sondagens vindas a público, o nível de participação nestas eleições pouco mais significativo vai ser que nos escrutínios precedentes, ou seja entre 40 e 50 porcento dos cidadãos com direito a voto.

Como explicar esta indiferença do eleitorado vis-à-vis um órgão político e administrativo de primeira instância e do qual depende, quase em linha direta, o bem-estar físico das populações, visto que é na municipalidade que se resolvem as questões imediatas de primeira necessidade, como o fornecimento da água, o evacuamento dos esgotos, o alcatroar das ruas, a pavimentação dos passeios, o embelezamento de parques e jardins, a construção de centros comunitários culturais e bibliotecas, assim como a circulação urbana e os estacionamentos que tanto nos podem facilitar a vida como no-la complicar.

Esta indiferença situa-se a vários níveis. Primeiro, o absentismo desmesurado dos jovens eleitores que alguns põem na conta do comodismo e do desinteresse pela res publica, tanto mais que poucos são os proprietários que se encontram nesta fatia etária e a quem a coisa dói. Outros põem a indiferença na conta do cinismo ambiente. «Quem quer que se candidate é para se servir não para servir», dizem. Ainda os há que se queixam da falta de escolha. «Bonnet blanc, blanc bonnet». Esta última asserção não deixa de ter um certo fundamento. Quando não se sabe por quem votar, vota-se com os pés, ficando em casa.

No caso de Montreal a escolha é deveras confrangedora. Todos os candidatos se anunciam como cheios de boas intenções, portadores de soluções miraculosas que não convencem. Mas nenhum com um projeto deveras aliciante, um único projeto que fosse, que pudesse resolver alguns dos inúmeros desafios com que se debatem os montrealenses diariamente. A título de exemplo, os engarrafamentos monstros e endémicos de que sofre Montreal. Todos dizem que vão criar melhores meios de transporte, vias reservadas para os autocarros ou, até, linha de carros elétricos, como nos tempos antigos. Mas tudo soluções a longo prazo e dispendiosas quando a resolução do problema é mais que urgente. E nenhum ainda se lembrou de aplicar aqui, uma solução simples e pouco dispendiosa que iria poupar tempo e dinheiro não só à câmara como aos utentes e que já fez as suas provas por toda a Europa. Referimo-nos às rotundas rodoviárias que fazem com que o trânsito seja fluído, que se evitem as despesas com semáforos e sinais de stop (onde o espaço o permita, claro), fazendo assim que não se desperdice gasolina a parar a todas as esquinas e aumentando a poluição e o smog que, já está provado, é cancerígeno, sem falar do estado de tensão permanente dos automobilistas e mesmo dos peões. Mas não. Fazem-se cruzamentos em forma de esparguete, como a junção da Pine com a Parc, ou um emaranhado de pontes e viadutos como a circular de Rockland sobre a Metropolitaine. Para quê fazer simples quando se pode fazer complicado!

Já ouvimos argumentar que os condutores norte-americanos não estão preparados para as rotundas, que um tal sistema criaria muita confusão e acidentes. Ora quando sabemos que na Europa a maior parte do parque automóvel tem transmissão manual, o que exige ao automobilista não só atenção ao trânsito como às mudanças, e que todos se adaptaram, como é que por aqui, com a grande maioria dos carros equipados de transmissões automáticas, os condutores e condutoras não se adaptariam? Serão por acaso os ases do volante de cá menos exímios que os seus congéneres do outro lado do Atlântico?

O problema não está nos automobilistas, está nos líderes políticos e nos arquitetos e engenheiros urbanos não estão para fazer frente nem à educação dos condutores nem às causas reais dos engarrafamentos. E, quando estão, fazem-no erradamente. Estamos a lembrarmo-nos de dois casos concretos. Uma rotunda, em Montreal, encravada, a dois passos a norte da 40, entre a 15 e a linha de caminho-de-ferro de Deux-Montagnes, que tem, à entrada de cada acesso, um painel a dar prioridade a quem entra na rotunda em vez de a dar a quem já lá circula. Como diria o alentejano, isto é obra de engenheiro! Um outro, fora de Montreal, para os lados de Saint-Jean-sur-le-Richelieu, uma rotunda bem desenhada, com prioridade para quem circula nela e tudo, mas com um maciço arquitetónico e floral imponente no centro que impede a vista de quem nela circula. Isto só prova que os engenheiros rodoviários destas bandas ou nunca viajaram na Europa ou não percebem patavina de rodovia.

Este é apenas um dos aspetos da má governação ou da falta de imaginação dos líderes políticos. E dizer que já houve tempo em que um candidato a «maire» de Montreal foi eleito com a promessa de criar uma ilha artificial no meio do rio São Lourenço. Isto num país onde não faltam ilhas nem lagos. E que foi eleito e criou a ilha. É a ilha de Santa Helena, onde foi feita a Exposição Universal de Montreal de 1968. Chamava-se Jean Drapeau. Só que naquela época a juventude gritava «l'imagination au pouvoir»! E a juventude tinha a força do futuro pelo seu lado.

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