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rss  Vol. XVII - Nº 297         Montreal, QC, Canadá - domingo, 23 de Fevereiro de 2020
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Depois de longo silêncio

Carlos Queiroz abre o livro...

Pela grande admiração que nutrimos pelo professor Carlos Queiroz, treinador que acaba de qualificar o Irão para o Campeonato do Mundo de Futebol do Brasil em junho próximo, decidimos publicar a entrevista que ele concedeu recentemente ao jornal Record e em que conta parte da sua carreira nos clubes onde trabalhou, assim como deixa perceber algumas das «coisas» que o fizeram deixar a Seleção Nacional.

Aqui fica, pois, o resultado da entrevista conduzida pelo jornalista António Magalhães.

RECORD – O que o fez vir para tão longe depois de sair da Seleção?

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Carlos Queiroz, em ombros, quando derrotou a grande favorita (Coreia do Sul) na corrida ao Brasil 2014.

CARLOS QUEIROZ – Uma das razões teve a ver com a oportunidade de treinar uma seleção que tinha um potencial concreto de poder estar no Brasil»14. Por outro lado, Irão... Ásia, que melhor sítio para poder distanciar-me do ambiente que vivi no futebol português nos últimos dois anos? Foi portanto a combinação de duas razões: o facto de ter sido condenado ao afastamento e a possibilidade de estar no Mundial.

R – E conseguiu!

CQ – Como treinador, este não é um Mundial qualquer para mim. É especial como foi o de 2010, na África do Sul, ao lado do sítio onde nasci, treinando a seleção do meu país. Não se pensa muitas vezes e daí ter tomado a decisão de sair do Manchester United, onde tinha seguro, garantidamente, um futuro à minha frente. Quando esta oportunidade apareceu, foram três as razões que ponderei e que gostava de detalhar.

R – Vamos então à primeira.

CQ – Quando o Irão me convidou estava a correr um processo que pendia sobre mim e em resultado do qual eu poderia, eventualmente, ficar suspenso durante alguns meses se o Tribunal Europeu confirmasse a acusação de ter perturbado o controlo antidoping. O presidente da Federação do Irão pôs em cima da mesa uma decisão simples: independentemente do que acontecer, quero que seja o treinador. Esta posição foi determinante para, depois de me livrar dessa infame acusação e com outras opções se calhar mais atrativas em termos de prestígio e impacto mediático, mantive a minha palavra. Por outro lado, tendo em conta o contexto da minha saída da FPF, a possibilidade de conseguir a qualificação para o Brasil, a terra do futebol, o que tem um excedente de desafio e atração que não é comparável.

R – E a terceira razão?

CQ – A observação que fiz dos jogadores e o apelo que senti quando vi a paixão que existe no Irão pelo futebol. Aqui nada é falso. Não é preciso fazer propaganda para levar gente aos estádios, este país adora futebol, está no sangue dos iranianos. A combinação destes fatores foi explosiva, a decisão tornou-se simples e dela tenho todas as razões para dizer que foi uma das boas decisões da minha vida.

R – Como explica que no Irão seja um herói e em Portugal tão mal-amado?

CQ – Não se pode agradar a todos e se calhar nem isso é bom. Tive a sorte de ter trabalhado em vários continentes e o privilégio de ganhar um troféu fantástico na minha vida: fiz amigos praticamente em todo o lado do Mundo e fiquei com portas abertas para voltar. Aliás, sempre que tenho um hiato na minha carreira, logo surgem convites dessas zonas. A primeira vez que saí, fui para o continente americano e é bom saber que me querem lá para diferentes projetos. Na África do Sul foi fantástico e tive sucesso. No Japão a mesma coisa, no Manchester United idem. E agora aqui também.

R – Mas em Espanha…

CQ – Mesmo aí, onde teoricamente as coisas não acabaram bem esse ano para o Real Madrid, ainda hoje, sempre que lá vou, recebo manifestações de carinho e respeito, pois analisam o contexto em que lá estive – nem uma bicicleta o presidente me deu, quanto mais um jogador. Em Portugal não tenho o mesmo apreço. Que hei de fazer?

R – Mas por que será?

CQ – Vamos lá a ver. Há duas dimensões: uma é o dia-a-dia e o sentimento de rua da maioria das pessoas. Devo dizer que em todo o lado são inúmeras as manifestações de simpatia que recebo, agradeço e retribuo. Depois existe um determinado setor da sociedade desportiva, neste caso do futebol, que não é estranho que existam essas rejeições e sentimentos.

R – Porquê?

CQ – Fui uma pessoa que no futebol português, para bem ou para o mal, desafiei interesses e pus em causa conceitos e métodos e com isso desafiou pessoas, as suas posições, as suas comodidades, as suas relações. Como me dizia Eriksson, não é impune que na vida se usa três palavras: sim, talvez e não. Não é impune que, depois, se queira viver com tranquilidade e a indiferença das pessoas que desafiamos quando dizemos não.

R – Não estranha, então?

CQ – Não estranho nem me perturba porque valeu a pena. E tanto que valeu a pena ter tido a ousadia de pensar e de dizer e a coragem de fazer que os resultados deixaram à evidência o que foram as transformações, as evoluções, progressos significativos que aconteceram na FPF, nos clubes, nos jogadores e nalguns treinadores. Mas isso é o que eu penso sobre mim e aquilo que valeu a pena fazer.

R – Não é esse o pensamento de muita gente…

CQ – Há outras pessoas que não têm a mesma opinião, principalmente aquelas que foram desalojadas das suas comodidades e posições. Mas todas elas têm o meu respeito e atenção. É normal que tenham reagido.

R – Qual foi o seu «pecado»?

CQ – Diziam muitas vezes que era preciso mudar as mentalidades. Assim fiz. E nessas circunstâncias, rapidamente se conclui que quando não é possível mudar as mentalidades, temos de mudar as pessoas. Não há alternativa, pois se não for assim não há progresso. Ao mudar tudo isso, criei anticorpos e não apenas ao nível do dirigismo desportivo.

R – Onde mais?

CQ – Aqueles que veiculavam a mensagem desportiva a nível da informação. Houve pessoas que se sentiram incomodadas com uma nova ideia pois não ia ao encontro dos padrões estabelecidos.

R – Está a falar de quem, de jornalistas?

CQ – Sim, de alguma imprensa também. Há líderes que conheci e conheço que viajam ao sabor dos ventos e cair das folhas. Há outros que lideram verdadeiramente. Quando se opta por esta forma de estar, esses incómodos são naturais. Percebo-os perfeitamente e não tenho ressentimentos.

R – Nem mesmo com Amândio Carvalho?

CQ – Não porque percebo perfeitamente as circunstâncias dessas pessoas. Só que numa determinada circunstância eu era o líder e tinha de tomar posições. Hoje, que estou longe do processo, essas pessoas são-me completamente indiferentes. Respeito-as pela sua existência, por aquilo que foram, por aquilo que são, mas não me dizem absolutamente nada. Não lhes guardo rancor. Como líder fiz o que achava que devia fazer.

R – Saiu então por cima, é isso?

CQ – Já levo mais de 32 anos de treino. Sabem de onde vim e onde comecei. Não é fácil mantermo-nos num nível de treino e de responsabilidades como reflete a minha carreira: Manchester United, Real Madrid, Sporting e 4 ou 5 seleções. Nunca fui pessoa de me propagandear, mas não há muitos treinadores que dirigiram duas vezes a seleção do Mundo. Só que eu não telefono aos jornalistas que conheço a dizer isso. Não é o meu estilo, o que não quer dizer que não respeito quem o faça. Hoje até há assessores que fabricam imagens…

R – Sente orgulho na sua carreira?

CQ – Manter-me durante 32 anos no top do futebol mundial não foi uma coisa fácil. Fi-lo à custa da credibilidade do meu trabalho junto dos treinadores e dos jogadores que têm sido os meus agentes em quase todos os contactos e oportunidades que tive na minha vida. Não trabalho nem trabalhei com agentes a promoverem-me e a venderem-me. Sinto todo o orgulho de ter escolhido uma forma de estar que é a minha. Eu não conhecia o José Augusto nem o Alex Ferguson. Mas foi através da credibilidade e os resultados do meu trabalho que construí as minhas amizades e com elas o cartão de crédito para novas oportunidades. Repito: ser escolhido para dirigir por duas vezes a Seleção do Mundo não é a mesma coisa que vencer um concurso televisivo de SMS.

Não há muitos treinadores que dirigiram duas vezes a Seleção do Mundo. Só que eu não telefono aos jornalistas...

R – Diz valeu a pena fazer o que fez, mas teve de fugir para o Irão…

CQ – Não sei se tive de fugir ou se condenei algumas pessoas a ficar.

R – Sente-se perseguido pelo futebol português?

CQ – Nunca direi isso. Recebi provas de amizade de muita gente do futebol português. Quando foi o meu caso na FPF, apresentei como testemunhas abonatórias sir Alex Ferguson, Jorge Nuno Pinto da Costa – nunca o esquecerei – e Luís Filipe Vieira. Disponibilizaram-se para ser minhas testemunhas num contexto que não era muito fácil. Pela gratidão que devo aos presidentes que representam duas instituições como o FC Porto e o Benfica e que abonaram a meu favor, nunca poderei dizer que do futebol português não tenho manifestações de apoio. Pelo contrário, maioritariamente tenho um apoio, estima e confiança que é para mim imaculada e que guardarei para toda a minha vida.

R – Mas nem todos abonam a seu favor...

CQ – Há pessoas que ocuparam, num determinado momento, setores de decisão que não tiveram a mesma opinião e sobretudo não a tiveram fundamentando-as em pressupostos inaceitáveis, infames, injustos e incorretos. Não querendo voltar nunca mais na minha vida àquilo que se passou – se o fizesse daria para 10 entrevistas destas, para um livro ao estilo do Carlosgate ou até para uma tese de doutoramento sobre como fazer cair Carlos Queiroz – não posso deixar de recordar como as coisas aconteceram e que voltar a falar no assunto não é bom para mim nem para o futebol português. Se calhar até é bom que nunca se saiba o que realmente se passou nesta história.

O treinador português que conduziu o Irão ao Mundial abriu finalmente o livro depois de um longo silêncio após um processo «bárbaro»...

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Pela grande admiração que nutrimos pelo professor Carlos Queiroz, treinador que acaba de qualificar o Irão para o Campeonato do Mundo de Futebol do Brasil em junho próximo, decidimos publicar a entrevista que ele concedeu recentemente ao jornal Record e em que conta parte da sua carreira nos clubes onde trabalhou, assim como deixa perceber algumas das «coisas» que o fizeram deixar a Seleção Nacional.
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