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rss  Vol. XVII - Nº 296         Montreal, QC, Canadá - quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2020
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Editorial

Babyboomocracia

Carlos de Jesus

Carlos de Jesus

Quando, aqui na América do Norte, nos anos 60 e 70 do século passado, isto é, quando os jovens nascidos da explosão demográfica que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial, vulgarmente designados por baby boomers, saíram das universidades, passaram logo de corrida ao assalto dos centros do poder, na política, na imprensa, nas instituições. Daí a dizer-se que o mundo que hoje conhecemos, e particularmente aqui no Quebeque, foi obra dos baby boomers é dum uma evidência indiscutível.

Foi assim que vimos, em 1970, um jovem primeiro-ministro com apenas 37 anos, a dirigir o Quebeque, e à memória do qual ficará para sempre ligada a construção da Barragem da Baía de James. Foi assim que vimos um Bernard Derome, em 1965, com apenas 21 anos, entrar ao serviço da informação de Radio Canada e passar a chefiar o Telejornal, cinco anos depois, em 1970, com apenas 26 anos de idade, lugar que manteve, com algumas intermitências, até janeiro de 2009.

Isto foi possível porque a geração precedente não sofria de preconceitos contra a juventude como hoje é apanágio dos baby boomers que, ao longo dos últimos 50 anos se têm agarrado ao tacho, e não estão dispostos a largá-lo e muito menos prontos a ajudar os mais novos a tomarem o bastão na corrida de revezamento que é o próprio da substituição das gerações. Mario Dumont, que aos 24 anos fundou a Action démocratique du Québec, não pode ser considerado uma exceção, visto que foi ele o criador do seu próprio partido, e muito menos André Boisclair que já passava da quarentena quando assumiu as rédeas do PQ.

Vem isto a propósito dos comentários que temos ouvido e lido, mesmo dos mais atentos observadores da cena municipal, acerca do curriculum dos principais candidatos às próximas eleições autárquicas em Montreal, particularmente no que respeita à idade da candidata Mélanie Joly.

Mélanie Joly formou-se em Direito pela Universidade de Montreal em 2001, onde foi presidente da Associação dos Estudantes de Direito, estudou também, entre 2002 e 2003 na Universidade de Oxford, na Inglaterra, na sua folha de serviços constam, além da sua carreira como advogada, que foi diretora do gabinete de relações públicas Cohn & Wolf, em Montreal, que foi a fundadora do grupo de reflexão «Génération d’idées», que é membro do conselho de administração do Musée d’Art contemporain de Montréal e do Conseil de la Langue française e que também já fez parte da administração da Régie des Rentes du Québec e da Orchestre symphonique de Laval, além de escrever no Huffting Post e ter sido eleita a mulher do ano pela revista Elle-Québec. Tudo isto para levar certos bonzos da informação a classificarem-na como demasiado «verde» por ter apenas 34 anos, segundo o seu registo de nascimento.

Os que escrevem sobre a cena municipal montrealense só tinham ouvidos e olhos para os três principais candidatos: Richard Bergeron, chefe do partido Projet Montréal, e que foi eleito, pela primeira vez, aos 50 anos, em 2005 como vereador. Denis Coderre, antigo deputado federal, desde 1997, que se lança agora, aos 50 anos, na arena municipal com a sua própria equipa, e Marcel Côté que, com a venerável idade de 71 anos, se propõe pela primeira vez a ocupar um lugar político pelo partido Vision Montréal de Louise Harel. Foi esta cegueira que levou os organizadores do primeiro debate sobre as eleições de Montreal a preverem apenas três estrados para os candidatos acima mencionados, para depois se verem obrigados, à l’improviste, de arranjarem um microfone para a Mélanie Joly, quando viram publicados, à boca da cena, os resultados da sondagem que dava esta última em pé de igualdade com Marcel Côté.

Quer isto dizer que se os baby boomers que reinam nos círculos da política e da informação, sofrem de dislexia quando se trata de ler as intenções dos eleitores, ignorando que se hoje ocupam os lugares que ocupam é porque na sua juventude alguém lhes abriu as portas.

É lógico que o argumento da idade, só por si, não pode justificar a capacidade ou incapacidade de um candidato a poder ocupar eficazmente o lugar a que se propõe. Mas esse argumento, sobretudo quando se trata de jovens, devia ser um valor positivo e não negativo.

Os velhos candidatos estão demasiado «batidos» nas antigas rixas políticas, estão demasiado comprometidos com o establishment, com a cultura dos círculos de amigos, com a direita ou a esquerda, com os independentistas ou os federalistas, para poderem facilmente ter uma visão jovem, de futuro, liberta das camisas de força ideológicas que lhes tolhem o pensamento e condicionam a ação. Com, ou sem razão, quem se lança em política, depois de uma certa idade, parece estar mais interessado em engrinaldar a sua pensão de reforma do que em procurar servir o bem comum. «Não basta que a mulher César seja honesta, também tem que parecê-lo»!

Os que acusam a Mélanie de não ter experiência da política municipal, esquecem-se de duas coisas. De um, se a experiência do lugar fosse um pré-requisito, nunca havia de haver novos primeiros-ministros nem novos presidentes da câmara. Em política como em democracia, não há escolas onde aprender. Aprende-se praticando.

Segundo, não é um presidente da câmara – lugar a que aspira Mélanie Joly – que se vai ocupar do calcetamento das ruas, da reparação dos esgotos, das canalizações de água, da plantação das árvores ou do planeamento urbano. Assim como um ministro da saúde não precisa de ser um médico (o que por vezes só se prova contra produtivo), mas precisa de ser alguém com o sentido das necessidades da população e das contingências dos orçamentos para delinear um linha política eficaz, assim o presidente da câmara – um pouco à semelhança do que tem feito Régis Labeaume na cidade de Québec – não precisa de ser o executante de obras mas o visionário, o inspirador, o aglutinador de vontades para criar uma nova dinâmica nesta cidade tão escanzelada, tão sofredora de tantas maleitas que os velhos caciques lhe têm imposto.

Os seus detratores vão ao ponto de considerar Mélanie Joly de ser não só demasiado jovem, mas ainda de ser demasiado bonita, ou demasiado ambiciosa. Mélanie Joly é tudo isso mas é também alguém que já provou ser capaz de navegar, com elegância, entre os escolhos que dividem a sociedade quebequense. Não se coíbe de dizer que tem Lucien Bouchard como mentor o qual lhe aconselhou François Leblanc, que foi chefe do gabinete de Gilles Duceppe durante 12 anos, como diretor de campanha. O seu assessor para a imprensa é Frédéric Lepage que também trabalhou para o Bloc de 2001 a 2009. Não obstante estas ligações com os meios nacionalistas, ela é a mesma Mélanie Joly que durante a última campanha para a direção do Partido Liberal do Canadá foi a principal organizadora do candidato Justin Trudeau para a região do Quebeque, com os resultados que todos conhecemos.

Quando vemos Louise Harel, a eterna independentista a manejar o títere que é Marcel Côté, no qual toda a intelligentsia montrealense pôs as suas esperanças; quando vemos um Richard Bergeron, o ideólogo da cidade sem automóveis, o campeão da teoria dos complôs – «tenho uma teoria para todos os complôs», disse ele sem rir a um jornalista; quando vemos um Denis Coderre que nunca fez nada na sua vida senão fazer da política – e é por isso que vai ganhar; quando vemos outros ainda mais extremistas, como Michel Brûlé que quer apagar da fachada montrealense tudo quanto não francês, quando vemos os programas e as vidas de todos estes candidatos, uma pergunta se impõe – porque não votar na juventude?

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Quando, aqui na América do Norte, nos anos 60 e 70 do século passado, isto é, quando os jovens nascidos da explosão demográfica que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial, vulgarmente designados por baby boomers, saíram das universidades, passaram logo de corrida ao assalto dos centros do poder, na política, na imprensa, nas instituições. Daí a dizer-se que o mundo que hoje conhecemos, e particularmente aqui no Quebeque, foi obra dos baby boomers é dum uma evidência indiscutível.
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