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rss  Vol. XVII - Nº 296         Montreal, QC, Canadá - sexta-feira, 05 de Junho de 2020
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Mariza

O Fado como espelho do ser português

Raquel Cunha

Entrevista de Raquel Cunha

Mariza, que é indubitavelmente considerada como a atual a rainha do Fado, vista como seguidora de Amália, desfruta já de uma fama mundial, fruto de uma voz penetrante e um carisma indiscutível. Após uma ausência voluntária, fruto do nascimento do seu primeiro filho Martim, Mariza regressa agora aos palcos e à gravação de um novo álbum, repleto de surpresas. Em digressão mundial, volta a atuar em Montreal no próximo dia 19 de outubro, na Place des Arts. O LusoPresse teve o prazer de conversar com quem é hoje a mais conceituada embaixadora desta música, tão portuguesa. Fica aqui o relato da entrevista.

Nascida em Moçambique e criada na Mouraria, bairro popular lisboeta, Mariza teve um percurso de vida surpreendente. Sem muito dinheiro, conseguiu vingar no mundo, na altura moribundo, do Fado. Não só vingou, como deu-lhe uma nova força, um novo fôlego. Atrás dela vieram várias outras fadistas ditas modernas, como Carminho, Ana Moura e Gizela. Mas não restam dúvidas de que a porta para tamanha sucessão de talentos, foi por ela aberta, assim como a consagração do Fado como Património da Humanidade.

MARIZA _MG_9327 _ Crédit CAMI Music.jpg
Foto Cami Music

Para este espetáculo de Montreal, a artista promete trazer todos os seus «singles emblemáticos, que tanto carinho despertam no público». Pretende que seja «uma espécie de viagem pelo reportório de todos os meus discos, com os temas mais conhecidos, mas ao mesmo tempo, pretendo cantar alguns temas que fazem parte da minha história musical, que não são necessariamente fados. Mais não posso dizer, porque tudo é feito no momento. Este espetáculo quer-se volátil, ou seja, o alinhamento e a escolha das músicas dependem do público presente. Quero que cada concerto desta tournée seja especial, e para isso, preciso sentir a sensibilidade do espaço, a fim de criar uma intimidade com o público ali presente. A música e a performance em si é uma espécie de laço que nos une, e por isso, a necessidade de fazer um concerto onde esteja mais próxima das pessoas, onde as sinta e responda ao sentimento da plateia».

Nesses 12 anos de sucesso Mariza confessa-se como «uma artista muito mimada pelo público. Sou sempre muito bem recebida, mas não deixo de ficar sempre muito nervosa antes de um espetáculo. Antes era um nervoso mais inconsciente, mas agora é cada vez mais consciente». Consciente da responsabilidade que carrega, das expectativas de quem a assiste e das expectativas que tem de si mesma, expectativas de «fazer sempre o meu melhor e que todos os concertos sejam marcantes, ou seja, de alguma forma especiais».

Cresceu na Mouraria, bairro fadista de Lisboa. Conta por isso que «não havia escapatória» para a sua imersão no mundo do Fado. «Cresci com o Fado, as minhas vizinhas ouviam fado, os meus pais escutavam Carlos do Carmo constantemente», relembra. Tendo o fado como banda sonora, da cidade onde cresceu, e como os seus pais «tinham uma pequena taberna, comecei a cantar, e foi aí que tudo começou».

Com o Fado na alma, acha fabuloso a aparição de tantos novos talentos no mundo do fado. «O que quer que seja feito para preservar o Fado, merece ser honrado. É uma das melhores músicas que há no mundo, de tão orgânico e de tanto que faz mexer os sentimentos. É mais do que uma música, é o transpor de uma alma própria, que tem um coração que bate. Escusado será dizer que amo o fado».

Por isso vê o Museu do Fado em Lisboa como uma das suas casas e onde partilha muito do que recebe e aprende. Também com o intuito de divulgação do Fado, Mariza iniciou recentemente um projeto de lecionar algumas aulas nos liceus sobre fado. «É preciso conhecer melhor a nossa cultura», insiste.

Sobre ser vista como quem renovou o fado, dando-lhe uma nova cara e uma lufada de ar fresco, Mariza é humilde ao afirmar que «fui eu, como poderia ter sido qualquer outra pessoa. Foi uma questão de ter aparecido na hora certa. Talvez a minha apresentação tenha ajudado», reflete, «mas tem muito a ver com a minha verdade, com esta Lisboa que tanto amo. Talvez as pessoas se revejam na forma como eu as vejo. Gosto dessa nossa autenticidade, de sermos um país que, embora voltado para o futuro, preserva como nenhum outro, as suas tradições».

Fala por isso que «de todos os povos que conheço e de tanto que tenho viajado, cada vez mais me convenço que o português é o povo que mais se mantém fiel a si mesmo, que preserva as suas tradições, embora se adapte aos novos costumes. Exemplos disso são os portugueses que se encontram fora de Portugal. Nós cuidamos muito das nossas tradições».

Talvez por isso não se imagine a viver fora de Portugal, nem mesmo fora de Lisboa. «Só a ideia faz-me confusão, estou cada vez mais enraizada em Lisboa. Talvez por ter viajado tanto, dê tanto valor ao que temos, e sinceramente, não acredito que exista no mundo melhor país que o nosso, melhor gente que a nossa. Lisboa é uma cidade muito especial e, quanto mais viajo, mais a aprecio».

Nós sabemos bem o que diz, e cá entre nós, existe alguma melhor forma de sermos representados? Ser português não é uma questão de território mas de alma, de uma alma profundamente lusitana, e o fado, é a língua em que essa alma se expressa no mundo.

Destaque
Mariza, que é indubitavelmente considerada como a atual a rainha do Fado, vista como seguidora de Amália, desfruta já de uma fama mundial, fruto de uma voz penetrante e um carisma indiscutível. Após uma ausência voluntária, fruto do nascimento do seu primeiro filho Martim, Mariza regressa agora aos palcos e à gravação de um novo álbum, repleto de surpresas.
Conversa com Mariza.doc
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