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rss  Vol. XVII - Nº 297         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 29 de Maio de 2020
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Dia das Bruxas na Ilha

Lélia Pereira da Silva Nunes

Por Lélia Pereira da Silva Nunes

A celebração do Halloween, a milenar tradição celta desembarcou na América do Norte, nos meados do século XIX. Se no passado pagão, acreditava-se que, no último dia do verão nórdico (31 de outubro), os espíritos saíam dos cemitérios para se apossarem dos vivos e que, para mantê-los longe, as propriedades eram decoradas com máscaras assustadoras, abóboras caricaturadas e iluminadas, no presente é uma festa divertida que comemora o «Dia das Bruxas».

Uma tradição que nos remete a dois velhos costumes da população do litoral catarinense: o «Pão por Deus», em fase de extinção ou apenas sobrevivendo em diferentes leituras, e a crença da «Procissão das Almas». Património espiritual da nossa gente, tanto um quanto o outro fizeram os caminhos do mar e sofreram com o passar dos séculos alterações sensíveis.

Já o «Halloween ou Dia das Bruxas» é muito recente a sua celebração no Brasil. Para alguns, é mais uma festa importada que nada tem a ver com as nossas tradições e que deve ser banida antes que integre o calendário cultural do País. Como se as tradições do Papai Noël no Natal, o coelhinho da Páscoa, o Pão por Deus, o Carnaval, o Boi Bumbá, as Folias dos Reis fossem, genuinamente, brasileiros e já realizadas muito antes de Cabral aqui chegar. Tanto é que foi criado em caráter nacional e por decreto o «Dia do Saci Pererê» em 2005. A querida personagem do folclore brasileiro nascido no Sul do Brasil e popular em todo o País. A data escolhida? Ora, o próprio dia 31 de outubro. Tudo a ver? Nada a ver, com certeza.

São estes jeitos de manipular ou controlar as manifestações culturais nascidas de um longo processo histórico que me afligem. Tenho observado o renascer de um nacionalismo cultural pautado numa visão etnográfica, numa redefinição do conceito de cultura – «como conjunto das manifestações populares, do saber dos mestres e artesãos, dos valores e tradições, dos modos de fazer e sentir de uma comunidade.» Tudo isso em detrimento de um conceito que abraça as diferentes formas de criação humana. Das grandes obras literárias, musicais, artísticas até as manifestações da cultura popular tradicional, incluindo aquelas expressões que chegaram pelo caminho da diáspora. Um legado que não se pode jogar pela janela numa atitude etnocêntrica. Será que se pode falar em etnocentrismo num País que recebeu a influência de tantos povos que gestaram a alma brasileira.

Esta fidelidade à nossa raiz nacional populista tem-se fortalecido ano a ano, numa resistência ao caráter «inautêntico» ou «postiço» da nossa cultura em defesa da brasilidade. Aí é que mora o perigo! O que nos prejudica não é a influência do que vem de fora, e sim a falta de cultura, de acesso democrático às grandes expressões culturais ou às manifestações populares tradicionais, sejam elas brasileiras ou não.

E, antes que coloquem no mesmo caldeirão o Halloween e as Bruxas da Ilha, lembrem que elas devem ter uma origem comum, mas no espaço telúrico e insular de Santa Catarina têm feições próprias, preservadas em dois séculos e meio de história cultural.

As Bruxas da Ilha estão eternizadas na literatura enfeitiçando o leitor, na música, nas artes – o Realismo Fantástico Ilhéu de Franklin Cascaes. Alegorias, metáforas, tempo, espaço se fundem e emergem na criatura: sortilégios, feiticeiras, seres alados, bernúncia, o cantar dos bilros nas mãos da mulher rendeira e o fadário da bruxa mulher, mítica e mitológica como as deusas feiticeiras de Homero.

Em tempos de «Halloween» vale a pena trazer à tona as nossas Bruxas da Ilha, de cá e de lá. Afinal, entre o real e o imaginário não há fronteiras.

Crónica
A celebração do Halloween, a milenar tradição celta desembarcou na América do Norte, nos meados do século XIX. Se no passado pagão, acreditava-se que, no último dia do verão nórdico (31 de outubro), os espíritos saíam dos cemitérios para se apossarem dos vivos e que, para mantê-los longe, as propriedades eram decoradas com máscaras assustadoras, abóboras caricaturadas e iluminadas, no presente é uma festa divertida que comemora o «Dia das Bruxas».
Bruxas da Ilha (2).doc
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