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rss  Vol. XVII - Nº 297         Montreal, QC, Canadá - domingo, 23 de Fevereiro de 2020
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Carta a Poiares Maduro

Exmo. Sr. Ministro,

Quando entrar, nos próximos dias, nas instalações da RTP-Açores, benza-se e olhe para cima, por precaução, para não lhe cair alguma trave ou tábuas de forro, como já aconteceu, devido ao estado de podridão a que Lisboa votou o canal regional.

Depois, quando entrar no estúdio, que é uma antiga oficina de automóveis adaptada para o efeito, repare na quantidade de equipamentos obsoletos e no monte de cenografia à moda antiga.

Compare, depois, com os equipamentos digitais de topo de gama e cenografia toda virtual, dos estúdios de Lisboa e Porto.

Certamente que irá ver à sua volta muita gente desmotivada, no meio de tanta tralha analógica, que são os «restos» que Lisboa nos manda.

Interrogar-se-á sobre as razões por que se chegou a este estado.

Eu já lhe explico.

O ministério que o Sr. agora tutela entregou à RTP, em Lisboa, desde 2003, cerca de 2 mil milhões (exatamente Sr. Ministro, 2 biliões) de euros para os canais do Grupo se transformarem numa fénix renascida.

Os projetos de investimento para esta profunda renovação chamavam-se mesmo «Planos Fénix», da autoria do então Presidente da RTP, Dr. Almerindo Marques.

Renovaram os canais de Lisboa de alto a baixo, construíram o novo complexo de estúdios na Avenida Marechal Gomes da Costa, juntaram a RTP e RDP no novo edifício, renovaram o Centro de Produção do Porto, depois chegou a vez das inúmeras Delegações espalhadas pelo país, mais tarde o Centro Regional da Madeira e ainda restaram uns trocos para investir numa dita cooperação com as televisões dos Países Africanos de Língua Portuguesa – um privilégio dos PALOP's que raramente chega às RALOP’s (Regiões Autónomas de Língua Oficial Portuguesa).

Quando chegou a vez dos Açores... já não havia dinheiro!

E andamos nisto há mais de uma década, de Pilatos para Caifás, sem que ninguém se responsabilize para repor este calote.

O «Plano Fénix» para os Açores incluía um investimento na ordem dos 2 milhões de euros, abrangendo um novo edifício para juntar a RTP-Açores, RDP-Açores e Lusa, para além da necessária renovação tecnológica, em linha com os restantes canais.

A Administração do Dr. Almerindo Marques veio de armas e bagagens, por mais de uma vez, a este arquipélago, com alguns técnicos de Lisboa, para escolher terrenos, definir os novos estúdios, reuniões com o Governo Regional e autarquias, solicitando colaborações, escolha de prioridades, e por aí fora.

Até hoje.

Como vê Sr. Ministro, a RTP em Lisboa e o Estado que a tutela, têm uma enorme dívida para com os Açores e os açorianos, que vão assistindo nestes últimos anos, impacientes, à degradação do serviço público de audiovisual nestas ilhas, fruto do abandono a que V. Exas. votaram o canal regional.

Vemos, com agrado, que a nova aposta do Grupo RTP, nos próximos tempos, será o incremento da sua produção através de parcerias com produtoras independentes.

Deixe-me dizê-lo, Sr. Ministro, que isto não é novidade na RTP.

Há cerca de 8 anos, a RTP-Açores iniciou aposta semelhante, dinamizando a sua programação regional com a participação de diversas produtoras externas de várias ilhas, que colocavam as suas produções na nossa antena... a custo zero!

Isto fez grande confusão à Administração em Lisboa, que de imediato mandou para cá alguém para acabar com tudo isso e mais alguma coisa, quase fechando as portas do canal.

Das cerca de 3 mil horas de produção regional que chegámos a emitir – um recorde absoluto, representando cerca de 60% de toda a programação da RTP-Açores – caímos de imediato para um trambolhão de menos de metade, quase um apagão regional.

Agora que estas «parcerias estratégicas» são «descobertas» em Lisboa, diga à atual Administração que venha até cá para aprender como se fazia então, com enorme sucesso, nos Açores.

Outro conselho, se me permite: quando reunir com o Presidente do Governo Regional, não leve consigo o capítulo referente aos Açores e Madeira do novo Contrato das Obrigações de Serviço Público de Televisão.

Aquilo é um conjunto de banalidades, que não aponta para nenhuma solução quanto ao futuro dos Centros Regionais, recheado de erros de palmatória e que parece redigido por alguém com a 4ª classe.

Leve propostas concretas, soluções, e os açorianos ficarão muito gratos se sair fumo branco do Palácio de Santana.

Façam do canal regional uma televisão pujante, como outrora, toda renovada, que espelhe as vivências e os sentimentos das gentes açorianas destas ilhas e da diáspora.

Mande colocar o sinal da RTP-Açores na TDT do Continente e Madeira, ou nas operadoras de cabo, e faça-a chegar, também, às Américas, mercado riquíssimo de açorianos que está por explorar.

Invista sem medo na televisão açoriana, que já deu provas, a nível nacional e internacional, da sua qualidade profissional, com a realização de muitas produções premiadas, desde os «Xailes Negros» a «Mau tempo no canal», que custaram bem menos de metade dos 910 mil euros investidos na atual série «Uma família açoriana», produzida para a RTP em Lisboa sem nenhuma colaboração solicitada à RTP-Açores.

Ficamos todos à espera de boas notícias.

Com os melhores cumprimentos

OSVALDO CABRAL

P.S. – Já agora, certamente que viajará de Lisboa num dos nossos aviões da SATA. Quando regressar, mostre ao seu colega Passos Coelho o preço da passagem que pagou para vir aos Açores e o que nós, açorianos, penámos para pagar no mesmo transporte.

Pergunte-lhe o que é feito da proposta das novas Obrigações de Serviço Público de Transporte Aéreo, que ele tem na gaveta há mais de um ano, com vista a baixar o preço das tarifas.

Ou ficará para as calendas gregas, como a RTP-Açores?!

Açores
Quando entrar, nos próximos dias, nas instalações da RTP-Açores, benza-se e olhe para cima, por precaução, para não lhe cair alguma trave ou tábuas de forro, como já aconteceu, devido ao estado de podridão a que Lisboa votou o canal regional.
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